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Seridó estuda 'O homem concreto'
Na fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba, o Campus da UERN de Caicó consolida seu curso de graduação em Filosofia. A intenção é aplicá-la aos problemas do Seridó

Roberto Lopes

José Roberto

No sertão do Seridó, quando o manto da noite absorve silenciosamente a morna luz do fim da tarde, vários movimentos migratórios convergem - sempre motorizados - para a cidade de Caicó, de sessenta e poucos mil habitantes - vista do alto, um conjunto de linhas pontilhadas e faiscantes no extremo sul do Estado do Rio Grande do Norte, bem perto da fronteira com a Paraíba.
Não são retirantes, esses que migram ao abrigo do anoitecer. São estudantes do curso de graduação em Filosofia do Campus Avançado da UERN - Universidade Estadual do Rio Grande do Norte. Caicó estuda Filosofia há mais de sete anos, como forma de complementar a formação dos padres da Diocese local, mas há cerca de dois abriu essa oportunidade ao público em geral - a jovens egressos do vestibular e a profissionais de outras áreas interessados no conhecimento filosófico.
"Temos 45 vagas por ano", informa o coordenador do curso de Filosofia da UERN-Caicó, José Francisco das Chagas Souza - o Professor Déda Souza -, de 42 anos, "e todas são ocupadas. Aliás, temos até candidatos ao curso que não podemos atender por falta de vagas".
Nascido no pequeno município potiguar de Luiz Gomes, ex-padre diocesano de Mossoró e ex-aluno do Instituto de Teologia do Recife, Déda Souza - homem baixo, de cabelos grisalhos e ar circunspecto, formado no ambiente da Teologia da Libertação - é, ele próprio, Mestrando em Filosofia na Universidade Federal de seu Estado.
Mas em Caicó, com o apoio da diretora do campus, professora Maria Reilta Dantas Cirino, Déda faz bem mais do que trabalhar na consolidação do curso de graduação em Filosofia.
Trabalhando nas duas pontas de um mesmo espectro, a dupla prepara a instauração, já neste fim de ano, do ensino de Filosofia para crianças nas salas de aula da rede municipal; isso ao tempo em que avalia os resultados do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) do MEC e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ferramenta de amparo à formação de dez professores nessa área.
Em seu dia a dia, o professor Déda recebe alunos que vêm de diferentes grotões do Seridó - mais de 20 cidades -, num raio de 80 km, para se graduar nos legados de Platão e Sócrates, bem como em ensinamentos mais recentes, desenvolvidos por Descartes, Nietzsche e Kant.
"Vem gente até de Currais Novos, a quase 100 quilômetros daqui", observa com orgulho o coordenador do curso. E ele garante: "mesmo aqui, nesse cenário árido, temos um grupo de pessoas bastante alegre. Quando recebemos alguém mais sofrido, de mente mais fechada, nossa tarefa é fazê-lo ver o homem como um todo, ou em todas as suas possibilidades, fazê-lo ver o que chamamos de 'o homem concreto'", conclui o ex-padre.
A Filosofia Ciência & Vida ouviu Déda Souza pelo telefone. Eis os principais trechos dessa conversa.

Estudamos o homem do Seridó, ligado à seca, a uma região sofrida.
Mas o que fazemos é atualizar os alunos sobre as possibilidades desse indivíduo

 

José Roberto

FILOSOFIA  Um curso de Filosofia no Seridó potiguar serve a que tipo de reflexão? Àquela influenciada pelo cenário de dificuldades naturais?
Déda Souza 
Começamos aqui pela Introdução à Filosofia, como não poderia deixar de ser, mas nos dedicamos muito à Antropologia Filosófica, que estuda as condições históricas concretas do homem ou o homem como um todo. Claro que, no nosso caso, somos remetidos ao estudo do homem do Seridó, ligado à seca, originário de uma região sofrida. Mas o que tentamos fazer é atualizar os nossos alunos acerca das possibilidades desse indivíduo. É o estudo do que chamamos de o "homem concreto".

FILOSOFIA  Em um quadro de circunstâncias muitas vezes desfavoráveis, que evocam a luta pela sobrevivência, o que emerge dessa reflexão? Muito negativismo? Pessimismo?
Souza 
Não, não. Ao contrário. O que passamos para os alunos é que o homem do sertão tem as suas características próprias, é um bravo, um lutador, alguém empenhado em buscar os seus caminhos. E que diante de toda essa realidade, o que temos é um povo de muita alegria, que tira leite de pedra em cada uma de suas vitórias.

FILOSOFIA  E qual é o efeito dessas mensagens?
Souza 
Isso vai, automaticamente, arejando e abrindo a mente dos nossos alunos. Quando recebemos aqui alguém de mente mais fechada, mais sofrido, nós procuramos atualizá-lo quanto às suas possibilidades. Estudamos Nietzsche, Kant, de forma a situar o nosso aluno em um campo mais contemporâneo do pensamento filosófico.

 

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