Cinema As angústias de Tarkovski Discutimos alguns filmes do genial diretor russo Andrei Tarkovski
Por Flávio Paranhos

Seria o Oceano uma metáfora para Deus? A obra do russo Tarkovski, Solaris mostra a possível influência de Dostoiévski ao retratar a escolha que Kris teria feito por Deus, em detrimento da verdade
Na edição Nº 25 desta revista, discutimos alguns filmes do genial diretor russo Andrei Tarkovski, a partir de um prisma heideggeriano1. Naquela época, deixei de lado Solaris, que é, de certa forma, o 2001: uma odisseia no espaço (Kubrick) de Tarkovski. Confesso que, perto de O espelho (1974), Stalker (1979), Nostalgia (1983), e O sacrifício (1986), Solaris (1972) fica um tanto pálido. Mas tem seus méritos, muitos, pois Tarkovski é como todo cineasta brilhante, até seus filmes menos bons são muito melhores do que a média.
Resumindo a estória, que é baseada num romance de Stanislaw Lem (o roteiro é de Tarkovski e de Fridrikh Gorenshtein), o governo soviético estabelece uma estação espacial - Solaris - na órbita de um planeta que parece ter algum tipo de inteligência. Algo de estranho acontece, porém, e um dos cientistas volta à Terra para contar sua experiência. Um outro cientista é escalado pelo governo para ir à estação, investigar e, provavelmente, desativá-la.
Aqui interrompo meu resumo para que nos detenhamos no primeiro momento filosoficamente interessante do filme. É logo no início, quando o cientista que voltou visita o que está pra ir, no intuito de tentar convencê-lo a não desativar a estação, nem fazer mal ao planeta. Referindo-se às supostas alucinações de que seu colega fora vítima na estação, Kris Kelvin, o protagonista, pondera:
- Quanto a mim, a solarística caiu nesse impasse devido a fantasias irresponsáveis. Só me interessa a verdade e você quer que eu seja seu partidário parcial. (...) Não posso me guiar pelos impulsos da alma. Não sou um poeta. Tenho um objetivo concreto: tirar a estação de órbita, encerrando os estudos (...) ou tomar medidas extremas, sujeitando o oceano2 a irradiações intensas.
- Não faça isso!
- Por que não? Você mesmo quis que os estudos continuassem a todo custo.
- Quer destruir o que não somos capazes ainda de compreender? Não sou adepto do conhecimento a qualquer custo. O conhecimento só é verdadeiro quando ético.
- Só o homem torna a ciência imoral. Lembre-se de Hiroshima.
- Não faça, então, a ciência amoral!
Esse pequeno trecho me fez lembrar de duas coisas. Primeiro, a afirmação de um aluno durante uma aula de Bioética no mestrado da PUC-Goiás, de que não adiantava espernearmos que a Ciência progredia. Esse aluno, acredito, não está longe da verdade. O que é considerado antiético hoje deixa de sê-lo amanhã e o "progresso" segue como um rolo compressor, indiferente a quem esmaga pelo caminho. Ou, como coloca Fernando Pessoa em seu Livro do desassossego: "Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza, para. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima." (p.286)
Conhecimento e verdade são indiferentes à Ética. São pré-éticos. Seu uso é que pode ser antiético

Flávio Paranhos. Médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em OFtamologia. Mestre (UFGO e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC-Goiás. Coordernador da Coleção de Filosofia & Cinema da Nankin Editorial. |
Por outro lado, evoluímos bastante em relação à proteção dos sujeitos de pesquisa, por meio dos comitês de Ética em pesquisa espalhados pelas instituições do País. Entretanto, não faz qualquer sentido a afirmação do personagem de que "o conhecimento só é verdadeiro quando ético". Conhecimento e verdade são indiferentes à Ética. São pré-éticos. Seu uso é que pode ser antiético, como apontou o protagonista Kris Kelvin. É possível que Tarkovski (ou o autor do romance em que Solaris foi baseado) tenha sido influenciado por Dostoiévski, que, em carta a uma parente, afirmou: "(...) se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade, e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo e não com a verdade."3
Somos condenados a conhecer. Não se trata de uma escolha, mas de maldição. A cada geração, descobrimos e inventamos um bocado mais, com aceleração exponencial. E, desde sempre, já sabemos demais, pois somos a única espécie que tem um conhecimento que só serve pra nos angustiar, o da própria mortalidade.
O que nos faz humanos, por sinal, remete ao segundo momento do filme interessante do ponto de vista filosófico. Kris Kelvin, os outros dois cientistas, e Hari, sua esposa, estão reunidos na biblioteca da estação para comemorar o aniversário de um deles. Inicia-se uma discussão acerca das "visitas" enviadas pelo oceano de Solaris. O bizarro é que tratavam do assunto com a frieza com que cientistas se referem às suas cobaias, na frente de uma delas, que tinha plena consciência disso. Hari não era a esposa de Kris. Esta suicidara na Terra há alguns anos. Mas o Oceano parecia entrar nas mentes das pessoas para lhes enviar as "visitas" desejadas.
O que era Hari? Uma cópia mecânica como acreditavam os cientistas? Ou humana, como ela mesma se via? Afinal, sentia- -se humana, tinha sentimentos, sofria com o conteúdo da conversa. Até chorava. Suas memórias eram as da Hari verdadeira, porém com lacunas, pois eram as memórias de Kris a respeito da esposa falecida. Memória, inteligência, sentimentos, entre os quais a angústia de não saber quem realmente era... somando tudo dá uma pessoa, não? Ou será um zumbi? O famoso zumbi da Filosofia da mente? Uma ideia esdrúxula que até hoje queima as caspas de muita gente boa.
Por fim, a cópia repete a original e suicida também. Algo difícil de fazer, pois as "visitas" de Solaris ressuscitavam, caso o método fosse tradicional. Ela deixa um bilhete pra Kris, eximindo de culpa os colegas cientistas. Este fica na dúvida se permanece na estação ou se volta pra Terra. No finalzinho, quando parecia que ele tinha feito uma escolha, é-nos revelado que fizera, na verdade, outra. Entre a realidade e a ilusão, ele escolhe a segunda. Será o Oceano uma metáfora pra Deus? Terá Kris, entre a verdade e Deus, ficado com o segundo? Pelo visto, Tarkovski, além de heideggeriano, é também dostoiveskiano.

Esculpir o Tempo
Por: Tarkovski, Andrei
Editora: Martins Fontes/
Selo Martins
314 págs. |
SOBRE TARKOVSKI
A Continental Home Video disponibiliza uma coleção do diretor russo com três caixas contendo, além de sua filmografia (quase) completa, informações extras chamadas de "Dossiê Tarkovski". Ficou de fora apenas Hoje não haverá saída livre, de 1959. Como Tarkovski morreu cedo (1932, Rússia-1986, França) e não produzia em ritmo woodyalleniano, sua filmografia se resume a: O rolo compressor e o violino (1960, média-metragem), A infância de Ivan (1962), Andrei Rublev (1966), Solaris (1972), O espelho (1974), Stalker (1979), Nostalgia (1983, realizado na Itália, há ainda um relato de viagem nesse mesmo ano, Tempo di viaggio) e Sacrifício (1986, realizado na Suécia). Do Dossiê, o mais interessante é o making of de Sacrifício, que acompanha toda a realização do filme. O único senão é um certo descuido com as legendas. Descuido esse que nos deixa em dúvida quanto a certos trechos, como o que citei literalmente aqui, a conversa entre o protagonista e o outro cientista, sobre a moralidade da Ciência. Não sei se o leitor também achou estranho que, após Kris Kelvin dizer que "submeteria o oceano a irradiações intensas", seu interlocutor considera isso "continuar os estudos a qualquer custo".
Stalker, um dos melhores (já mudei de opinião várias vezes quanto ao meu Tarkovski preferido. Comecei pelo Sacrifício, depois O espelho depois Nostalgia), tem em comum com Solaris uma estranha entidade que parece ler os pensamentos de quem a visita. Um sujeito tinha uma profissão diferente - levar quem o contratasse para "A Zona", um lugar proibido, de difícil acesso e no qual se podia fazer um desejo. Acontece que, lá chegando, o guia conta aos seus dois clientes que o último que ele ajudou se matou de remorso, pois, desejou a saúde do irmão, mas "A Zona" lhe fez rico, que é o que ele realmente queria. Genial, não? Esse filme ainda merecerá uma coluna só pra ele aqui.
Esculpir o tempo (Martins Fontes, 2002) é o livro escrito por Tarkovski para expor suas ideias. Embora praticamente não trate de Solaris, especificamente, é leitura obrigatória para quem se interessar pela filosofia do cineasta russo.
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