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O movimento romântico foi uma espécie de acontecimento total, englobando teorias filosóficas, Música, Literatura, Poesia, Teatro, uma nova concepção da história e do papel social dos indivíduos nos acontecimentos, uma nova Epistemologia tentando sanar a ruptura entre intelecto e os sentimentos e paixões do corpo (clivagem aberta pelo Iluminismo que gestou nossa sociedade tecnocrata), numa procura incessante do que poderíamos chamar de "alma do mundo". Uma reconciliação difícil e sempre precária entre corpo, mente e natureza. Neste sentido, o ideal romântico seria eterno. Ele apenas refluiria de tempos em tempos, mas se manteria como um rio subterrâneo dentro da Cultura.
Então, o encontraríamos sempre, mesmo em fragmentos, pontuando a Cultura em todos os tempos como uma sombra pertinaz, impossível de remover, por mais que o mundo se converta em pura técnica e eficiência produtiva. O ideal romântico sempre procurará o caminho perdido até reencontrar a alma das coisas. Não foi à toa, portanto, que ele se voltou para o "espírito do povo" (volksgeist), revalorizando mitologias profundas, a sabedoria popular e os folclores nacionais como uma herança ancestral e artisticamente produtiva. Então, um "eu absoluto" (primeiro degrau para o conceito de "espírito absoluto" de Hegel) é a pedra de toque que comanda o movimento romântico, mesmo quando ele reaparece com outros nomes. Talvez seja, ele também, o outro nome do que Gustavo D'Ors chamou de "eon barroco" em oposição ao "eon clássico". Um "avatar" moderno do sentimento barroco. Neste sentido, falar do romantismo como A arte do entusiasmo, como pretende a exposição do MASP, está mais do que correto. Uma escolha feliz do curador Teixeira Coelho.

Walter Cezar Addeo - Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Escritor e roteirista. waddeo@uol.com.br |
A palavra "entusiasmo" (enthousiasmos, em théos) não é tão inocente como nos parece hoje. Este vocábulo remete diretamente para a recuperação dos conceitos de "delírio" e "furor divino", tal como Platão explicita no Fedro, por exemplo, ao identificar tais estados diretamente com o da criação poética. Estar em estado de entusiasmo, na versão antiga, é estar totalmente tomado por um deus que usa o poeta como seu médium para que fale totalmente possuído pelo "logos". Então, se algum movimento artístico pode reivindicar esta condição é justamente o movimento romântico. Só ele pensa este artista total, compromissado vitalmente com sua missão. O artista é novamente um visionário, como foi o poeta platônico antigo. O mundo, a vida e a Arte passam a ser, no romantismo, uma coisa só.
Nas artes plásticas, isso irá representar uma tentativa extrema de integrar o sensorialismo e as emoções na representação pictórica. Tentativas mais adequadas à poesia, certamente, mas que levaram a experiência da tela praticamente até o Impressionismo que revolucionou a pintura da paisagem. Uma paisagem agora dotada de espírito; trágica, melancólica, triste, radiosa, amedrontante, misteriosa, demoníaca e angelical. Pense-se, por exemplo, em Turner, Constable e Caspar David Friedrich. Isto pode ser constatado nas mais de setenta obras expostas no MASP que vão de El Greco, passando por Turner, até Monet. Uma prova de que a chama do movimento romântico não se extingue facilmente, mesmo que apareça com outros nomes. Afinal, como já se disse, é um movimento fácil de detectar em vários momentos, mas difícil de explicar.
Num mundo como o nosso, totalmente espetacularizado, onde os cidadãos foram reduzidos a passivos espectadores e a natureza a um mero objeto instrumental, talvez um sujeito social, finalmente acordado, com a alma novamente dotada de ímpeto e paixão, como queria o Romantismo em seu momento mais alto, possa, ainda, nos ensinar alguma coisa. O MASP acerta em manter por longo tempo a exposição do seu rico acervo de Arte romântica à disposição dos visitantes e pesquisadores. (W.C.A.)
Romantismo - A Arte do Entusiasmo.
MASP - Av. Paulista, 1.578 - Bela Vista, SP.
Acervo por tempo indeterminado.

Roland Barthes:
uma biografia intelectual,
Autor: Leda Tenório da Motta,
Editora: Iluminuras
288 págs. |
A intensidade dos fascínios sígnicos - ROLAND BARTHES
Existem pensadores que influenciaram, de tal maneira, toda uma geração que, de forma inelutável, vão e retornam, visto a grandiosidade, profundidade e fascínio de suas reflexões. Referimo- nos a Roland Barthes. Autor de obras que ocupam espaços de grande porte epistemológico. Autor das eternas e intensas lições de Fragmentos de um discurso amoroso e muitas outras obras que repercutiram não somente no contexto francês, mas, inclusive, no Brasil.
Roland Barthes: uma biografia intelectual merece uma leitura cuidadosa de todos que se interessam pelos tortuosos caminhos das correspondências de sons e sentidos, Literatura, crítica literária e outros. A autora se propõe àquela árdua e arriscada tarefa de realizar uma biografia intelectual de uma figura muito conhecida e que, certamente, possui múltiplas faces. E esta tarefa, conforme se sabe, envolve muitas questões: entre outras, é preciso separar aquela paixão que, obviamente, todos os biógrafos possuem, para conseguir enxergar os possíveis defeitos e falhas do biografado sem ficar desculpando-o, ao longo do texto, para que não se torne uma hagiografia.
A obra em questão, realmente, é uma biografia intelectual e a autora cumpre exaustivamente seu objetivo. Esta biografia do pensador francês não é um livro de fofocas e bisbilhotices. Busca uma verdadeira revisão do papel de Barthes, em especial para a Semiologia, assim como para a Literatura.
Leda Tenório, grande crítica literária (uma das únicas deste país que pode levar o "rótulo" com dignidade) concretiza um trabalho de pesquisa detalhado. Centenas de fontes são consultadas para a realização da obra. Ou seja, a rara generosidade intelectual de colocar outras vozes que vão falar de Barthes. A generosidade e grandiosidade de quem possui encantamento próprio, natural e, desta forma, não tem medo de citar outros nomes e fontes.
Destaco, entre tantos outros aspectos que merecem ser pensados na obra em referência, em especial, a questão da morte do autor e a morte do homem. Eis um ponto muito relevante e de grande profundidade: Barthes lança grandes discussões a esse respeito. Ele não decreta a morte do homem. Contudo, põe em franca discussão a morte do autor. O que significa esclarecer, uma vez mais, até que ponto pode existir um grau de originalidade na humanidade? Até que ponto não somos determinados, em especial, pelo nosso discurso, pela escritura, se a própria língua já possui estruturas com as quais não podemos lutar? Estruturas que, na verdade, vêm de fora para dentro?
Um outro ponto que merece destaque: qual seria o papel da Literatura? Em que medida as palavras e as coisas se correspondem? Qual seria o tamanho do rombo, da fissura, entre as palavras e as coisas?
E, finalmente: como classificar Roland Barthes? Qual a real contribuição do pensador francês? Nas palavras de Leda Tenório: ".o percurso de Barthes, apesar de vertiginoso, nada tem de incerto, mas fecha-se sobre si. E, ainda, de sugerir que o jogo da suspensão ligado ao 'desejo de neutro' faz dele um cético contemporâneo."
A obra de Leda Tenório lança dois desafios (nada fáceis): o primeiro, revisitar toda obra de Barthes (para aqueles que, ainda, infelizmente, ainda não a conhecem); o segundo, conhecer ou reler os grandes e clássicos referenciais apontados por ela, isto é, somente para ficarmos com alguns exemplos: Foucault, Lévi-Strauss. Enfim, esta obra que supre, com muita segurança, um espaço em nossa Literatura conceitual, ao mesmo tempo, nos remete a um longo diálogo que deveria ser resgatado: afinal, nos Tristes Trópicos, o que é um autor? O que é o prazer do texto? Ousamos afirmar: no céu acima a catedral em obras. Ou seja, a violência sutil do riso.
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