Muros que cercam o mundo Eventos como o holocausto e o Gulag mostram, como dizia Kant, que o progresso talvez não tenha ocorrido. A globalização desenha partidos políticos ainda com resquícios de totalitarismo que circundam o mundo e nos faz perguntar: onde estamos hoje?
 |
Slavoj Zizek é filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos conteporâneos. É influenciado principalmente por Karl Marx e Jacques Lacan. Veio ao Brasil em Maio para lançar o livro Em defesa das causas perdidas pela Boitempo Editorial |
Não confio na ideia de comunismo como um retorno (num nível mais alto) a formas pré-modernas de vida comunal, ou a ideia de que nós podemos nos apoiar nessas formas como uma defesa contra as forças corrosivas da modernização. Parece-me muito mais apropriado do que esta instância nostálgica a instância flexível de praticar o que, no darwinismo contemporâneo, se tem chamado de exaptação1. Existem dois tipos de exaptação: (1) adaptações que inicialmente emergiram da seleção natural e foram subsequentemente cooptadas para outra função (adaptações cooptadas); (2) características que não surgiram como adaptações por meio da seleção natural, mas como efeito colateral de processos adaptativos e que foram cooptadas por uma função biológica. Algo que emergiu com dado propósito (ou por nenhum propósito) é reapropriado para um propósito totalmente diferente. Esse é um dos paradoxos do progresso histórico: um elemento que era apenas um remanescente do passado, um obstáculo para o desenvolvimento, pode se tornar, numa nova situação, o próprio recurso do novo. Isso é o que, penso eu, Linera pretende atacar com sua noção de potências: a arte da política emancipatória hoje implica descobrir os potenciais inesperados do novo que permanecem dormentes nas velhas formas. Mesmo no mundo desenvolvido, muitos analistas notaram como as últimas tecnologias digitais parecem gerar novas formas de "tribalismo". A armadilha a ser evitada aqui é a da "modernidade alternativa". Em seu livro sobre a modernidade, Fredric Jameson se refere à "universalidade concreta" hegeliana em sua concisa crítica às teorias das "modernidades alternativas":
 |
"Como então os ideólogos da 'modernidade' (em seu sentido atual) conseguem distinguir seu produto - a revolução da informação e a modernidade globalizada do livre mercado - do detestável tipo mais antigo, sem se verem envolvidos nas respostas a graves questões políticas e econômicas, questões sistemáticas, que o conceito de pós-modernidade torna inevitáveis? A resposta é simples: falamos de modernidades 'alternadas' ou 'alternativas'. Agora, todo mundo conhece a fórmula: isso quer dizer que pode existir uma modernidade para todos, diferentemente do modo padrão anglo-saxão, hegemônico. O que quer que nos desagrade a respeito deste último, inclusive a posição subalterna a que nos condena, pode apagar-se pela ideia tranquilizadora e 'cultural' de que podemos confeccionar a nossa própria modernidade de maneira diversa, dando margem, pois, a existir o tipo latino- americano, o indiano, o africano, e assim por diante [..]. Mas isso seria passar por cima de outro significado fundamental da modernidade, que é a de um capitalismo mundial."2
O retorno dos nacionalismos exacerbados
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, esperava-se que eventos como o holocausto e o gulag pudessem ter acabado para sempre. Mas o discurso nacionalista, xenófobo e protecionista parece ter ressurgido com força nos dias de hoje. Isso pode ser explicado com a queda do muro de Berlim e o colapso do comunismo, já que milhares de pessoas que tinham emprego, casa e comida se viram perdidos e, então, se aproximaram do discurso paternalistas que afirmavam que o estrangeiro era o culpado dos problema vividos na época. Mas, no contexto pós-guerra, o mundo capitalista tinha medo do comunismo e do avanço da revolução e perceberam que não era mais possível lutar apenas com armas, Era preciso criar uma base sólida e algumas heranças do projeto da extrema direita foram incorporadas, como os acordos sociais e as leis trabalhistas, protegendo, dando direitos e fortalecendo a aliança com as classes mais pobres. Isso aconteceu em outros campos, como o da Ciência, arrumando as bases para o ressurgimento da extrema direita. Essa nova extrema direita europeia é caracterizada pela necessidade de proteção de suas empresas em detrimento aos produtos asiáticos, a garantia do emprego para os nativos, já que os estrangeiros - antes necessários para fazer trabalhos secundários -, hoje tira o emprego. Além disso, é necessário manter a cultura, contra a que os imigrantes trazem de fora. Para tanto, os discursos utilizados são excludentes, preconceituosos |
 |
TANTO NA EUROPA OCIDENTAL COMO NA ORIENTAL, HÁ SINAIS DE UMA REORGANIZAÇÃO DE LONGA DURAÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >> |