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Filosofia  
       
 
 

 

Neurônios pensam?
O que acontece na relação entre os neurônios na visão da Filosofia Clínica

por Lúcio Packter

Imagens: Shutterstock

O que acontece nas relações entre neurônios, no modo como cada um interage com outro e com muitos outros? Podemos imaginar que se associam, que lutam por espaço e energia, que formam grupos que travarão animosidades, ambivalências, lutas com outros grupos? Há neurônios que armam competições, renúncias, que atacam e exterminam neurônios isolados?
Uma resposta plausível a partir da Filosofia Clínica é que sim, isso também acontece. Mas muito provavelmente esta é uma parte entre os eventos, não a principal.
Caso a investigação se aprofunde, temos alguns elementos surpreendentes que chamam e instigam a atenção.
O que podemos conjecturar a respeito de neurônios que aparentemente promovem o suicídio?

Ou de grupos de neurônios que promovem a associação pacífica entre redes neuronais? Haveria talvez uma política democrata de relações neuronais?
Uma opinião sobre o assunto, e a coloco a partir de questões ligadas à Filosofia Clínica, pode trazer aspectos curiosos para esta conversação. Particularmente, penso que em breve chegaremos a algumas considerações vertiginosas, se atendermos somente à linguagem corrente sobre o tema; há órgãos, tecidos, ossos, células que podem mudar comportamento e função conforme as experiências em andamento. Podem alterar a política existencial e o modo de ser no mundo e, neste caso, no corpo humano também.
Em grandes partes da Ciência, o que ocorre no corpo segue um padrão pragmático, faz o estudo parecer a procura de leis, regras que muitas vezes somente existem porque o pesquisador tenta fazer que existam.
É por isso que neurônios não podem ter vida estética, vegetativa, não podem estar de graça nos entroncamentos do organismo. Muitos pesquisadores do assunto precisam que os neurônios se associem, que trabalhem, que compitam, que sejam determinados em seus exércitos. Não é cientificamente provável que neurônios possam ser às vezes incompreensíveis, que tenham comportamento anômalo para os caminhos neuronais, que vivam sem um programa que lhes sirva de roteiro. Afinal, são neurônios desde que começamos a estudá-los; não fica cientificamente bem descobrirmos ou inventarmos agora que são outra coisa. Não fica bem nem mesmo para eles.

Em Filosofia Clínica, estudamos a historicidade de cada pessoa que atendemos. Algumas historicidades trazem intrigantes variáveis na relação do corpo com ele mesmo, do corpo com outros aspectos tidos como não somáticos, e há substanciais e interessantes amálgamas de pontos que não são corpo, não são mente, não são mais a combinação e deles, às vezes, apenas podemos acusar a presença. Isso, em diversos casos, é muito. E é dentro desta perspectiva que apontar um comportamento, uma política existencial, um modo de ser para um neurônio, para uma rede de neurônios, é algo dilemático e exigente nos critérios de pesquisa, pois provavelmente as pesquisas apontarão para a presença de neurônios neuróticos (usando o jargão usual); de neurônios que não são neurônios, com comportamento de órgãos; de neurônios mesclados, etc.
Sabemos algumas coisas, a partir de como pesquisamos, sobre o que fazem, onde estão, como vivem os neurônios. Esse saber é um depoimento sobre nossas pesquisas, sobre nossa época, sobre o modo como compreendemos. Os neurônios se tornaram o que são como parte dos nossos pareceres e desejos sobre eles. Será que realmente serão somente assim?

Imagens: Shutterstock
Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da faculdade de filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br

Simão, o gaveteiro
Simão tornou-se gaveteiro depois que seu tio Joaquim, o gaveteiro, morreu enquanto encaixava algumas gavetas pesadas em uma cômoda com enorme tampo plano. Simão tem uma concepção política do mundo na qual uma grande cômoda, instalada na parte de baixo de um imenso armário, tem suas gavetas abertas ou fechadas conforme disponibilidades que nunca podem ser compreendidas por inteiro. Isso, para ele, é diferente das prateleiras com gavetas da Ciência, que confortam e prometem a Simão um mundo que ele compreende, mundo em forma de gaveta, com seus puxadores, pregos, tintas, madeiras, formas. Para Simão, nada pode ser mais seguro do que uma gaveta, nem mais correto, exato, sereno. No início, era a gaveta.
Depois surgiram os gaveteiros. Os planetas, o universo, se bem interpretados, seriam gavetas estilizadas. Quem poderia discordar de Simão ao mirar as estrelas das janelas de sua casa, que na verdade são gavetas em formato? E, aliás, pense se existe qualquer coisa no mundo que não tenha a forma ou que não caiba em uma gaveta. Nossos pensamentos funcionam como gavetas que se abrem e se fecham. Não quer ir à praia? Fechou uma gaveta. Foi ao cinema? Abriu outra. O próprio cinema é uma enorme gaveta: a tela, as poltronas, o corredor que leva à sala, o saquinho de pipoca. A própria pipoca, com suas reentrâncias, é uma gavetinha. O mundo, segundo Simão, e só não vê quem não quer, é uma gaveta em toda a abrangência do termo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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