Para refletir Quando o mundo falava latim Um império que transformou o Mediterrâneo num mar romano e alcançou também a parte mais ocidental da Europa
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Um império que dominou quase toda a Europa até as Ilhas Britânicas. Que, praticamente, dominou o norte da África e a então chamada Ásia Menor, detendo-se apenas ante o subcontinente indiano. Um império que transformou o Mediterrâneo num mar romano e alcançou também a parte mais ocidental da Europa – a Península Ibérica. Este império falava latim. Desse tronco-matriz linguístico originou-se a diversificada gama das línguas vernaculares neolatinas. A última delas foi nossa língua portuguesa, chamada apropriadamente pelo parnasiano Olavo Bilac de “a última flor do Lácio”. O Lácio era a denominação arcaica da Itália central cuja capital era Roma, capital do Império. “Todos os caminhos levavam a Roma”, dizia uma velha máxima. E isso fez do Império Romano o maior exemplo de hibridismo cultural de todos os tempos. Todas as culturas e religiões estavam lá, inclusive a seita dos cristãos proveniente dos confins do império. Mas o estilo artístico dominante desse império e sua religião oficial eram gregos. É o que constatamos facilmente na mostra Roma – A vida e os imperadores, em exibição no MASP.
Roma domina a Grécia em 146 a.C. Acontece então algo estranho. Ideias mostram ser mais fortes que o poderio militar. Uma cultura superior se sobrepõe à força dos exércitos. Roma, vitoriosa, dobra-se ante à cultura grega. Adota o panteon dos deuses gregos, seu teatro, sua Filosofia (notadamente o estoicismo, que adubará o terreno para a ética cristã), sua Literatura e, principalmente, sua Arquitetura. Roma se heleniza ao ponto da elite aristocrática romana falar grego, além de latim. Na soberba construção do fórum de Trajano (113. d.C.) duas bibliotecas são construídas. Uma para textos latinos e outra para os textos gregos. Preceptores e pedagogos gregos são contratados para serem professores dos filhos da elite roma na. A Grécia revive em solo latino. E inicia-se um processo de hibridização cultural sem precedentes. Os exemplos são facilmente encontrados na exposição do MASP.
Aos poucos, entretanto, o temperamento prático latino irá se sobrepor ao idealismo grego. Note-se, nesta mostra, a Arte escultórica dos bustos da aristocracia romana. Uma arte figurativa do retrato, decididamente, já está em gestação na captação dessas fisionomias. São evidentes as tentativas quase fotográficas, altamente realistas, tentando solucionar plasticamente a personalidade desses rostos. Em alguns casos alcançam tal interioridade psicológica que poderíamos chamá-las de expressionistas, com todo o mérito. Mas a ampla amostragem trazida para a mostra evidencia também a diferença da técnica desses escultores. Ao lado de obras-primas, encontramos soluções bastante toscas de artistas inferiores. Essa Arte realista romana certamente derivou da Arte mortuária etrusca arcaica, preocupada com a fidelidade fisionômica dos seus antepassados e teve que se resolver de alguma maneira frente à forte influência do cânone idealista grego. A Arte romana desenvolveu-se decididamente para um naturalismo, abandonando aos poucos a busca do ideal de essência e beleza da Filosofia grega. Essa idealização grega, entretanto, será reservada e utilizada para fins políticos nas estátuas dos imperadores, divinizando-os. Por outro lado, uma Arte popular emerge aos poucos dentro desse forte processo de mestiçagens diversas, onde cânones egípcios e orientalismos diversos também se fazem presente.

Walter Cezar Addeo - Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Escritor e roteirista. waddeo@uol.com.br |
A mostra, entretanto, nos reserva outra grata surpresa. Ela nos traz uma vitrine antropológica da vida romana. E talvez seja esse o acervo mais instigante e comovente. Para muito além das esferas do poder, da divinização do imperador, vemos uma Arte se fazendo também nos objetos de uso do cotidiano. Vidros de perfumes, fogareiros ornamentados, urnas mortuárias, pinças, agulhas, vasilhames para comida, facas, estribos, perneiras, elmos, joias e ornamentos diversos, sandálias, moedas, fragmentos de um afresco residencial de Pompeia, enfim, esta vasta gama de objetos que permitem aos humanos enfrentarem sua sobrevivência diária. Objetos comuns utilizados por artesãos, escravos, camponeses estão lá ao lado dos emblemas de poder do Império e de suas elites. Então percebemos o terreno sólido onde os impérios se sustentam. Eles só podem subsistir apoiados na incansável luta diária de sobrevivência do povo, no seu labor incessante a cada amanhecer, pelos séculos afora. Nestes objetos de uso do cotidiano, nesta arte de viver obstinada e anônima das pessoas é onde podemos encontrar essa Roma eterna, para muito além dos bustos em mármore de seus Césares. (W.C.A.)
Roma – A vida e os imperadores.
MASP – Av. Paulista, 1.578 – Bela Vista, SP.
Até 22/04/2012
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