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Filosofia da mente
Os Filósofos, o Riso e a Neurociência
Por João de Fernandes Teixeira

João de Fernandes Teixeira é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. www.flosofadamente.org

As teorias do riso na história da Filosofia são muitas, começando desde a Antiguidade. Platão e Aristóteles, por exemplo, diziam que o riso vem de certo sentimento de superioridade pelo qual expressamos nosso desprezo por aqueles que julgamos inferiores.

Na época moderna, flósofos como Kant também escreveram sobre o riso. Na sua Crítica da razão pura ele dizia que o riso faz bem à saúde, pois massageia os intestinos e o diafragma. Essa ideia seria retomada séculos mais tarde pelo médico indiano Madan Kataria, que a partir de 1995 fundou os clubes do riso. Neles, as pessoas se reúnem para rir, pois supostamente isso tem uma fnalidade curativa

No início do século XX, Henri Bergson escreveu um ensaio sobre o riso, que se tornou uma espécie de clássico na literatura flosófca sobre o tema. Nele, Bergson sugere a ideia do riso como o rompimento com o mecânico, com o automatismo que permeia constantemente nossa vida cotidiana. E nos diz também que rir é um ato profundamente humano e social, pois nós, seres humanos, somos os únicos seres capazes de rir de alguma coisa.

Mas esse rir de pode ser algo muito peculiar. Provavelmente os fenomenólogos diriam que esse é o caráter intencional do riso humano - aquilo que o torna um estado mental acerca de alguma coisa no mundo, da mesma maneira que sonhos, pensamentos e desejos também são acerca de algo no mundo. Uma hiena ri e uma boneca mecânica pode rir, mas nunca rirão como um ser humano, porque ao riso deles faltará essa característica intencional. Raramente o riso humano é intransitivo.

Não muito distante da época em que Bergson publicou seu ensaio sobre o riso encontramos a obra de Freud, Os chistes e suas relações com o inconsciente, de 1905. O livro é muito cansativo para o leitor atual e as piadas que ele apresenta hoje em dia não têm graça nenhuma, o que o torna de difícil leitura. Sua teoria consiste em dizer que o chiste (ou a piada) é um mecanismo pelo qual liberamos impulsos socialmente reprimidos, frequentemente relacionados ao sexo e à agressividade. Pelas piadas expressamos o que não temos coragem de falar, ou seja, proposições machistas, racistas, xenófobas e assim por diante.

TONI D´AGOSTINHO
A imagem faz parte da exposição 50 razões para rir, que tem caricaturas de diversos pensadores e cientistas com suas frases sobre o riso. Desde maio, a exposição circula pelas estações de metrô, em São Paulo, e está exposta atualmente na estação Brás. O trabalho é de Toni D'Agostinho e o livro que deu origem à exposição será lançado, em breve, pela Editora Noovha América

Hoje em dia, as teses de Bergson e Freud estão dando lugar a teorias neurocientífcas e antropológicas que visam explicar os mecanismos de produção do riso por meio de estudos do cérebro e do comportamento, não só de humanos, como também de primatas.

Há pesquisas sobre esse tema sendo feitas também por cientistas cognitivos, como é o caso, por exemplo, do laboratório do riso, criado na Inglaterra e que tem um site que vale a pena visitar (www. laughlab.co.uk).

Do ponto de vista da Filosofia da Mente, o riso também coloca uma questão muito interessante no que diz respeito aos problemas da causação mental, pois ao analisálo, nos deparamos com a necessidade de explicar como um relato (a piada) que nada contém de sensível pode produzir uma sensação de prazer.

Podemos afirmar que o problema com essas teorias é que todas elas são parcialmente corretas, mas nenhuma pode ser generalizada. Tampouco se chegou até hoje com algo parecido com uma teoria completa que integre todas essas visões parciais.

MAS O QUE É O RISO, AFINAL?

Seria interessante começar a responder essa questão ressaltando que é o corpo que ri. Os flósofos e pesquisadores do riso o têm tratado como uma espécie de fenômeno físico local, restrito a alguns poucos músculos da face e da laringe. Mas temos a sensação de que quando rimos é o corpo todo que subitamente interrompe suas atividades para rir.

Quando dizemos que o corpo ri, queremos afirmar também que o riso é um marcador somático. Esse foi um conceito criado pelo neurobiólogo português Antonio Damásio, autor do livro O erro de Descartes. Marcadores somáticos são mecanismos que têm a função de interromper um curso de ação ou um pensamento que não deve prosseguir, seja por razões orgânicas, seja por razões sociais. O marcador somático faz que seja produzido um sentimento como, por exemplo, o medo, que nos impede de colocar nossa vida em risco ou que cometamos excessos com nosso próprio corpo.

Filósofos como Kant também escreveram sobre o riso. Na sua crítica da razão pura ele dizia que o riso faz bem à saúde, pois massageia os intestinos e o diafragma

Quando bebemos em demasia ou usamos certos tipos de drogas, suspendemos temporariamente a ação de marcadores somáticos importantes, perdemos o medo e podemos cometer delitos ou arriscar a integridade do nosso próprio corpo dirigindo um carro de maneira totalmente imprudente. O marcador somático, expresso na forma de medo, pode aparecer na forma de imagens assustadoras que surgem em nossa mente, o que freia totalmente nossa ação.

Da mesma maneira, o riso pode frear nossa ação, embora de uma forma prazerosa. Rir quando começamos a difamar alguém por uma piada interrompe a sequência da crítica mordaz que só retornará, provavelmente, na forma de outra piada acerca daquela pessoa.

O neurocientista Ramachandran desenvolve hipótese semelhante ao nos falar das origens evolutivas do sorriso. Sua hipótese é a de que o sorriso deve ter surgido para abortar situações nas quais seres humanos se aproximavam de outros com caretas ameaçadoras, mas que, ao reconhecer o outro como amigo ou conhecido, podiam interromper a expressão de ameaça, substituindo-a pelo sorriso. Para ele, "o sorriso é uma resposta de orientação abortada, da mesma forma que o riso". Algo não muito distante da ideia de que se uma piada libera a agressividade reprimida, o riso a interrompe e não deixa essa agressividade prosseguir.

O RISO TORNA-SE instrumento de crítica social dentro de limites aceitáveis. Rir de alguém pode causar humilhação, mas, mesmo assim, isso será melhor do que esfaqueá-lo. A gargalhada que humilha sempre tem chance de ser seguida, pouco depois, por uma mudança de assunto na conversa.

Certamente essa é mais uma teoria parcial do riso. Talvez a única coisa que possamos falar com certeza acerca do riso é que cada vez que rimos ocorre um fenômeno único, inimitável. Não se ri igual da mesma piada duas vezes.

As conotações culturais e a base cerebral do riso ainda não são inteiramente conhecidas. Para os neurocientistas ainda há um longo caminho a percorrer. E para os filósofos da mente é preciso, ainda, desvendar o problema da causação mental.

 

 

 

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