Óperas com um toque de Filosofia Richard Wagner, com sua "ópera revolucionária" e a defesa de uma estética engajada, conciliou Arte e teoria filosófica, buscando na música meios de mudar a realidade sociocultural de sua época
Renato Nunes Bittencourt
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| Nas casas de ópera, Wagner criticava a falta de refinamento do público, que frequentava o local com outros objetivos diferentes da fruição estética esperada |
Um dos fatores que, talvez, permitia tal aberração estética era o seguinte: uma característica peculiar das óperas "pré-wagnerianas" consistia no fato de elas serem compostas de acordo com uma estrutura estilística que impossibilitava ao seu corpo musical possuir um caráter de uniformidade. Assemelhava-se, por conseguinte, a uma espécie de "costura musical", na qual os recitativos e as árias eram interligados por uma qualidade de música composta com o objetivo de associar diversos segmentos dramáticos, geralmente heterogêneos, em uma dada peça musical. Conforme comentam Yara Caznók e Alfredo Naffah Neto acerca dos costumes do público tradicional de ópera: "Não se ouvia a obra em sua duração total para depois percebê-la como uma. Tratava-se da vivência de pequenas e inúmeras unidades propiciadas pelos números isolados que não sem razão eram também chamados de números isolados" (Ouvir Wagner - Ecos nietzschianos, p. 24).
Dessa maneira, todos os elementos estranhos ao desenvolvimento do genuíno drama musical, como os empresários gananciosos e o público volúvel ávido por emoções intensas, deveriam ser postos de lado do processo de difusão cultural para que a criatividade do gênio tivesse de lidar somente com aqueles que efetivamente ansiavam pela afirmação da dignidade da vida de artista: o público esteta. Como destacado por Dahlhaus e Deathridge, "Wagner usa o teatro como espelho de uma sociedade reacionária que, antes de qualquer coisa, deveria ser transformada, se ele quisesse realizar seus objetivos artísticos" (Wagner - Série The New Grove, p. 34). Dando continuidade em suas reformas estéticas, Wagner desenvolve em suas óperas um projeto sonoro distinto do mero acompanhamento orquestral comumente utilizado pelos compositores, elaborando ousadas combinações harmônicas, de modo a tornar a estrutura musical das partituras de suas óperas uma espécie de "sinfonia dramática", muito distinta das tendências que estavam até então em voga. Dessa maneira, se exigiria do espectador uma nova forma de fruir a obra de arte, circunstância que certamente modificaria as suas capacidades cognitivas e estéticas.
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Wagner propõe a reeducação estética do público para que este adquira a plena capacidade de compreender a imptância da obra de arte para a vida |
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| A moda é considerada tirânica por Wagner por funcionar como um estimulante artificial que desperta carências não naturais nos indivíduos |
Tais inovações acompanham o processo de instauração da postulada "obra de arte total", síntese artística que englobaria todos os recursos e meios de expressão possíveis para o desenvolvimento de uma ópera, caracterizando-se pelo fato de que a estrutura musical, a cenografia, o libreto, a arquitetura do teatro e os seus demais recursos técnicos somariam para o seu engrandecimento. Essa circunstância se reflete também na disposição wagneriana de realizar pessoalmente todos os processos de elaboração do drama musical, criando assim uma obra artística genuinamente orgânica, na qual todas as etapas de sua produção se encontravam sob sua direção.
A concretização desse ideal estético ocorreria por meio da "obra de arte do futuro", que expressa a completa reconciliação da Ciência com a vida, a coroa de glória que, na derrota infligida, redimiu a ciência vencida e que, em preito de homenagem, por ela é entregue com alegria àquele que ela reconhece como vencedor (WAGNER, A Obra de Arte do Futuro, p. 15).
A declinante sociedade europeia deveria ser radicalmente transformada e restaurada numa expressão cultural mais criativa e poderosa, superando assim tanto a visão teórica de mundo como os ideais metafísicos de uma moral religiosa que não propõe a felicidade plena em vida, mas apenas lampejos e promessas de beatitude em um postulado mundo suprassensível. O poder dominante soube muito bem se utilizar desses dispositivos soteriológicos para melhor controlar a massa inculta. A religião cristã, como sistema moral, motiva a alienação do ser humano, incapaz de transformar de forma satisfatória as bases concretas de sua sofrida vida. Conforme destaca Wagner: "O Cristianismo oferece justificação para uma existência miserável dos homens sobre a Terra, destituída de honra e de utilidade. Vai buscar tal justificação à maravilha de um amor divino que, ao contrário do que erradamente pensavam os belos gregos, não criou o homem para uma existência terrena de alegria consciente, antes o teria encerrado num catre repugnante, preparando-lhe assim para depois da morte um esplendor eterno de comodidade e inação como recompensa do desprezo de si próprio interiorizado nesta vida" (WAGNER, A Arte e a Revolução, p. 48).
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