Psicopedagogia Bússola de ouro A orientação dos pais pode se tornar uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de comportamentos adaptativos em crianças e trazer um novo olhar aos profissionais da área Cognitivo-Comportamental
Por Karen Cristina Silva Matos Viegas e Marcelo Brandt Fialho
A família, por ter influência recíproca, direta, intensa e duradoura entre seus membros, é o principal agente de socialização da criança e influenciará na aquisição de suas habilidades, comportamentos e valores apropriados para cada cultura, constituindo-se em uma dimensão essencial na vida dos indivíduos. É caracterizada como parte essencial na construção da saúde emocional de seus membros, tendo como função básica a proteção e o bem-estar destes (DE ANTONI, 2005, OSÓRIO, 1992; MINUCHIN, 1982, apud OLIVEIRA , et. al., 2008).
Por ser o primeiro ambiente social da criança Cia et. al. (2006) refere-se aos estudos de Gomide (2003), Ingberman e Löhr (2003), Del Prett e e Del Prett e (1999) para afirmar que pais e mães, ao emitirem comportamentos socialmente adequados com os filhos, estão moldando suas características comportamentais. Pais também contribuem para o desenvolvimento saudável da infância, conforme os estilos parentais desenvolvidos.
Nos últimos anos, o desenvolvimento das crianças tem sido relacionado com a importância da qualidade da relação pais-filhos. Alguns estudos, inclusive, correlacionam práticas parentais negativas a problemas no desenvolvimento cognitivo e social e ao baixo desempenho dos filhos. Outros estudos indicam que crianças em idade escolar, com pouca interação com ambos os pais, apresentam menor desenvolvimento cognitivo e mais problemas de comportamento (ANSELMI, et. al., 2004; GOMIDE, 2003; STOCKER et. al., 2003 apud CIA, et. al., 2006).
Será no contato com os pais que a criança aprenderá uma série de habilidades motoras, linguísticas e afetivas
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Por ter influência recíproca, direta, intensa e duradoura entre seus membros, a família é o principal agente de socialização da criança. É por essa razão que constitui uma dimensão essencial na vida dos indivíduos |
Dessa forma, as práticas parentais educativas estão entre as variáveis que podem influenciar os problemas de comportamento. Práticas positivas podem evitar o surgimento e/ou a manutenção de problemas de comportamento, enquanto as negativas podem aumentar a probabilidade de sua ocorrência (BOLSONI-SILVA, SILVEIRA , MARTURA NO, 2008).
Machado (2008) evidencia a importância dos modelos infantis à luz da teoria da aprendizagem social de Bandura (1960) para explicar a formação e o condicionamento de padrões comportamentais, identificando os pais como agentes de mudança mais efetivos de comportamento em seus filhos.
Será no contato com os pais que a criança aprenderá uma série de habilidades motoras, linguísticas e afetivas, necessárias para a orientação em seu ambiente físico e social. Portanto, o êxito das etapas formativas do indivíduo dependerá primordialmente do processo de socialização. Todo esse repertório passará por contínua transformação e o ingresso em novos grupos sociais reforçará comportamentos adequados e inadequados socialmente (GONÇALVES, MURTA, 2008).
Tendo as relações familiares uma grande influência sobre o bem-estar das crianças Machado (2008) citando Caballo e Simón (2007) conclui que as relações interpessoais deterioradas dentro da família podem constituir-se como fator de risco comum. A falta de uma relação afetiva e positiva com os pais, um apego inseguro, práticas disciplinares de rigidez, inflexíveis ou inconsistentes, uma inadequada supervisão e relação com os filhos, os conflitos e as rupturas do casamento e ainda a psicopatologia dos pais (especialmente depressão da mãe) aumentam o risco de as crianças desenvolverem problemas comportamentais e emocionais.
PARA SABER MAIS
Treinamento de Pais em Habilidades Sociais
Pinheiro (2006) apresenta uma das importantes formas de interação terapêutica para atuar junto a estes modelos familiares, no contexto Cognitivo-Comportamental com crianças e pais: o Treinamento de Pais em Habilidades Sociais (TP-HS) que tem como objetivo orientar e instruir os participantes sobre a necessidade de motivar seus filhos para comportamentos mais adaptativos, supervisionando-os, incentivando-os, dando atenção ao bom desempenho e retirando a criança que não se comporta da maneira combinada como forma de identificar os comportamentos desadaptativos.
Tais programas treinam os pais a serem "terapeutas comportamentais" de si e dos próprios filhos. Machado (2008) cita Caminha e Caminha (2007) para ressaltar que ensinar aos pais um conjunto de habilidades comportamentais e técnicas para ajudá-los a modificar os comportamentos das crianças por meio dos programas parentais torna-se um dos objetivos do terapeuta na TCC infantil. Porém, a cognição dos pais deve ser identificada e trabalhada para o sucesso do programa de orientação. Pensamentos e sentimentos sobre "ser" pai ou mãe e atribuições de causas de comportamento da criança são focos importantes a serem discutidos.
Rios e Williams (2008) propõem que recursos como discussões em grupos, encontros expositivos, video feedback, material informativo impresso, dinâmicas em grupo, tarefas de casa, role-playing, técnicas de relaxamento e solução de problemas, entre outras, podem ser utilizados com os pais durante as orientações e treinamentos, como forma a clarificar os novos repertórios de manejo na educação de seus filhos.
Ainda que a orientação comportamental e cognitiva de pais (Cognitive Behavioral Parent Training) seja uma das formas mais comuns e eficazes de tratamento infantil e adolescente ela não pode ser considerada a única forma de intervenção possível (SILVARES, SOUZA, 2008). |
As relações interpessoais deterioradas dentro da família podem constituir-se como fator de risco comum
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Estilos parentais
Também chamados de práticas parentais, Gomide (2006) classificou os estilos parentais como positivos e negativos. Os positivos compreendem a monitoria positiva (uso adequado da atenção e distribuição de privilégios) e o comportamento moral (promover condições favoráveis ao desenvolvimento das virtudes, tais como empatia, senso de justiça, responsabilidade e trabalho). As práticas negativas envolvem a negligência, a a usência de atenção e de afeto e a disciplina relaxada, que compreende aspectos de afrouxamento das regras estabelecidas e punição inconsistente.
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Completando o quadro das influências, a escola torna-se significativa para o comportamento infantil e contribui de diversos modos para a formação do indivíduo por meio do desenvolvimento de comportamentos, habilidades e valores. Os dois principais ambientes na vida da criança (o doméstico e o escolar) concorrem para que o resultado final seja percebido pelos pais e educadores como comportamento adaptativo ou desadaptativo, com o "bom" comportamento ou "mau" comportamento (PINHEIRO, 2006).
Bolsoni-Silva, Paiva, Barbosa, (2009) referenciam os estudos de Achenbach e Edelbrock (1979) para apresentarem duas amplas categorias de problemas de comportamentos identificadas como comportamentos externalizantes e os internalizantes. Os primeiros são aqueles que envolvem impulsividade, agressão, agitação, bem como provocações e brigas. Já os comportamentos internalizantes podem ser observados quando há preocupação em excesso, tristeza, timidez, insegurança e medos. Os mesmos autores consideram como problemas de comportamento tanto os externalizantes quanto os internalizantes por entenderem que são igualmente prejudiciais ao desenvolvimento da criança. Essa constatação é compartilhada por outros pesquisadores, que afirmam que os dois grupos de comportamentos dificultam o desenvolvimento psicossocial da criança, já que os internalizantes podem privá-la de interagir com o ambiente, e os externalizantes podem gerar conflitos e provocar rejeição de pais, professores e colegas (BOLSONI-SILVA, et. al., 2006; GOMIDE, 2003; MARINHO, 2003; PATT ERSON, REID, e DISHION, 2002 apud GONÇALVES, MURTA, 2008).
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