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O Jesus sem culpa
Crítico enfático da moralidade cristã, Nietzsche defende uma experiência religiosa que elimine a supressão da vontade de potência e leve o homem à felicidade. E, em alguma de suas obras, defende Jesus e seus ensinamentos, por considerá-los extramorais

Renato Nunes Bittencourt
é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ e professor do curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA

Imagem: shutterstock

As inúmeras transformações sociais e valorativas ocorridas na modernidade oitocentista a partir da queda do ideário aristocrático e sua substituição pela visão de mundo burguesa trouxeram consigo um projeto cultural de instauração da noção de "igualdade" na esfera política, econômica ou social. Todavia, o projeto moderno de estabelecimento da "igualdade" humana se revelou uma farsa, pois nenhum ser humano manifesta qualquer tipo de característica semelhante a outrem, e se falamos de "igualdade", estamos certamente estabelecendo uma redução simbólica da condição individual.

No decorrer de sua atividade filosófica, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) demonstra uma evidente incompatibilidade axiológica em relação aos parâmetros normativos da moralidade cristã, por considerá-la responsável pelo contínuo adoecimento existencial do ser humano, limitado em seus potenciais criativos pelo poder coercitivo imposto por tal instituição religiosa. Todavia, suas violentas críticas ao projeto moralista da Cristandade não significam necessariamente uma negação do valor da experiência religiosa, quando esta se pauta em valorações imanentes e extramorais, tampouco uma negação radical do sentido da experiência cristã em sua expressão originária, isto é, a partir da obra evangélica de Jesus de Nazaré.

Cumpre destacar que Nietzsche, em diversas passagens de suas obras, explicita colocações elogiosas acerca da pessoa de Jesus. Destacamos a encontrada em Humano, demasiado humano, § 475, quando Nietzsche denomina Jesus como "o mais nobre dos homens", assim como no Assim falou Zaratustra em que, apesar de depreciar a obra evangélica de Jesus, por considerá-la marcada pela tristeza judaica, considera o Nazareno dotado de caráter nobre: "Na verdade, morreu cedo demais aquele hebreu, que os pregadores da morte lenta reverenciam; e para muita gente, desde então, foi uma fatalidade que ele tenha morrido demasiado cedo. Ainda o hebreu Jesus só conhecia as lágrimas e a melancolia judaicas, juntamente com o ódio aos bons e justos, quando o acometeu a ânsia da morte.

Se ao menos tivesse ficado no deserto e longe dos bons e dos justos! Talvez tivesse aprendido a viver e amar a terra - e, além disso, a rir! Acreditai em mim, meus irmãos! Morreu cedo demais; ele próprio teria revogado a sua doutrina se tivesse chegado até à minha idade! Era suficientemente nobre para abjurar!" (Assim falou Zaratustra, "Da morte voluntária").

Nietzsche considera existir um distanciamento axiológico radical entre a moral cristã e a mensagem original enunciada vivida por Jesus

Imagem: detalhe de sermão e ações do anticristo, d
Em Humano, demasiado humano, Nietzsche escreve ser Jesus "o mais nobre dos homens" e em Aassim falou Zzaratustra afirma que ele morreu cedo demais

Entretanto, é nas páginas de O Anticristo, redigido em 1888, que encontramos de forma mais sistemática as suas considerações sobre a doutrina evangélica de Jesus, circunstância que motiva o filósofo alemão a elaborar a chamada "Psicologia do Redentor", que se caracteriza pela surpreendente defesa da experiência divina de Jesus, caracterizada como destituída de qualquer disposição ressentida.

A justificação técnica para esse Nietzsche considera existir um distanciamento axiológico radical entre a moral cristã e a mensagem original da práxis crística, enunciada e vivida por Jesus de Nazaré, que jamais teria empreendido uma luta contra os parâmetros de valor da vida imanente.

Cabe ainda destacar que Nietzsche utiliza como suporte em sua empreitada a figura do Príncipe Míchkin do romance O Idiota, de Dostoiévski, considerando que este intuiu psicologicamente Cristo, a despeito de qualquer necessidade de adaptação a parâmetros teológicos ou filológicos.

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