O fundamento da manipulação O pressuposto frankfurtiano de uma manipulação da massa pelos meios de comunicação sustenta uma visão de mundo elitista e preconceituosa
Por Clóvis de Barros Filho
Recebo regularmente em meu escritório estudantes de comunicação, professores e jornalistas que se mostram preocupados com o poder dos meios de comunicação e sua suposta influência nefasta na sociedade. O problema preferido destes angustiados quase sempre se refere às possibilidades dos comunicadores em manipular o cérebro dos pobres e indefesos consumidores de informação. Sujeitos desprovidos de consciência crítica sobre a produção da notícia, vítimas das artimanhas ideológicas da dominação política e de classes, presas fáceis para as mensagens vorazes do consumo.
É fato que os meios de comunicação, em paralelo aos poderes executivo, legislativo e judiciário, se tornaram a quarta maior instância de poder em um Estado democrático. A mídia pauta os problemas e discussões do dia a dia nacional, parecido com a função legislativa; avalia e condena publicamente ações e pessoas, julga, portanto; e é capaz de mobilizar os aparatos do Estado, como a Polícia e o sistema de saúde, por exemplo, graças às abordagens jornalísticas que pressionam o poder executivo.
Entretanto, os pressupostos utilizados para justificar os processos obscuros de manipulação da mídia são questionáveis. Eles remetem às críticas frankfurtianas de Adorno e Horkheimer sobre os meios de comunicação de massa. Quando o Cinema, o Rádio e a Televisão se autointitulam como indústria do entretenimento, eles tomam partido da ideologia capitalista e passam a defender os valores ideológicos que possibilitam a dominação de classe e a alienação do trabalho. A mídia toma partido em defesa do sistema que a sustenta e não cria espaço para uma reflexão crítica capaz de despertar a consciência da população para seus reais problemas.
Quando pensamos por essa perspectiva, constatamos que as observações feitas por estes filósofos fazem sentido. Porém, os problemas desta concepção residem no pressuposto de que os homens comuns, que se expõem à mídia, são inteiramente passivos no processo de recepção da mensagem e que aceitam tudo o que a mídia mostra, sendo facilmente manipuláveis. A concepção dos teóricos frankfurtianos é a de que o homem comum, sem consciência filosófica, é um autista que precisa ser tutelado por agentes intelectuais preparados contra os mecanismos de alienação midiáticos.
As preocupações apresentadas pelos seguidores de Adorno e Horkheimer sobre a passividade do receptor comunicativo são infundadas e preconceituosas. As pesquisas empíricas no campo da comunicação, feitas desde a década de 1960, nos mostram exatamente o contrário, que o receptor dificilmente assimila as mensagens diretas e subliminares de uma mensagem conforme proposto pelo enunciador (BENITO, 1972; GHIGLIONE, 1986; KLAPPER, 1960; McQUAIL, 1981). As pesquisas com receptores são unânimes ao afirmar que as pessoas que consomem produtos midiáticos são totalmente ativas no processo de interpretação e de crítica em relação às mensagens divulgadas pelos meios de comunicação, não importando as diferenças econômicas e de escolaridade. Cada um de nós enxerga as mensagens jornalísticas e atribui um sentido segundo nossas trajetórias sociais singulares.
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Clóvis de Barros Filho é professor de Ética da ECA/USP e Conferencista do Espaço Ética. www.espacoetica.com.br |
Filosoficamente, os resultados destas pesquisas apresentadas pelo campo da comunicação encontram respaldo. Kant nos ensinou que o conhecimento do mundo não advém dos objetos que se apresentam a nós, mas das adaptações desses objetos às nossas estruturas cognitivas a priori. Schopenhauer escrevia que o mundo é uma representação do sujeito, que ele não conhece as coisas como são e sim como as sente. O filósofo russo Bakhtin, em seu livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, nos adverte que o conhecimento de cada pessoa depende das estruturas sociais, econômicas e históricas individuais. Que toda sociedade se compõe em grupos conflitantes que lutam pela interpretação mais legítima dos símbolos e da realidade. Bakhtin afirmava, antes de Adorno e Horkheimer escreverem a Dialética do Esclarecimento, que a construção de uma consciência padrão é impossível segundo a dialética materialista.
O pressuposto frankfurtiano de uma manipulação da massa pelos meios de comunicação sustenta uma visão de mundo elitista e preconceituosa. Acreditar que somente os intelectuais esclarecidos são capazes de olhar criticamente para os meios de comunicação e que a massa laboral, privada de um estudo adequado e da consciência de classe, se torna marionete passiva da mídia é sustentar um estereótipo sem fundamento. Não é pelo fato de as pessoas não terem curso universitário, não ouvirem música clássica ou não assistirem a filmes do circuito europeu ou alternativos que elas se tornam incapacitadas de olharem criticamente para a mídia ou para sua própria realidade.
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