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Filosofia clínica
A teoria, a prática
Por L úcio Packter

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Lúcio Packter é flósofo clínico e criador da Filosofa Clínica. Graduado em Filosofa pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofa Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofa São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br

Na revistinha de bordo Almanaque de Cultura Popular , da TAM, li a seguinte história que veio sem autoria. Um sujeito há anos sofria de um mal único. Tomava um gole de café e sentia uma dolorosa pontada no olho esquerdo. Não havia remédio ou jeito que resolvesse o assunto. Até que certo dia decidiu procurar um médico. Explicou o problema. O médico pediu a ele para tomar café. O homem tomou várias vezes, as pontadas seguiam incomodando.

Ao fnal do exame, o sujeito exclamou:
Pelo amor de Deus, doutor! Meu problema tem solução?
Tem sim. É só tirar a colherzinha de dentro da xícara...

Ou seja, a prática como complemento do que iniciamos em teoria, e em seguida a contrapartida. No consultório, conforme o andamento do que nos relata a pessoa, os caminhos de pesquisa teóricos apontam para uma longa e demorada investigação. Há pessoas que inventam fatos, deturpam intencionalmente outros, acrescentam elementos que tornam os eventos simpáticos a elas, constroem justifcativas de ocasião, enredam-se em considerações sem fm em argumentos viciados.

Tudo isso desmorona às vezes se o flósofo clínico deixar o consultório e caminhar com a pessoa em um jardim, se marcar uma entrevista na casa da pessoa, se encontrar-se com ela na biblioteca da Universidade ou em um local de convívio familiar da pessoa. Isso nem sempre é fácil, nem sempre é possível, nem sempre é indicado. Mas pode fazer mostrar a colherzinha dentro da xícara.

Porém, a própria teoria se explica em si mesma também. No mesmo Almanaque de Cultura Popular , que é ilustrado como os antigos almanaques de costumes, com fâmulas e adereços entre os textos, outra historinha conta que um homem conversava com o amigo na mesa do bar:

Ontem meu cartão de crédito foi roubado, mas decidi não avisar a polícia.
Por quê? - pergunta o amigo.
O ladrão está gastando bem menos do que a minha mulher.

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Algumas pessoas usam subterfúgios para "frear" suas vidas nos momentos em que elas não necessitam dos freios

FREIOS EXISTENCIAIS

Quando você for à bela cidade de Dourados, interior do Mato Grosso do Sul, observe que ela não possui subidas e descidas. Tudo é plano, tudo é povoado de planícies, poucos prédios, bicicletas por todo lado, árvores.

Caso comprasse algum patinete para transitar pela região, provavelmente não seria necessário que tivesse um daqueles freios de mão. Para quê? Em lugares assim, a gravidade é o melhor e o mais suave freio ao embalo macio que traciona as rodinhas delicadas do patinete.

No entanto, há modelos importados que já trazem o freio, modulado por um cabo, que naturalmente faz parecer necessária esta peça acoplada ao veículo. Acredito que alguns fcariam surpresos se soubessem que um patinete não precisa de freios. Talvez não comprassem, talvez devolvessem achando que tivesse um defeito.

Lembro disso quando encontro seguidamente no consultório pessoas cujas construções semânticas, sintáticas, gramaticais trazem freios embutidos que não são necessários por aquilo que elas estão a viver.

Exemplo: há pessoas que colocam a proposição "eu quero estar bem" seguida de uma vírgula, que serve para respirar, e então acoplam um freio como "mas, porém, todavia, no entanto eu sei que isso é difícil, é árduo, é distante, é demorado, etc.".

Neste exemplo, o freio pouco tem a ver com o que se passa na vida da pessoa. Ele está ali porque veio com o patinete e porque levou a pessoa a acreditar que necessita usá-lo, afnal, ele é parte do que ocorre. Não sabe que não precisa dele.

Curiosamente, é o próprio desejar estar bem que leva imediatamente no seio o antagonista de si mesmo. Ao querer, a pessoa já leva embutido o que lhe faz sofrer, desistir, perder, este querer.

Os freios linguísticos encontram parentesco em outros freios, como os freios sensoriais, afetivos, epistemológicos, éticos. Há inúmeras semelhanças entre eles.

Imagine um guri que aos 6 anos estava brincando com uma menina. Ele examinava com interesse a parte de cima das pernas dela. A mãe dele avista a brincadeira lá de onde estende a roupa no varal; apanha uma varinha de marmelo, aplica uma varada no gurizinho e o manda para dentro de casa. A malha intelectiva de uma pessoa, se estiver várias vezes em situações como esta, pode tomar como lição, já que não houve explicação a respeito do motivo do castigo, que é errado sentir vontades ligadas ao prazer.

É assim que, aos 20 anos de idade, quando uma garota convidar o rapaz para dançar, ele pode aceitar com alegria e imediatamente vivenciar algo desagradável como uma dor de cabeça ou medo.

Esse tipo de freio sensorial é muito comum.

A LÓGICA DOS LIVROS DE AUTOAJUDA

Iricélia foi magoada pelo homem que amava. Combinou fdelidade com ele no início do noivado e soube durante o casamento que a validade do acordo havia expirado. Iricélia passou a sentir rancor, mágoa, raiva de Ticeu.

O divórcio veio. Para Iricélia foi o único divórcio em sua vida. Ticeu conheceria mais dois divórcios e um abandono antes que a vida lhe surpreendesse com um acidente vascular fatal.

Iricélia, nas poucas vezes que encontrou Ticeu, notou que ele percebeu o que ela sentia e que se mantinha acuado, quieto.

O fato de sentir rancor, mágoa, raiva com relação a Ticeu, pouco afetava este, mas afetava muito Iricélia. Manter-se magoada, rancorosa, enraivecida fazia que não tivesse outras vivências e suas experiências raras vezes se afastavam destes elementos, frequentemente eram afetadas por eles.

Tudo isso Iricélia descobriu lendo os livros de autoajuda. Passou a crer que para todo mundo é assim. E em todas as ocasiões ela dá de presente livros de autoajuda. Ticeu ganhou um antes de morrer: Como perdoar perdoando-se.

A questão é que, como cada pessoa possui um funcionamento único, para algumas pessoas é oportuna a mágoa, a raiva e a dor como instrumentos dialéticos de resolução, como critério de aprendizagem, como dispositivo de aprimoramento, etc., etc.

INSTANTES DE NEGAÇÃO

É possível viver uma vida inteira em desacordo consigo mesmo. Instantes de negação aos momentos de recémdescoberta. Os itinerários da originalidade pessoal podem seguir distorcidos, e viver como se fossem espectadores nos próprios eventos.

A busca pessoal pode seguir desfigurada ao tentar se adequar aos arranjos da conformação dominante. Um discurso bem-acabado por onde se instituem as leis e o gesso aos propósitos de mudança. O significado de cada um passa a ser desmerecido, como se fosse inevitável viver assim.

Gilles Deleuze refere: "Só Dionísio, o artista criador, atinge a potência das metamorfoses que o faz devir, dando testemunho de uma vida que jorra; ele eleva a potência do falso a um grau que se efetua não mais na forma, porém na transformação - 'virtude que dá', ou criação de possibilidades de vida: transmutação."

O bem-estar representado pela verdade das cidades aparece como algo a ser alcançado a qualquer preço. Endividados, devedores e credores se encontram culpados e a sustentar uma lógica das aparências. Um fascínio irresistível a acenar coisas cada vez mais distantes, em que o sujeito passa a ser objeto. Os dias se passam na ante-sala das promessa não cumpridas.

(texto escrito pelo filósofo clínico Hélio Strassburger)

 

 

 

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