editora Escala
 
Filosofia  
       
 
 

 

Apareço, logo existo!
Na sociedade atual, em que as imagens tomaram o lugar da reflexão e da interioridade, proliferam indivíduos indiferenciados e passivos, meros consumidores da aparente subjetividade alheia. O sucesso dos reality shows é a melhor expressão deste tempo

Renato Nunes Bittencourt

shutterstock

A pressa vertiginosa da neurótica e crônica falta de tempo do cidadão da sociedade hipermoderna, exclui dele o apreço pela reflexão e pelo exercício da consciência. Essa condição torna-o mais suscetível a sucumbir às forças envolventes da "cultura das imagens", potencializando ainda mais os seus efeitos alienantes na subjetividade humana. A transformação da vida social e da própria cultura em imagens espetaculares difundidas pelos meios de comunicação como forma de se obter o controle político sobre as massas foi denunciada criticamente por Guy Debord pelo conceito de "Sociedade do Espetáculo", que se caracteriza pela produção de uma falsa experiência da realidade, que não encontra nenhuma associação com a dinâmica da vida concreta na qual estamos inseridos cotidianamente.

A expressão de ordem das relações sociais media das pela dimensão espetacular da vida é: "Apareço, logo existo". Trata-se da distorção do cogito cartesiano

O dispositivo espetacular próprio da sociedade contemporânea representa uma ruptura com o postulado da "metafísica da interioridade" (segundo o qual, o fundamento puro da verdade se encontra subjacente no âmago humano, e a noção de uma experiência racional da subjetividade, tal como realizada por Descartes nas suas Meditações Metafísicas). Para Descartes, podemos duvidar de todos os dados provenientes dos sentidos e mesmo de nossa existência corporal, mas não de nossa existência enquanto ser pensante, pois, uma vez que eu, enquanto sujeito, duvido, eu penso, pois a dúvida é um ato de pensamento. Ora, se eu penso, eu existo, pois para que alguma coisa pense, ela deve necessariamente existir. Mediante esta constatação evidente, o sujeito pode pronunciar o "penso, logo existo", afirmação que se instaura como a célebre fórmula do cogito cartesiano, fundamento primordial para que possamos inferir a existência de tudo aquilo que percebemos na realidade circundante.

Quais são as certezas que podemos retirar da dúvida metódica empregada por Descartes? Que a realidade abstrata, subjetiva, é mais evidente e precisa do que a realidade concreta, material, pois a existência do mundo físico pode ser posta em dúvida, assim como a existência de nosso próprio corpo. A mente humana, contudo, é evidente por natureza, e se converte no ponto inicial para a instauração da verdade do mundo. O racionalismo cartesiano, sustentado pelo primado da subjetividade, é, portanto, um dos marcos do paradigma da Filosofia moderna. Porém, com o advento das grandes tecnologias da sociedade midiática, ocorre uma grande crise no fundamento da experiência da subjetividade, especialmente pelo estabelecimento da "Sociedade do Espetáculo".

 

shutterstock

Olhar espetacular
A difusão da televisão contribuiu intensamente para a formação dessa nova modalidade perceptiva que, entretanto, manifesta convergências valorativas com o antigo desejo curioso de se olhar aquilo que é privado e sensoriamente espetacular. Não há distinção entre os costumes antigos e os atuais: em ambos os casos, o ser humano aprisionado pela trama do espetáculo foi destituído de sua condição humana, sendo transformado em um objeto destinado a satisfazer o gosto popular pela visualização de imagens sedutoras, narcotizantes das capacidades reflexivas do ser humano. Guy Debord denuncia a ideologia da "Sociedade do Espetáculo", apontando como as nossas relações interpessoais, no mundo contemporâneo, adquiriram tonalidades baseadas no consumo simbólico de imagens: "Considerado de acordo com seu próprio termo, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de que toda vida humana - isto é, social - é simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descreve como a negação visível da vida, como negação da vida que se tornou visível". ¹

imagem: Susanna e os velhos, de Tintoretto, The Web Gallery of Art
O antigo desejo de se observar o privado foi elevado ao máximo nos dias atuais. O homem acabou sendo aprisionado pela trama do espetáculo de uma intimidade superficial

A expressão de ordem das relações sociais mediadas pela dimensão espetacular da vida é: "Apareço, logo existo". Trata-se da distorção do cogito cartesiano e do primado da subjetividade humana enquanto signo de uma metafísica da interioridade em favor de uma legitimação social da superficialidade. As instâncias sociais regidas pelo sistema espetacular são baseadas na contemplação passiva dos acontecimentos, em que os indivíduos, em vez de viverem autonomamente, olham avidamente as ações dos outros, por meio dos mais diversos dispositivos técnicos disponíveis. Para Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl, "O que nos diferencia hoje de outros períodos da modernidade é a espetacularização da imagem e seu efeito sobre a massa dos cidadãos indiferenciados, transformados em plateia ou em uma multidão de consumidores da aparente subjetividade alheia".²

O dispositivo espetacular cria o controle social pela sedução imagética da exposição alheia, suprimindo, todavia, a difícil relação intersubjetiva da alteridade; com efeito, a própria experiência da compreensão da subjetividade da figura do Outro se torna fragmentada a partir do mecanismo espetacular, como destacado por Guy Debord: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens".³ O ser humano se torna, assim, um simulacro imagético, desprovido de substancialidade e autonomia em sua vida cotidiana, direcionada apenas para o consumo de imagens sedutoras, que suprimem paulatinamente a noção de uma experiência interior inalienável. Na dimensão espetacular, vivemos sob a égide da moral da exterioridade, tudo deve ser visível. Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl argumentam que "dependemos do espetáculo para confirmarmos que existimos e para nos orientarmos em meio a nossos semelhantes, dos quais nos isolamos".

shutterstock
O reality show, que diverte sem exigir esforço intelectual, servindo para omitir o vazio existencial, é a versão contemporânea da política do "Pão e circo"

Cada vez mais o sistema midiático da era tecnicista se caracteriza pela criação de gêneros de entretenimento de cunho majoritariamente alienante, servindo apenas para manter a consciência telespectadora preenchida do vazio intelectual e existencial de sua existência cotidiana. Isso ocorre pelo fato de que a disponibilização de programações de elevado refinamento cultural não é uma atividade muito conveniente para os propósitos meramente lucrativos das grandes redes de televisão, que preconizam, acima de tudo, manter a ordem medíocre vigente em nossa fragilizada cultura massificada. Trata-se de uma transposição contemporânea da política social do "Pão e Circo", que, em nossa contemporaneidade, se expressa em diversas configurações espetaculares, e uma delas se materializa no formato reality show. Entre todos há uma convergência tipológica evidente: o caráter de diversão espetacular, na qual as ações humanas se tornam um gênero de consumo para os olhos curiosos da multidão. Para Guy Debord, "sob todas as suas formas particulares - informação ou propaganda - publicidade ou consumo direto de divertimentos -, o espetáculo constitui o modelo atual de vida dominante na sociedade. É a afirmação onipresente da essência já feita na produção, e o consumo que decorre dessa escolha"

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 97
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
O QUE É FILOSOFIA?
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



Faça já a sua assinatura!

Psique

Desvende a mente humana

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Sociologia
Um olhar sobre o mundo que no para.

Assine por 2 anos
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Filosofia

Pensamentos universais de forma objetiva e sem complicaes.

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!

Leituras da Histria

Fatos e personalidades que deixaram suas marcas.

Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS