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Óperas com um toque de Filosofia
Richard Wagner, com sua "ópera revolucionária" e a defesa de uma estética engajada, conciliou Arte e teoria filosófica, buscando na música meios de mudar a realidade sociocultural de sua época

Renato Nunes Bittencourt

Ferdinand Leeke - The art renewal center
Última ópera composta por Wagner, Parsifal é considerada o ápice de sua produção artística - alinhada a concepções filosóficas

Em geral, os artistas sempre se encontraram submetidos a padrões valorativos que castravam suas forças criativas, gerando assim obras que legitimavam ideologicamente o status quo. O regime de mecenato fazia do artista um reprodutor de valores religiosos e sociais que se glorificavam esteticamente pela submissão do artista ao seu financiamento. Tal submissão não significa o desmerecimento estético dessas criações, pois grande parte do patrimônio artístico da cultura ocidental somente se efetivou graças ao patrocínio dos poderes estabelecidos. Entretanto, caberia a pergunta: será que essas obras existiriam caso houvesse outros instrumentos de financiamento para a criação artística, instrumentos desvinculados das estruturas do poder secular ou religioso?
Na era moderna, o desenvolvimento vertiginoso do capitalismo tornou a criação cultural um bem consumível. Uma classe soube explorar muito bem o potencial lucrativo proporcionado pela difusão comercial das obras de arte: os empresários detentores das casas de ópera e os ideólogos que sustentavam teoricamente tal império. Conforme destaca criticamente Wagner, o âmago da arte moderna residia na indústria - a sua finalidade moral era o lucro financeiro e a sua eficácia estética era o entretenimento dos entediados (WAGNER, A Arte e a Revolução, p. 59).
Uma das situações que mais desagradava Wagner era a ausência de refinamento estético do espectador das casas de ópera, que frequentava os espetáculos com objetivos alheios ao da genuína fruição estética, isto é, a interação imediata com a criação artística. A ópera era encarada pelos "filisteus" - indivíduos que eram incapazes de estabelecer hierarquias valorativas entre os princípios estéticos superiores e as necessidades materiais ordinárias - apenas como uma oportunidade de realizar encontros sociais, sendo comum que os espectadores mantivessem posturas ruidosas no decorrer das encenações. Para malgrado dos compositores, submetidos a esses caprichos vulgares das massas, suas criações deveriam servir de repasto para o entretenimento alheio, circunstância que motivava, não raro, a adequação de suas obras ao gosto duvidoso do público. Para cada teatro, o compositor adaptava a estrutura musical de suas óperas de modo a satisfazer as disposições estéticas dos "consumidores" da arte.

Shutterstock
Wagner pretendia criar um gênero artístico que envolvesse a participação efetiva do povo em sua elaboração, reeducando-o esteticamente

 

Reeducação estética
Contra essa tendência degradante para o estatuto da obra musical, Wagner primeiramente propõe a reeducação estética do público, para que este adquirisse a plena capacidade de compreender a importância da obra de arte para a vida, de modo que o indivíduo alcançasse uma comunhão com o impulso estético. Para Wagner, deveria existir a devoção irrestrita do indivíduo à criação artística. Tal experiência promove uma ruptura com o gosto degenerado da moda: a moda é o estimulante artificial que desperta uma carência não natural onde a carência natural não existe. Porém, aquilo que não decorre de uma carência real é arbitrário, incondicionado, tirânico. "A moda é, por isso, a mais inaudita, a mais louca tirania que alguma vez foi produzida pela perversão da essência humana: da natureza ela exige obediência absoluta; às carências reais impõe a mais completa autodenegação em favor de carências imaginárias; no homem, ela obriga o natural sentido da beleza à adoração do feio; liquida-lhe a saúde para lhe ensinar o gosto pela doença; quebra-lhe o vigor e a força para fazê-lo sentir conforto nas suas fraquezas. Onde dominar a moda mais ridícula, aí, a natureza terá de ser vista como a coisa mais ridícula; onde dominar a mais criminosa antinatureza, aí, a expressão da natureza surgirá como supremo crime; onde a loucura conquista o lugar da verdade, aí, a verdade será declarada louca e posta atrás das grades" (WAGNER, A Obra de Arte de Futuro, p. 31-32).

 

imslp (partitura) Uma "Ópera Revolucionária" desenvoveria nos espectadores um conjunto de sentimentos impetuosos em prol da tranformação social


 

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