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Reflexões
Ilan Halimi, para a história
"Como se este homen com a garganta cortada não valesse a pena de chorar! O promotor deveria ter lembrado a todos sobre estas verdades. Ele - e com isso quero dizer a sociedade - deveria ter erguido a espada a estas ideias falsas e fatais"

Por Bernard-Henri Lévy

Bernard-Henri Lévy
Filósofo Francês e jornalista, é autor de 30 livros incluindo Quem matou Daniel Pearl. Escreve quinzenalmente para o The new york times

Para a História: Ilan Halimi foi um jovem francês sequestrado próximo a Paris em 20 de janeiro de 2006. Seu corpo foi encontrado ao lado de uma ferrovia em 13 de fevereiro. Foi torturado, queimado vivo; seu corpo, uma ferida aberta, fora jogado ali como um cachorro, agonizante, e pouco tempo depois, morreu. Para a História: França é um país, como o era o Paquistão no caso de Daniel Pearl, repórter do jornal Wall Street, onde um homem pode ser mantido cativo abertamente, diante de todo um bairro. Halimi, morrendo lentamente, foi transportado de um lugar para outro, passou fome e foi alimentado, torturado até que seus carrascos se cansaram, e logo foi movido novamente - tudo isso em 24 dias.

Para a História: os cúmplices desse ato cruel - o porteiro de um edifício suburbano de apartamentos que, ao que parece, cedeu o quarto aos assassinos; a jovem mulher modestamente apelidada "a isca"; o homem que entrega pizzas; o carcereiro que não conseguia fumar em paz com os gritos de Halimi e que apagou um cigarro em sua testa para fazê-lo se calar; todos os outros - todas essas pessoas tiveram 24 dias, uma eternidade, para se sentirem comovidas pelos gritos de Halimi, para romper seu silêncio com um telefonema e colocar fim ao seu calvário. Para a História, nenhum deles teve esse instinto humano básico.

Para a História: Youssouf Fofana, líder da gangue, é um antissemita da espécie mais simples, pura e selvagem. É do tipo que - sem saber nada, e sem desejar saber, sobre o que o destino judeu ao longo dos séculos significou, e, frequentemente, significa ainda, humilhação, destituição e miséria - perpetua o estúpido clichê do judeu rico que, como se costuma dizer, está "repleto de dinheiro". E, por causa disso, Halimi se converteu no objeto da crueldade calculada de Fofana.

Para a História: há boas almas para quem este assassinato não está exatamente justificado, mas que tratam de situá-lo em seu contexto, que é o de uma bem conhecida crise nos subúrbios de Paris e a marcha fúnebre de outras misérias. Houve pessoas que anunciaram que foi um crime de vilões, sim, mas não um crime de ódio! Como se o antissemitismo não fosse sempre uma vilania; o nazismo histórico não fosse uma empresa de extorsão financeira, uma fraude massiva em nível europeu!

Para a História: Alguns bons apóstolos da polícia, no topo da hierarquia judicial, e também da imprensa bem-intencionada, disseram aos judeus: "Pelo bem dos judeus, sim, por seu próprio bem, com o propósito de não se desesperar, quando o lobo chegar, sem ajuda, recomendamos cautela, que exerçam certa restrição semântica, não rufem os tambores sobre o regresso da Besta e do nazismo" - como se este homem com a garganta cortada não valesse a pena para chorar!

O promotor deveria ter lembrado a todos sobre estas verdades. Ele - e com isso quero dizer a sociedade - deveria ter erguido a espada a estas ideias falsas e fatais. Infelizmente, nada disso aconteceu. Apenas se concedeu, como declaração final do promotor, um exercício em casuísmo que surpreendeu aos observadores em sua confusão, cuidado, incoerência e vergonha apenas dissimulada sobre este crime comum excepcional. Quanto aos familiares de Ilan, ficaram atônitos. Perderam tudo. Até mesmo a força para chorar. A única coisa que lhes sobrou foi a humilde, mas firme esperança de que se faça justiça. Já é hora! Como se este homem com a garganta cortada não valesse a pena para chorar!

 

 

 

 

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