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Filosofia da Mente
A caminho da parabiose
Parabiose: proposta de Miguel Nicolelis de união fisiológica e anatômica entre o humano e um componente é preocupante e urge a necessidade de uma nova forma de se pensar o próprio conceito de humano

por João de Fernandes

Só nas últimas semanas pude acabar de ler o livro de Miguel Nicolelis, Muito Além do Nosso Eu, publicado em março nos Estados Unidos e há pouco traduzido para o português. Nicolelis narra sua saga como neurocientista brasileiro que acabou se mudando para os Estados Unidos para poder dar continuidade a suas pesquisas. É um livro muito agradável de ler, no qual o autor mistura delicadamente o relato de seus experimentos com dados autobiográficos; uma estratégia literária que prende a atenção do leitor por horas.

Nicolelis não poupa críticas ao paradigma dominante na Neurociência contemporânea, o localizacionismo, segundo o qual o funcionamento cerebral pode ser explicado pela identificação de áreas especializadas responsáveis pela produção dos processos mentais. Caminhando na direção oposta, para ele o cérebro funciona por meio da atividade de populações de neurônios que fazem o tempo todo uma espécie de mutirão do qual emergem os diferentes aspectos da mente.

Todavia, o mais importante no livro de Nicolelis é o seu relato de como ele conseguiu que os cérebros de três macacas de seu laboratório interagissem com membros artificiais. Com isso, ele pretende criar, num futuro próximo, dispositivos que possam auxiliar o movimento de pacientes tetraplégicos ou com outras paralisias. O cérebro desses pacientes poderia se comunicar com os membros paralisados por meio de uma interface computacional que captaria os impulsos elétricos cerebrais e os retransmitiria ao membro paralisado, permitindo que ele se movesse novamente.

Nicolelis coloca em prática a interação cérebro-máquina, nossa mistura com o inorgânico, que foi chamada de parabiose, uma união fisiológica e anatômica entre o humano e o artefato. A parabiose é um tema antigo na literatura sobre ciborgues e nosso futuro pós-humano. O acoplamento parabiótico traria consequências filosóficas que já vêm sendo discutidas há algum tempo. Entre elas figuram a reforma de nosso próprio conceito de ser humano, de conhecimento, de corpo e de subjetividade. Teme-se até a possibilidade do surgimento de uma nova eugenia, não mais com base em características étnicas, mas com as disponibilidades tecnológicas que somente alguns poderão desfrutar.

SHUTTERSTOCK

Nicolelis é um otimista. Ele vê um futuro brilhante para a humanidade no avanço de nosso conhecimento acerca desse milagre inimitável que é o cérebro humano. No futuro viveremos melhor, não apenas por causa da realidade da interação cérebromáquina, mas também pela interação cérebro-cérebro tornada possível pelas novas neurotecnologias. A Internet se tornará uma brainnet, na qual todos os cérebros humanos estarão conectados e de onde surgirá uma inteligência coletiva.

Contudo, será que podemos partilhar do otimismo de Nicolelis? No ano passado publiquei um livro sobre as consequências filosóficas da parabiose, intitulado A Mente Pós-Evolutiva. Chamo o mundo parabiótico de mundo pós-evolutivo, pois penso que as transformações passivas e somáticas do ser humano através da seleção natural se estancaram. A evolução, que foi inicialmente um processo interativo e não mediado entre o ser humano e o mundo natural, agora se tornou uma interação entre o homem e seus artefatos; um campo semântico exterior ao organismo, que se tornou seu meio ambiente.

Nesse cenário, o corpo humano enfraquece, pois agora está protegido pela civilização. Não temos de disputar espaço com outras espécies, pois praticamente dominamos o planeta. Mas se de um lado o corpo enfraquece, paradoxalmente, a longevidade aumenta. Em breve, estaremos vivendo 160 anos. Com a vida aumentada temos de disputar, cada vez mais, por recursos que se escasseiam por conta de uma população que aumenta e consome mais, pois vive mais. A competição aumentou. É a struggle for life, ou luta pela vida, a verdadeira essência da evolução, esse ácido universal do qual, talvez, nunca nos livraremos.

Como nosso corpo enfraquece, precisaremos buscar auxílio nas máquinas, para garantir um coração bombeando, pernas para locomoção e chips no cérebro para conservar a memória. Além disso, a luta pela vida exigirá não apenas formas de regenerar o corpo, como também de ampliar nossas capacidades físicas e mentais para que nos tornemos cada vez mais competitivos.

Nesse sentido, penso que a parabiose é uma etapa inevitável na história da tecnologia e da espécie humana. Nicolelis é mais um dos portadores dessa notícia alvissareira, mas, à diferença dos outros, mostra-nos que ela é uma possibilidade real, embora incipiente. Estamos nos tornando seres híbridos, metade silício metade ser vivo, o que aumentará as chances de sobrevivência de nossa espécie.

Mas, discordando de Nicolelis, penso que a disseminação da parabiose não será a realização de uma utopia, exceto, talvez, para os paraplégicos que voltarem a andar. O mundo pós-evolutivo não nos tornará necessariamente mais felizes, será apenas mais um episódio na luta pela vida.

A parabiose será benéfica se for usada democraticamente como uma alternativa aos nossos métodos educacionais obsoletos, nos quais a transmissão de informação é mediada pela linguagem humana nas salas de aula. Os implantes de chips permitirão a transmissão rápida de informação para os cérebros humanos, livrando a educação, em boa parte, de ter de ser uma longa e sofrida recapitulação do conhecimento humano.

 

João de Fernandes Teixeira é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. www.filosofiadamente.org

 

 

 

 

 

 

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