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Superprático
O Dáimon Eros
Augusta Cristina de Souza Novaes

Augusta Cristina de Souza Novaes é ex-aluna do colégio Sagrado Coração de Jesus de Belo Horizonte, é psicanalista, bacharel em Filosofa pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Letras com ênfase em literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. (novaesaugusta@ig.com.br)
ARQUIVO  CIÊNCIA & VIDA
Jovem defendendo-se de Eros, de Bouguereau (1825-1905)

O Eros platônico é o assunto deste nosso encontro. No Banquete, diálogo de Platão, Sócrates narra uma conversa que teve com uma profetisa de Mantineia chamada Diotima. Nessa conversa, Sócrates aparece como aquele que é conduzido por Diotima ao desvendamento da natureza de Eros e da sua utilidade para a vida humana.

O percurso de Sócrates se inicia a partir da ideia de que Eros ocupa posição intermediária entre o feio e o formoso, entre o saber e a ignorância, entre o perfeito e o imperfeito, e de que, não sendo um deus, também não é um mortal

EROS É UM DÁIMON, que age como intérprete entre os deuses e os homens. Sua natureza é dupla, pois possui atributos herdados dos seus pais: Poros e Penia (Fortuna e Miséria). Eternamente necessitado e ao mesmo tempo um grande ardiloso a buscar o que carece. Aqui reside a aproximação entre Eros e a Filosofa, ou melhor seria dizer, entre Eros e o flósofo. Sim, para Diotima os deuses não flosofam, pois possuem toda sabedoria, e os néscios não a buscam, já que se julgam satisfeitos com o que são. Ouçamo-la: "Nenhum deus flosofa ou deseja ser sábio - pois já o é -, assim como se alguém mais é sábio, não flosofa. Nem também os ignorantes flosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância (...), que lhe basta assim. Não deseja, portanto quem não imagina ser defciente naquilo que não pensa lhe ser preciso." Apenas os flósofos desejam o conhecimento, pois sabem que não sabem e aspiram saber. Os flósofos ocupam um lugar intermediário entre a sabedoria e a ignorância, por isso eles se esforçam em sua busca. Eros é flósofo por excelência. Novamente Diotima: "Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser flósofo e, sendo flósofo, estar entre o sábio e o ignorante."

Nesse ponto, Diotima se desloca da natureza de Eros de sua utilidade ao homem.A sacerdotisa de Mantineia explica que toda ânsia por beleza reside na aspiração do homem à felicidade (eudaimonia), que consiste na posse de um bem perfeito, uma vez que toda vontade humana inclina, necessariamente, o homem ao bem. De onde decorre o princípio da ética platônica, de que o homem só pode desejar o que considerar ser o seu bem. Para Platão, segundo Werner Jaeger na Paideia, "o conceito de Eros torna-se (...) o compêndio da aspiração humana ao Bem". Assim, quando Aristófanes diz em seu discurso que o Homem busca através de Eros sua totalidade, compreende-se com Diotima que o Homem busca àquilo que é inerente ao mais íntimo da sua natureza, o seu bem. Sendo Eros amor pelo Bem é o móvel para a mais autêntica realização humana. Buscar o seu bem é amar-se, trata-se aqui do amor-próprio flosófco. Aristóteles, em Ética à Nicômaco, (livro IX, cap.8), refere-se a essa superior forma de amor a si mesmo como sendo o oposto do egoísmo. O amor a si próprio é, segundo o flósofo, cultivar em si tudo o que for bom e nobre e adotar para com o seu eu idêntica atitude que adotaria em relação ao seu melhor amigo, sendo o melhor amigo aquele a quem se deseja todo o Bem.

DIVULGAÇÃO

PLATÃO COLOCA através da voz de Diotima que o fm visado por Eros é a perfeição de um bem último. A busca de Eros é a ânsia de ajudar o eu próprio autêntico a realizar-se. Tal realização parte, inicialmente, da busca pela imortalidade pela procriação na carne. Ouçamos Diotima: "É desse modo que tudo o que é mortal se conserva, e não pelo fato de absolutamente ser sempre o mesmo, como o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e envelhece outro ser novo, tal qual ele mesmo era."

A mesma lei aplica-se à procriação espiritual 1, leiamos em O Banquete: "(...) há os que concebem na alma mais do que no corpo, o que convém à alma conceber e gerar; e o que é que lhes convém senão o pensamento e o mais da virtude?" Nesse momento, Diotima coloca que aquele que é movido pelo desejo da procriação espiritual busca uma alma bela com a qual possa expandir-se em discursos e educá-la. Até aqui existe uma relação de conformidade com a tradição grega no que tange à força educadora de Eros.

No momento seguinte vamos ler algo originalmente platônico no discurso de Diotima. Qual seja: A força educadora de Eros sobre o amante vem a ser: Eros por meio da sua ação sobre o amante o faz ascender espiritualmente. Inicialmente o amante descobre que a beleza de um belo corpo é similar à beleza de todos os outros corpos, daí o discípulo de Eros descobre a beleza. Ou seja, o amante vai descobrir o sentido da beleza em si. E dos belos corpos vai passar a admirar as belas almas. Das belas almas os belos discursos e ofícios, culminando na admiração da beleza em todas as ciências. 2 Resultando disso a libertação do amante das paixões. Liberto dos seus grilhões chega à contemplação do próprio Belo3. Tal contemplação é um estado permanente, o telos visado pelo homem que deve dedicar toda sua vida em atingi-lo. Diotima explica ao jovem Sócrates o porquê: "(...) somente quando vir o belo (...) ocorrerlhe-á produzir não sombra de virtude, porque não é em sombra que estará tocando, mas reais virtudes(...)." Eros possui um signifcado humanista nesse diálogo, o de levar o homem à excelência do seu

1 Homero, antes de Platão, vai dizer que o homem deseja se imortalizar através da areté, ou seja, dos seus feitos virtuosos.
2 Para Platão, todas as ciências possuem sua beleza, valor e sentido próprios.
3 Belo, Bem e Divino são termos que se equivalem.

 

 

 

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