Ética O Natal e o novo pacto Ético Por Arthur Meucci

Comemoramos, no dia de Natal, o nascimento simbólico de Jesus Cristo. Simbólico porque não sabemos a data e, certamente, dezembro não poderia ter sido por um motivo simples: é inverno em Israel e, segunda a Bíblia, quando Cristo nasceu havia pastores trabalhando nos campos – tempo mais parecido com a primavera.
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Arthur Meucci é Mestre em filosofia pela USP e membro da associação filosofica Scentia e Studia. Professor conferencista de Ética da ECA/USP e do Colégio Bom Jeuss. È consultor do Espaço Ética.
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No início da Igreja Católica Romana como a conhecemos, fundada no século IV pelo imperador Teodósio, houve a preocupação de fundir a antiga religião romana com o cristianismo. O consagrado dia 25 de dezembro remete às comemorações ao “deus” Saturno – festa onde havia banquetes, ceias, troca de presentes, orgias e igualdades sociais (os escravos ficavam livres e se igualavam juridicamente aos seus senhores nessa semana).
O termo Natal vem do latim natalis e significa nascimento. Podemos entender esse nascimento não só como a chegada de um profeta, Cristo, mas também como o surgimento de uma nova orientação ética – distinta da tradição judaica e romana.
A mensagem de Jesus Cristo não nos trouxe somente uma nova religião, mas um modo diferente de pensar nossas obrigações morais. Na tradição judaica, as orientações éticas estão relacionadas a uma rígida concepção religiosa de mundo – uma figura divina austera que controla todos os aspectos da vida cotidiana do religioso. Respeitar o semelhante não se justifica no respeito ao próximo, mas na vontade de um ser suprassensível que pune todos aqueles que não obedecem aos seus mandamentos. O “deus” dos hebreus ditou seus mandamentos ao profeta Moisés para que eles obedecessem rigorosamente sob pena de castigo.
Vale lembrar que a Bíblia relata uma primeira tentativa do povo hebreu de criar regras sobre suas próprias condutas e seus valores éticos, porém sem obter sucesso. Deus chama Moisés em meio ao caos e intervém ditando rituais e condutas rígidas de comportamento. A principal mensagem dos “mandamentos” é a de que as pessoas deveriam ser tuteladas por um “deus” punitivo que observa se as decisões de seu povo estão de acordo com os procedimentos impostos pela divindade e ditados pelo profeta. Nesse sentido, o islã é muito mais próximo do judaísmo, com todos os seus rituais, proibições e visão de um “deus” onisciente terrificante, do que o cristianismo.
A maioria das religiões obedece ao mesmo esquema de funcionamento – um conjunto de instruções que orienta as relações sociais e institucionais do “crente”, incapaz em sua posição de poder decidir por si aquilo que é certo ou errado, e que depende de uma sabedoria que o transcende. A ética religiosa se coloca como instância última nas estratégias morais que cada seguidor utiliza para deliberar sobre as diversas situações que enfrenta no decorrer da vida. Vive-se, nessa conjuntura, a menor idade da razão prática.
É graças ao cristianismo que o pensamento ético religioso pode se casar com os pressupostos filosóficos gregos de autonomia da razão. Engajar-se com os ensinamentos socráticos de análise racional das virtudes, de questionamento da tradição, em busca de um sentido para as práticas habituais ditadas pelos costumes ensinados. É célebre o discurso ético de Jesus Cristo, conhecido como Sermão da montanha, onde ele afirma categoricamente sua postura em relação à tradiçãoética judaica, “Não julgueis que vim abolir as Leis ou os profetas. Não vim para abolir, mas para dar sentido” (Mt 5, 17). Cristo é categórico ao afirmar que “passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei” (Mt 5, 18).
É interessante notar como o discurso cristão nega e afirma a tradição judaica ao mesmo tempo: Cristo afirma que as orientações éticas dadas ao povo judeu são eternas e, ao mesmo tempo, questiona sua forma de transmissão e interpretação. As leis dadas a Moisés no Monte Sinai são legítimas pelo simples fato delas terem uma orientação racional superior que as justificam e que podemos conhecer. Essa postura contrária ao costume é, sem dúvida, o primeiro sinal de ruptura da nova religião.
Quando um religioso da época lhe perguntou sobre qual era o maior dos mandamentos, Cristo aproveitou a deixa para fundamentar sua orientação ética. Depois de dizer que o primeiro mandamento era “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o coração” (Mc 12, 30), o profeta encaixa o segundo mandamento mais importante, “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12, 31). Reconhecer nos outros nossos próprios sofrimentos, medos e angústias passa a criar em nós um vínculo de empatia e de solidariedade com o outro que nos constrange em fazer ou retribuir o mal. Para além dos outros mandamentos, que seriam meras consequências do amor a Deus e ao próximo, nasce um novo esquema valorativo baseado na própria percepção do certo e do errado. A radicalidade da proposta cristã espanta todas as outras orientações religiosas quando afirma, pelas letras do apóstolo Paulo, que “Todas as coisas são lícitas [aos cristãos], mas nem todas as coisas convêm” (I Cor 10, 23). Em outras palavras, ninguém mais dita o certo e o errado para além de nossa consciência do que convém ou não fazer.
Sem precisar decorar os inúmeros mandamentos e rituais de sacrifício, o cristianismo nos leva para a maioridade da razão prática. Como “deus” amou o homem, temos que amar nosso próximo por amor a “deus”, pois “deus” e os homens podem nos amar. A festa de Natal simboliza esse amor fraternal que fundamenta a autonomia do pensamento cristão. Nossa capacidade de decidirmos, por meio de nosso olhar subjetivo para o afeto alheio, aquilo que podemos ou não fazer. Uma consciência moral capaz de se constranger por si mesma, sem precisar se preocupar com punições do além.
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