Filosofia Clínica Surdos de si mesmo Lúcio Packter
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Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br |
Após uma palestra em Boa Vista, enquanto autografava alguns livros, uma senhora se aproximou e disse que compreendia agora porque achou que era uma boa ouvinte de si mesma e se assustava quando o que surgia em sua vida mostrava que ela era, na verdade, surda de si mesma nas questões essenciais.
Durante a palestra, eu havia exposto que algumas pessoas acham que se ouvem porque pensam em suas questões e prestam atenção ao que pensam, enquanto, às vezes, as emoções permanecem na orla sem que a pessoa as considere. Com o tempo, o que era apenas uma tristeza torna-se, em diversos casos, uma tristeza intensa que se espraia em direção a campos como relacionamentos, trabalho, religiosidade. Um dia, a pessoa levanta, a primavera toda lá fora, e ela se pergunta por que se sente triste, sem vontade de trabalhar, de namorar, de sair com os amigos. Logo ela, uma pessoa que tanto se ouve, não sabe como algo assim pode estar acontecendo.
Mas, o que ouvir exatamente em si mesmo? Entre tantos pensamentos, fatos, sentimentos, buscas, entendimentos, entre tantos elementos, quais são importantes o suficiente a ponto de merecer uma atenção em especial? Além disso, qual o mérito de determinadas audições existenciais? Devemos ouvir o que grita em nós, o que nos pede, o que nos procura, o que nos adverte? Édipo, como uma ilustração, adolescente, deu atenção à profecia do oráculo e deu fé àquilo. Tanto é que acreditou ser filho de Políbio e escapou de Corinto para provocar um desencontro com o destino.
Há elementos convincentes que nos falam, em nós, que suplicam, reclamam.
Ouvir é uma condição que implica em discernimento, neste caso. É por meio da historicidade da pessoa que poderemos identificar o que ela foi apagando ("deixei para lá; não dei mais atenção a; passei a me ocupar com outra coisa", etc.). Talvez saibamos o que foi essencial em tudo isso, pelo estudo dos contextos, dos elementos, do andamento das questões ao longo dos anos. Certas questões que deixaram de ser ouvidas foram existencialmente adequadas e um acerto producente para a pessoa. Em outros casos isso pode ser diferente.
O HOMEM SEM EMOÇÕES
Durante uma palestra em Manaus, uma professora da instituição perguntou-me sobre os problemas em torno de conviver com pessoas "psicóticas", definindo o termo mencionando "gentes" que não têm sentimentos, frias, racionais, que não estabelecem vínculos.
Lembrei-me então de um homem a quem atendi há anos quando fui para um ciclo de conferências em Belém. Ele veio conversar sobre este tema para saber se o fato de não se emocionar com a dor, a alegria, o medo, as esperanças dos outros seria uma patologia. De parte da resposta dependia o emprego dele.
Após caminharmos pelos espaços abertos das ruas no centro, conversando, pareceu-me que, para ele, não ter emoções foi um fator de equilíbrio, de ajuste, diante de uma família cujos gritos, brigas, ódios ele não tinha como administrar. Intuitivamente, salvou-se ao anestesiar algo que provavelmente lhe causaria imensa dor: as emoções. Quando escrevo que ele não tinha emoções, quero ilustrar que as possuía em tão poucos caracteres, se relacionarmos aos demais elementos existenciais em sua vida, que elas tornaram-se praticamente irrelevantes para ele. Aquilo que Francesco Petrarca conseguiu ao conversar a fé, com o sentimento, este homem distraidamente desfez.
Em Filosofia Clínica não existe patologia. Suponho que, no caso dele, mesmo considerando pelo jargão médico, dificilmente encontraríamos uma patologia. Ele elegeu a Ética como a estrada de interseções com os outros. Não magoava, não feria, não desfazia dos outros, como também de si mesmo, porque decorou um protocolo de procedimentos que lhe asseguraram a boa sorte em vida. Eventualmente, ele atualizava suas regras.
RETROAÇÕES
Uma pessoa afirma que deseja retornar, recuar passos até um período existencial no qual as disposições lhe pareciam bem. Para fazer isso, entre outros aspectos, a pessoa precisa saber onde está existencialmente e o sentido (ir ou vir) de sua jornada rumo ao que deseja. Se não for assim, a pessoa pode caminhar achando que está se aproximando de algo, enquanto executa movimentos que a afastarão mais e mais. Alguns indivíduos, perdidos em seus movimentos, promovem retornos sem saber que estão avançando para o inédito do novo; deste modo, alguns acabam vivendo nesta novidade parte do que procuravam ao mirar seus recuos.Além disso, retroagir pode significar que, ao chegar lá, a pessoa encontrará tudo diferente, ou diferente na proporção em que simplesmente desista disso.
Muitas vezes, o melhor de uma vivência qualquer já passou. Muitas vezes é possível recuar e permanecer neste melhor que já passou. Muitas vezes não é. Quando possível for, é urgente que o filósofo clínico pesquise quais elementos a pessoa retroagirá com este andar para um acontecido. Por exemplo: se a pessoa, ao recuar até a época de suas esperanças, inviabilizar as buscas que possui hoje, que talvez não possam ir com ela, e se tais buscas forem determinantes para esta pessoa, uma retroação pode significar perdas tremendas diante de benefícios mínimos. Isso, longe de alguma regra, pode não significar muito para a pessoa.
O Mundo como vontade e Reprentação, de Schopenhauer
Uma visão clara e completa da essência da loucura, um conceito preciso e nítido do que diferencia propriamente o louco do homem são, a meu saber ainda não se encontrou.
Nem razão, nem entendimento podem ser negados aos loucos, pois eles falam e entendem, com frequência raciocinam com justeza; também, comumente, encaram o presente corretamente e reconhecem a conexão entre causa e efeito. Visões, assim como os delírios febris, não são um sintoma usual da loucura. O delírio falsifica a intuição; a loucura, os pensamentos.
Na maior parte das vezes, os loucos não erram no conhecimento do presente imediato, mas suas divagações referem-se sempre ao ausente e ao passado, e somente por este intermédio com o presente. Por isto sua doença me parece atingir em especial a memória; não de um modo tal que esta lhes seja inteiramente ausente, pois muitos deles sabem muitas coisas de memória e, por vezes, reconhecem pessoas que não viam de há muito; mas de forma tal que o fio da memória está rompido, o contínuo encadeamento da mesma está ausente, sendo impossível qualquer recordação uniformemente conexa. |
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