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Ética
O que é a verdade?
A ideia tradicional de verdade, combatida por Hobbes, passava pela adequação entre o conhecimento e o ser. Para o filósofo inglês, tal visão era inconsistente. E vai além: só Geometria e Política podiam ter a pretensão de verdade, por serem criações do homem

Por Renato Janine Ribeiro

SHUTTERSTOCK
Renato Janine Ribeiro, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor titular da disciplina de Ética e Filosofia Política na mesma universidade. Tem 65 capítulos de livros e 17 livros editados, tendo recebido o prêmio Jabuti de melhor ensaio (2001), a Ordem Nacional do Mérito Científico (1997) e a Ordem de Rio Branco (2009)

Espontaneamente, a maior parte das pessoas tende a entender a verdade como adequatio. Esse termo difícil significa, apenas, que haverá verdade quando houver adequação entre a coisa e o conhecimento que temos dela. Mas essa concepção é contestada desde o início da modernidade. Há várias críticas a ela, e aqui veremos a de um filósofo em especial: Thomas Hobbes.

Quando estudamos Filosofia, quase sempre se destaca um dos dois campos seguintes: a teoria do ser (ontologia, que pode incluir a metafísica ou estar perto dela) e a teoria do conhecimento. Os grandes temas vinculados à ação parecem ser - nos currículos universitários - menores. Assim, na disciplina de História da Filosofia se estuda o ser ou o conhecer. É nas disciplinas de Ética ou Filosofia Política que se discute o que é certo, errado, bom ou mau no agir - seja este agir coletivo (Política) ou da pessoa mais individualizada (ética).

Ora, a questão da verdade é impreterivelmente uma questão da relação entre o ser e o conhecer. A convicção espontânea de que "verdade é adequação" supõe que conheçamos o ser. Por outro lado, Hobbes deve sua fama à sua teoria da Política. Sua física foi exposta ao ridículo por séculos. Pudera, ele afirmava a quadratura do círculo (o que quer dizer simplesmente que "pi" é um número racional; ou seja, que a circunferência é comensurável com o diâmetro, assim como o quadrado com sua diagonal). Então, por que usá-lo para discutir a crise moderna da ideia de verdade como adequação? Vejamos.

"Os que buscam o justo caminho da verdade não devem ocupar-se com nenhum objeto a respeito do qual não possam ter uma certeza igual à das demonstrações da Aritmética e da Geometria"
DESCARTES

Hobbes se considerava um físico de qualidade. Quando foi fundada a Royal Society, em 1662, ele se indignou porque não o chamaram para ser membro dessa primeira grande academia de ciências. Num texto furioso, lembra que Mersenne e Gassendi (que muitos conhecem como correspondentes de Descartes) o admiravam. Mas sua ira não deu em nada. Mais que isso: se dependesse de sua física, Hobbes hoje seria, quando muito, uma nota de rodapé nos livros de História da Filosofia.

Aliás, Hobbes é Hobbes - ou seja, é conhecido e respeitado como um autor relevante, mesmo por quem discorda dele - basicamente por sua Filosofia Política. Suas outras obras são interessantes. Sua Política é genial. Eis a diferença.

Então, por que ver como ele põe em xeque a ideia anterior de verdade?

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