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Óperas com um toque de Filosofia
Richard Wagner, com sua "ópera revolucionária" e a defesa de uma estética engajada, conciliou Arte e teoria filosófica, buscando na música meios de mudar a realidade sociocultural de sua época

Renato Nunes Bittencourt

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As esperanças redentoras prometidas pelo sistema moralista cristão são vistas como um impedimento à estética revolucionária de Wagner, que aposta nas capacidades imanentes do homem

A estética revolucionária de Wagner é, nessas condições, um processo de construção da cultura por um viés imanente, no qual o homem se irmanaria ao próximo visando à sua constante autossuperação e a afirmação das suas capacidades criativas. Por tal motivo, as esperanças redentoras prometidas pelo sistema moralista cristão, nivelador dos homens, foram imputadas por Wagner como um grande entrave para a realização desse projeto cultural. Curiosamente, em sua fase madura, Wagner conciliaria a sua visão de mundo vanguardista com elementos da simbologia cristã, circunstância que permitiu a criação de um drama musical como Parsifal, considerado muito mais do que uma ópera, mas um ofício religioso solene, um culto sagrado. Há que se destacar que mesmo nas primeiras obras wagnerianas encontram-se elementos cristãos, como, por exemplo, Tannhäuser e Lohengrin; todavia, trata-se de um Cristianismo heterodoxo, fundido a um estofo simbólico germânico e, em especial, grego.
Ainda que em seus respectivos enredos haja o embate íntimo entre a vontade individual e o sentimento de elevação espiritual em prol da redenção da existência, possuiriam, no entanto, elementos dramáticos que lhes concederiam qualidades afirmativas, pois os seus protagonistas se singularizam por adotar uma postura de contestação revolucionária contra a mediocridade de espírito de seus interlocutores e da multidão inconsciente de seu potencial, devido ao cego respeito pelas tradições morais. Por exemplo, o personagem-título de Tannhäuser desafia os costumes do amor cortês ao proclamar a embriaguez do amor afrodisíaco; o Holandês Errante de O Navio Fantasma se assemelha ao mito de Odisseu que vaga décadas pelos mares visando ao retorno a seu torrão natal; a proibição de Elza conhecer o nome de Lohengrin na ópera homônima se aproxima simbolicamente da impossibilidade de Sêmele conhecer a identidade verdadeira de Zeus. Em ambos os casos, a revelação da verdade motiva na vida dessas mulheres terríveis infortúnios. Portanto, essa recriação simbólica dos mitos pagãos com os caracteres cristãos representa o processo de nascimento da "obra de arte do futuro" e a transformação da vida humana pela arte como expressão imediata da vida.
O estudo da estética musical de Wagner, assim como de sua sólida criação teórica, é certamente merecedor de pesquisas mais amplas, monografias, dissertações e teses. Tamanha genialidade não se encerra apenas em um artigo. Richard Wagner, filósofo: por que não concedermos ao genial compositor esse título?

Primeiros passos NA REVOLUÇÃO

Richard Wagner (1813-1883) nasceu em Leipzig, na Alemanha, em 1813, e viveu até o ano de 1883, quando morreu em Veneza, na Iitália. Foi um período marcado por grandes lutas político ideológicas, nas quais Wagner envolveu-se diretamente. Basta lembrar que em 1848 Parx e Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista, uma revolução na França depôs Luís Filipe, conhecido como o rei burguês, e movimentos surgiram em toda a Eeuropa contra as monarquias absolutistas. Wagner entusiasmou-se com os ideais revolucionários e passou a lutar pela transformação da Alemanha, por uma nova cultura alemã, associando-se a um partido político denominado Vaterlandsverein onde se discutia temas como revolução, república, socialismo, comunismo e anarquismo. Por seu envolvimento revolucionário foi considerado criminoso e obrigado a deixar a Alemanha e viver no exílio por 11 anos.

 

Referências
CAZNÓK, Yara Borges; NAFFAH NETO, Alfredo. Ouvir Wagner - Ecos nietzschianos. São Paulo: Musa, 2000. D DAHLHAUS, Carl; DEATHRIDGE, John. Wagner - Serie The New Grove. Trad. de Marija M. Bezerra. Porto Alegre: L&PM, 1988. SC HOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. Trad. de Jair Barboza. São Paulo: Edusp, 2005. WAGNER, Richard. A Arte e a Revolução. Trad. de José M. Justo. Lisboa: Antígona, 1990. ________. A Obra de Arte do Futuro. de José M. Justo. Lisboa: Antígona, 2003.


Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pela UFRJ, professor de Filosofia do Colégio Maria José Imperial e do curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA

 

 

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