Cinema Poder e mentira por Flávio Paranhos
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Em O príncipe da Pérsia, uma mentira leva o protagonista a promover uma guerra. Para Kant, as mentiras são inaceitáveis; para Weber, devem-se levar em conta as consequências da verdade |
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Flávio Paranhos é Médico (UFG) doutor (UFMG) e Research Fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFG), doutorando (UFSCar) e Visiting Fellow (Tufts) em Filosofia. Autor do livro de contos Epitáfio e coordenador da Coleção de Filosofia & Cinema (Nankin Editorial). |
O que poderia haver em comum entre filmes tão distintos quanto O príncipe da Pérsia: As areias do tempo, Zona verde e Kafka? Os dois primeiros são de 2010 e o último é de 1991. Todos têm estrelas em seus elencos - Ben Kingsley, Matt Damon e Jeremy Irons, respectivamente.
O príncipe da Pérsia: As areias do tempo é uma produção da Disney inspirada em um videogame de autoria de Jordan Mechner (isso mesmo, videogames têm autoria!), com roteiro de Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard e direção de Mike Newell. Para aqueles que, como eu, confessam alguma desconfiança quanto a filmes da Disney serem capazes de fazer algo mais do que entreter, e por isso estranham não só a presença de um filme desses aqui, como também a citação dos roteiristas, explico-me.
O príncipe da Pérsia é uma espécie de alegoria da guerra no Iraque promovida (a palavra, como veremos, é 'promovida' mesmo) pelos Estados Unidos de George Bush filho. O tal príncipe do título é o filho adotivo do poderoso rei da Pérsia, guerreiro hábil e nobre, como soem ser os protagonistas nesses casos. Ele, seus irmãos e o tio (Kingsley) decidem invadir a cidade sagrada Alamut, por suspeitarem que seus governantes estivessem fazendo armas e as vendendo aos inimigos da Pérsia. Invasão realizada, inimigo dominado, nada de achar as tais armas.
O príncipe cai numa armadilha e é acusado de matar o próprio pai, que desaprovara a decisão. Depois de passar por várias aventuras, das quais, claro, sempre sai ileso, o nobre príncipe descobre o segredo por trás da invasão, a traição do tio e, claro, conquista o coração da princesa que o esnobou o filme inteiro.
Eu bem poderia ter passado batido pelo Príncipe da Pérsia. Poderia não ter enxergado nada mais do que o bom filme de ação que é. Mas, por pura coincidência, aluguei, no mesmo fim de semana, Zona verde. Dirigido por Paul Greengrass, que já havia se encontrado com Matt Damon nas sequências Bourne (Ultimato, Supremacia), com roteiro de Brian Helgeland, a partir do livro de Rajiv Chandrasekaran, Zona verde é um ótimo filme de ação e guerra, com uma mensagem clara.
A invasão do Iraque pelos EUA em 2003 foi motivada por uma baita mentira. E, o que é pior, os EUA (pelo menos seu governo) sabiam disso. Não só nunca houve armas de destruição em massa escondidas no país de Saddam Hussein, como Bush e seus asseclas sabiam perfeitamente. Chief Miller (Damon), um soldado consciencioso e patriota, como soem ser os heróis de filmes americanos de guerra, tem a missão ingrata de fazer papel de bobo procurando armas nos sítios apontados pelo serviço de inteligência de seu país. Perde a paciência e decide ir atrás da verdade. Vê-se, então, envolvido numa teia cheia de aranhas carnívoras que teoricamente deveriam estar ao seu lado. Hábil soldado, consegue revelar a verdade, mas não o rumo da história.
O leitor concordará comigo que, depois de ter visto Zona verde, não tinha como não fazer paralelos entre este e Príncipe da Pérsia. Ainda assim, chequei com o dr. Google se eu não estava forçando a barra (ainda se usa essa gíria?). Todas as resenhas do filme publicadas nos EUA faziam essa leitura.
Soderbergh, com roteiro de Lem Dobbs, é uma espécie de versão de O Processo com enxertos de O Castelo, Cartas ao pai e dados biográficos do melhor escritor que já existiu. O resultado é apenas razoável. Não é um filme de ação, embora até haja alguma. Não será considerado entretenimento pela maioria das pessoas que o virem, mas tem uma cena que sintetiza a mensagem dos outros dois. Quando Kafka (Irons) e Gabriela estão caminhando na ponte, conversando sobre o mistério da morte do amigo em comum, travam esse diálogo:
Ela - Não sabemos o que houve.
Ele - Sabemos que não foi roubado. A polícia o identificou pela carteira.
Ela - Acredita neles?
Ele - Não há motivos para duvidar.
Ela - São autoridades, já basta.
Gabriela diz tudo1. O motivo para duvidar do que dizem a respeito da morte de seu amigo é exatamente o fato de se tratar de autoridades. Mas todo mundo mente, protestará, com razão, o leitor. A questão é que as autoridades, por alegado dever de ofício. E, o mais importante, cidadãos comuns cometem as perdoáveis "mentiras brancas", moral e tacitamente aceitáveis. Autoridades não têm limites para o grau de suas mentiras. Se um cidadão comum ultrapassar o limite do aceitável será punido com a indignação dos pares e, se ao fazer isso feriu alguma lei, também o será pela justiça. As autoridades, não.
1. Embora eu já tenha lido os livros do melhor escritor que já existiu pelo menos duas vezes, confesso que não sei dizer se isso é de Kafka ou do roteirista.
Quando dizemos que todos mentimos mentirinhas aceitáveis, é claro que desprezamos duas coisas. A primeira, a opinião de Kant, que discordaria categoricamente. A segunda é que quem decide o que é "aceitável" somos nós mesmos, o que torna bastante elástico o conceito. Acontece que, se esse elástico se esticar demais, arrebenta. É uma espécie de instrumento autocontrolável.
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