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A fundamentação Oriental da Filosofa ocidental
Na Antiguidade ou em tempos mais recentes, muitos filósofos ocidentais contruíram seus sistemas de pensamento baseadis em ideias vidas do Oriente

Por Alexey Dodsworth


SHUTTERSTOCK
Alcorão, livro sagrado do islamismo. O saber contido nos livros religiosos é supostamente uma revelação divina, ao contrário do saber filosófico, produto do raciocínio humano

O fato é que, a despeito de alguns gostarem disso e outros nem tanto, o pensamento mítico jamais nos abandonou nem no Oriente, nem no "científico" Ocidente. Alguns filósofos, em especial, deram grande atenção e valor ao pensamento mítico, considerado não como "inferior" ao racional pensamento filosófico, mas como outra forma de pensar. Destaquemos dois desses filósofos: Nietzsche e Schopenhauer. Este foi especialmente dedicado a uma abordagem filosófica do que surge como verdade revelada no pensamento indiano. Em verdade, podemos afirmar que Schopenhauer foi o primeiro filósofo ocidental a revelar abertura em relação às ideias da espiritualidade oriental, com espetacular atenção dada ao Budismo e ao Hinduísmo. E tal abertura foi, muito provavelmente, uma das razões para a falta de valorização em relação à sua obra, já que o meio acadêmico ocidental sempre demonstrou certo preconceito em relação aos conhecimentos do Oriente. De fato, Schopenhauer foi ostracizado em vida por conta de suas afinidades orientalistas.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Telescópio espacial Hubble. Verdades reveladas fogem a qualquer contestação lógica. A Ciência, com telescópios que investigam o céu e obtêm evidências, nada vale diante da crença.

Sustentando a tese fenomenista, Schopenhauer argumenta que toda a realidade em torno de nós não passa de representação mental, contudo, tão convincente que cremos nela com toda força. Os Vedas - obra que era do profundo conhecimento de Schopenhauer - dizem exatamente a mesma coisa: o que chamamos de realidade nada mais é do que uma ilusão da mente. Schopenhauer pergunta: "(...) existe um critério seguro para distinguir sonho e realidade?". A esta questão, o próprio filósofo dá sua resposta, alegando que de nada adianta aferirmos à realidade um grau maior de vivacidade do que ao sonho, posto que quando sonhamos tudo aquilo é extremamente real. Deste modo, para Schopenhauer seria totalmente impossível afirmar com certeza que a realidade é tão real quanto se diz. O verdadeiro aspecto das coisas estaria além do alcance de nossa mente limitada. Em sua obra mais famosa, intitulada O mundo como vontade e representação, Schopenhauer denuncia: espaço, tempo e os princípios da causa e efeito condicionam todo conhecimento e, deste modo, jamais nenhum filósofo conhecerá a Verdade, mas tão somente aspectos e representações desta.

RELEITURA DOS VEDAS

A tese de Schopenhauer se trata de uma releitura da tese fundamental dos Vedas: tudo o que sabemos sobre o mundo e o universo é apenas ilusão, fantasia. Todo e qualquer conhecimento é uma construção mental que justifica a si mesma e, deste modo, até a Ciência positivista seria apenas um sistema de crenças que só é mais persuasivo por ser o sistema dominante e vencedor. Muitos anos depois, o filósofo das Ciências Paul Feyerabend fez a mesma denúncia em sua obra capital Contra o método, ao afirmar que a Ciência é apenas uma interpretação válida da realidade, e não a interpretação única. Todas as nossas mais profundas convicções seriam sempre subjetivas e qualquer desejo de objetividade seria pura pretensão autoilusória, até mesmo no campo científico, ainda que tudo nos pareça muitíssimo real.

Vedas é o nome que recebem os quatro textos escritos em sânscrito que formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo.
Contêm, por exemplo, hinos, orações, mágicas e rituais. Como mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia, é importante no estudo dessa linguística e da história antiga indiana.

Saber disso nos ajuda a viver? Algumas pessoas, a partir de tais reflexões, podem afundar no mais crônico niilismo, tornando-se indiferentes à vida, uma vez que ela não passaria de ilusão. Muitas outras mergulham em profunda religiosidade, partindo do pressuposto de que se a Filosofia não passa de uma criadora de representações ilusórias, os livros tradicionais das religiões antigas (a Teosofia) contêm a verdade revelada que só pode ser alcançada a partir do caminho devocional - a fé em sua acepção mais pura. E para tantas outras, ainda que tudo seja ilusório, devemos viver a partir dos limites legítimos de nossa compreensão, e um "salto de fé" não garante absolutamente nada, podendo ser tão ilusório quanto qualquer coisa. E, assim sendo, ainda que a Ciência seja limitada, ela pelo menos é algo que temos como "nosso". Cada um de nós se identificará com uma trilha mais do que outra, e talvez até mesmo com outras não aventadas neste parágrafo.

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