Filosofia clínica Quando Assis morreu Por lúcio packter
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| Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br |
Quando Assis morreu, Michele plantou unha-de-gato e uma trepadeira lenhosa de onde brotam flores amarelas junto ao gradil do jardim. A folhagem tem por baixo umas gavinhas que prendem ao gradeado a planta, os tubérculos comestíveis.
Em caixilhos de madeira trançada, Michele colocou as verbenas, as flores delicadas, cor-de-rosa, de perfume suave. No contorno que leva ao pergolado de madeira, ela ordenou em dois lados os agapantos. Os azuis tomaram, então, conta do jardim.
Para lá e para cá, Michele espalhou cuidadosamente as pervincas aromáticas, os gerânios e suas flores com pétalas vermelhas em vasos de terracota. As pequeninas flores violáceas das violetas emolduravam as janelas de Michele. E lá, junto à fonte, as alamandas subiam pelas portinholas do portão.
Quando Assis morreu, a casa se encheu de sebinhos com o peito amarelo, de bem-tevi, de sabiás tomando banho e espalhando água na fonte que escorre pelas pedras. De vez em quando, uma revoada de borboletas perto dos jasmins dos poetas com aquele mar cheiroso de flores brancas.
Quando Assis morreu, Michele cobriu as lajotas de terra, o pátio do automóvel virou um canteiro de agapantos, a oficina de ferramentas deu lugar aos instrumentos de jardinar.
Michele voltou a sorrir porque voltou ao jardim, Michele voltou a assobiar seus desafinados trinados, Michele se apanhava feliz junto à sombra do pergolado de madeira. Com 72 anos de idade, ela aguardou.
- Esperei 30 anos para ter meus passarinhos de volta.
Porque Assis havia cimentado o pátio e colocado lajotas nos espaços restantes. Porque Michele achou que tinha de ter sido assim. Porque tudo aconteceu assim.
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Paralelismos
- Estava lendo A guerra de 3 trilhões de dólares, de Joseph Stiglitz, obra sobre o custo da Guerra no Iraque. Matemática aparentemente fácil, subjetivamente complexa. Não é novidade que fatos em si mesmos pequenos, nas proporções nas quais são inseridos (e a Guerra do Iraque certamente não foi pequena), podem desencadear fatos desproporcionais aos que se anunciam por aqueles. Há, muitas vezes, paralelismos desconhecidos entre as coisas que se exercitam existencialmente.
Esperar que os desdobramentos de uma ação sejam coerentes, proporcionais ao que é feito, parece ser cada vez um direcionamento menos recomendável, sobretudo porque a noção de proporcionalidade entre as coisas muitas vezes não existe. Exemplo: o que é mais antigo, um grito ou 3 dólares? Ora, a própria proposição parece absurda, não é?
Às vezes a nossa própria ação diante de algo, ação esta que parece inédita e pela primeira vez iniciada, nada mais é do que o desdobramento, um paralelismo, cuja fonte está fora de nosso alcance.
Em breve teremos áreas de estudos e pesquisas sobre paralelismos, áreas que estudarão eventos cruzados, processos derivados a partir de segmentos isolados e periféricos. Como Belano casou com Janice sem saber que continuava casado com Jaqueline.
Belano conheceu Janice um ano após o divórcio. Ele concedeu o divórcio a Jaqueline após uma pequena encenação circense na qual ela ameaçou os medos mais íntimos de Belano. Ele aceitou o divórcio e, no fim, estava quase implorando para que ocorresse.
Epicuro tem a ver com Filosofia Clínica?
"Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma.
A imediata desaparição de uma grande dor é o que produz insuperável alegria: esta é a essência do bem, se o entendemos direito, e depois nos mantemos firmes e não giramos em vão falando do bem.
E como o prazer é o primeiro e inato bem, é igualmente por este motivo que não escolhemos qualquer prazer; antes, pomos de lado muitos prazeres quando, como resultado deles, sofremos maiores pesares; e igualmente preferimos muitas dores aos prazeres quando, depois de longamente havermos suportado as dores, gozamos de prazeres maiores.
Por conseguinte, cada um dos prazeres possui por natureza um bem próprio, mas não deve escolher-se cada um deles; do mesmo modo, cada dor é um mal, mas nem sempre se deve evitá-las. Convém, então, valorizar todas as coisas de acordo com a medida e o critério dos benefícios e dos prejuízos, pois que, segundo as ocasiões, o bem nos produz o mal e, em troca, o mal, o bem.
Formula a seguinte interrogação a respeito de cada desejo: que me sucederá se se cumpre o que quer o meu desejo? Que me acontecerá se não se cumpre?
Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros são naturais e não necessários; outros nem naturais nem necessários, mas nascidos apenas de uma vã opinião.
Quando te angustias com as tuas angústias, te esqueces da natureza: a ti mesmo te impões infinitos desejos e temores."
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Durante as consultas, Belano iniciava falando o quanto estava feliz com Janice, o quanto a amava. Então, alguma coisa mudava em seus olhos, ele pigarreava, discorria longamente sobre o quanto sua vida com Jaqueline havia sido restritiva aos sonhos, aos desejos mais simples como conversar com os amigos antes de voltar para casa.
Ele contava da nova casa com Janice e conseguia descrever uma casa maravilhosa, com jardim de inverno, gramados em planos inclinados, tudo em poucos minutos; em longos minutos ele descrevia o apartamento escuro, cortinas sempre cerradas, no qual viveu com Jaqueline.
Descrevia minuciosamente os hábitos de Jaqueline que a levavam a gostar das cortinas sempre cerradas.
- O que o senhor quiser saber dela, pergunte para mim. Eu sou uma autoridade nos caprichos dela.
Belano era demorado em suas observações sobre Jaqueline. Às vezes ele estava tornando uma história minuciosa e era difícil diferenciar se ele estava tratando de Janice ou de Jaqueline. Em vários momentos ele parecia não saber também. Chamava uma pelo nome da outra frequentemente.
Belano afirmava querer esquecer, querer uma nova vida ao lado de uma nova mulher, mas cada vez que se ocupava do novo, o antigo lhe retornava. Ele olhava diretamente para aquilo que desejava não ver e que assim acabava vendo cada vez mais, cada vez mais. Cada vez mais.
Foram muitos meses de entrevistas até que um dia Belano, cansado, decidiu não falar mais de Jaqueline, decidiu não pensar mais nela, não se ocupar das coisas que foram. Belano decidiu falar sobre Janice, decidiu pensar sobre Janice, decidiu se ocupar de Janice. Decidiu olhar, tocar, estar com Janice. Belano então, de fato iniciou seu casamento
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