Entrevista Entre a Ciência e a Filosofia Estudioso da Filosofia da Mente, Daniel Dennett fala da linha tênue e necessária entre Ciência e Filosofia, sobre a possibilidade de o homem criar robôs conscientes e da diminuição de religiosos no mundo
Por Bruno Tripode Bartaquini
É difícil saber o que é mais prazeroso para o filósofo Daniel Dennett: se explicar como funciona o cérebro ou se discursar sobre o direito dos ateus saírem do armário e a consequente ameaça e mentiras das religiões para a sociedade. Nos dois casos, seus olhos brilham enquanto profere palavras há muito esquecidas e mesmo preteridas pelos filósofos pós-modernos como “verdade”, “bom”, “certo” ou “errado”. Considerado um funcionalista extremo no campo da Filosofia da Mente (refere-se aos seres humanos como “sistemas intencionais”), está exposto a uma enxurrada de críticas por parte de seus colegas que o veem como entusiasta excessivo dos laboratórios.
Ainda assim, ou por causa disso, é um dos mais inovadores e prolíficos estudiosos da mente humana, utilizando-se de tiradas bem-humoradas como “um ácido ribonucleico com atitude” para explicar o que é um vírus, ou da imagem do “pandemônio cerebral” formado em nossa cabeça quando muitos circuitos mentais disputam o privilégio de resolver os problemas cognitivos. Do humor simples, seus conceitos-chave podem chegar a uma sofisticação erudita, como quando, por exemplo, usa o termo “máquina joyceana” para explicar a consciência como o resultado de processos cerebrais paralelos que criam um fluxo de pensamento em série parecido ao da linha narrativa de Ulisses, obra-prima do escritor irlandês James Joyce.
No Brasil para palestrar no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, o autor de Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural (Globo, 2006), A perigosa ideia de Darwin (Rocco, 1998) e Tipo de mentes: Rumo a uma compreensão da Consciência (Rocco, 1997) falou para Filosofia Ciência & Vida sobre suas teorias, inteligência artificial, ateísmo e até opinou sobre a política brasileira.
FILOSOFIA • Para você, sendo um pensador limítrofe, onde termina a Ciência e começa a Filosofia? Quais são as limitações da Ciência e da Filosofia quando falamos sobre a mente?
Daniel Dennett • Não acho que exista uma boa linha divisória e não penso que deveria haver. Creio que não se pode fazer Ciência sem ter pressupostos filosóficos no que está fazendo. Pode-se não examinar cuidadosamente, pode-se apenas esperar estar com sorte, mas não se pode fazer Ciência sem se comprometer com suposições científicas importantes e de alguma forma controversas.
Portanto, os cientistas mais reflexivos irão inevitavelmente cruzar a linha e fazer Filosofia. Nos últimos anos, cada vez mais eles têm se disposto a fazer isso e em alguns casos têm sido até entusiastas em se aventurar nas questões filosóficas. Alguns são muito bons. Outros, muito ruins. Acho que, no momento, há muitos neurocientistas bem ruins pensando em, por exemplo, livre-arbítrio e responsabilidade. Na minha visão, é uma tarefa primordial para mim e outros filósofos mostrar a esses neurocientistas que alguns de seus pensamentos sobre estes assuntos são bem confusos.
Há muitos filósofos que pensam que podem se intrometer em uma discussão científica e fazer contribuições quando, na verdade, não podem
FILOSOFIA • E o contrário? Como um filósofo pode pensar o campo científico?
Dennett • Claro que é difícil. Deve-se trabalhar duro e fazer a lição de casa e entender como a boa Ciência funciona de fato. Há muitos filósofos que pensam que podem se intrometer em uma discussão científica e fazer contribuições quando, na verdade, não podem, porque não aprenderam o suficiente da boa Ciência. E eu posso ser culpado disso algumas vezes, mas pelo menos entendo que esta é uma responsabilidade, aprender a Ciência e entendê-la.
FILOSOFIA • Mesmo assim você é um grande entusiasta da Ciência. O que os outros filósofos pensam sobre isso? Você já foi chamado de “darwinista fundamentalista”...
Dennett • Acho que “darwinista fundamentalista” é um termo muito inteligente, mas injusto. Foi criado por Steven Jay Gould, que tinha boas razões para estar bravo comigo porque eu estava expondo seus erros e ele tentou diminuir minha influência e reputação. Então, ele contra-atacou. Não há um significado real nesse termo. E tenho me disposto a responder na direção contrária.
FILOSOFIA • Você poderia explicar rapidamente o que são a “máquina joyceana” e a “instância intencional”?
Dennett • Estamos acostumados com a ideia de que se pode usar um computador em série, como um laptop, para simular uma máquina paralela. Minha ideia é que a máquina joyceana é uma arquitetura serial simulada em uma máquina paralela. Nossos cérebros são profundamente paralelos. É criado dentro de nós um tipo de computador serial, o qual pode de fato pensar apenas em uma coisa de cada vez e usa muitos de seus recursos criando essa máquina joyceana, que é uma corrente de consciência não tão ampla e contínua.
Talvez o melhor jeito de entender a máquina joy- ceana é que é fácil de programar um laptop, uma máquina em série, porque você pensa, “primeiro ela faz isso, depois aquilo, e então deve fazer isso e aquilo”, e você está pensando em passos, um de cada vez, acontecendo em uma sequência. Por outro lado, é muito, muito difícil de programar uma máquina paralela, porque tudo acontece ao mesmo tempo em muitos canais, e não sabemos como pensar deste modo. Quando percebemos que não sabemos como pensar paralelamente e que, introspectivamente, temos a percepção de uma corrente de conteúdo, podemos ver que nosso modo de pensar normal humano é em série. A máquina joy- ceana é essa mente de funcionamento serial criada em um cérebro de funcionamento paralelo.
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