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FILOSOFIA DA MENTE
FICÇÃO NEUROCIENTÍFICA

João de Fernandes Teixeira

João de Fernandes Teixeira
é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. www.filosofiadamente.org

Há cerca de 50 anos, tentava-se curar casos graves de epilepsia com uma cirurgia que separava os hemisférios cerebrais. Visava-se, com isso, à diminuição da circulação de carga elétrica no cérebro e à consequente diminuição da probabilidade dos ataques epilépticos. A cirurgia foi chamada de comissurotomia cerebral. Ela era também chamada de calosotomia, porque para separar os hemisférios era preciso remover a interface entre eles, o corpo caloso. O corte do corpo caloso serviria para evitar que as descargas iniciadas em um hemisfério se alastrassem para o outro.

Desde o final da década de 1930 havia relatos de neurocirurgiões de que a secção do corpo caloso não trazia grandes repercussões funcionais na vida das pessoas operadas. Já havia também relatos de experimentos feitos com gatos, por Ronald Myers e Roger Sperry, de que quando era seccionado o corpo caloso d e s s e s animais, cada hemisfério funcionava independentemente, q u a s e como um cérebro comple- to. O mesmo tipo de experimento foi feito, em seguida, com humanos. O mais impressionante é que se constatou que cada u m dos hemisférios podia realizar tarefas sem o conhecimento do outro.

Esse achado levou a um intenso questionamento sobre o funcionamento do cérebro. Qual seria a função do corpo caloso? Teria ele funções de integração das operações dos dois hemisférios? Até que ponto as metades cerebrais seriam independentes se fossem postas a funcionar cada uma delas sem a outra? Poderiam elas ter pensamentos e emoções separadamente?

Do ponto de vista da filosofia da mente, as experiências com os pacientes que sofrem calosotomias, os chamados split-brain patients colocam problemas interessantes. Será que ao dividir cérebros estaríamos dividindo mentes? Se isso ocorre, a ideia cartesiana de uma alma única e indivisível não poderia mais ser sustentada. Não se poderia argumentar em favor da assimetria entre o físico e o mental com base na indivisibilidade deste último. Toda filosofia da mente de Descartes estaria sendo refutada por um experimento científico e, talvez, não nos restasse outra opção senão nos convertermos ao materialismo.

Thomas Nagel discordou veementemente desse argumento. Ele nos diz que não importam quantas mentes apareçam nos pacientes comissurotomizados, o que conta seria o fato de o sistema, sendo ele uno ou múltiplo, falar de si mesmo usando a primeira pessoa do singular, ou seja, referindo-se a si mesmo como sendo uma unidade. Mas não há consenso acerca do que Nagel diz.

Mas também da perspectiva daqueles que exploram as possibilidades do mundo pós-humano esses experimentos de corte do corpo caloso e separação dos hemisférios cerebrais abrem uma possibilidade insólita: a de substituir todo um lado de meu corpo e seu hemisfério cerebral correspondente (os lados do corpo e os hemisférios cerebrais estão invertidos) por uma máquina, ou seja, acoplar o lado do corpo a um "ciborgue". Como a metade natural estaria sempre ligada a essa máquina, seria possível programá- la para fazer várias tarefas que normalmente executo. Isso não seria problema, pois os hemisférios são praticamente autônomos e eu poderia, por exemplo, programar o hemisfério direito, onde supostamente há menos informação, para fazer essas tarefas. Certamente eu seria arrastado junto para onde meu hemisfério direito fosse, pois meu corpo continua unido a ele, o que ainda não seria muito confortável. Mas seria possível ir mais além e fazer também a comissurotomia, ou seja, cortar o corpo caloso, que une os dois hemisférios, pois é sabido que muitas pessoas não sofrem dano funcional algum por realizar essa cirurgia e seus hemisférios vão adquirindo independência.

Até que ponto as
metades cerebrais seriam
independentes se fossem
postas a funcionar
cada uma delas sem a
outra? Poderi am ter
pensamentos e emoções
separadamente?

A vantagem de fazer essa operação seria a independência total entre os hemisférios e a possibilidade de acrescentar no lado esquerdo de meu corpo membros suplementares e retráteis, habilitados a executar tarefas antes feitas pelo corpo natural e utilizáveis sempre que necessário ou desejado.
O hemisfério direito de meu cérebro e o lado esquerdo de meu corpo tornam-se um "ciborgue" acoplado a mim, que posso programar para fazer todas as tarefas desagradáveis que normalmente tenho de fazer, agora sem a minha participação. Isso significa que posso ver o "ciborgue" no lado esquerdo do corpo quebrar pedras o dia inteiro, ou ter de ir ao supermercado todos os dias, mas, rigorosamente falando, eu posso não ter nada a ver com isso. Pois os hemisférios de meu cérebro tornaram-se completamente independentes, ou seja, quando sinto alguma coisa isso não significa que os dois hemisférios estejam tendo essa sensação. Como eu não participo dessas tarefas, elas não são sentidas como penosas, ou não são sequer sentidas.

SHUTTERSTOCK

Como garantia, eu poderia programar o "ciborgue" para nunca transmitir experiências penosas para o lado esquerdo do cérebro, mesmo que ele quisesse, já com o corpo caloso cortado, enviá-las, por exemplo, por ondas de rádio. Com isso, dou um grande passo em direção ao conforto: torno-me parasita de mim mesmo, ou do lado direito do meu cérebro, agora uma máquina poderosa. Pois agora nem que eu seja carregado o tempo todo pelo "ciborgue", pois meu corpo está ligado a ele, não tenho mais de sentir esse incômodo, pois nem sei o que o outro hemisfério está fazendo.

Ora, por que não inventar um modo de desligar as sensações penosas no nosso próprio cérebro? Porque isso nos obrigaria a desligar muitas outras sensações que também estão no mesmo caminho cerebral que as desagradáveis. Ou, em outras palavras, talvez não seja possível desligar especificamente as sensações desagradáveis sem comprometer outras. Nesse caso, não poderíamos gozar a vida plenamente como o fazemos agora com a outra metade do cérebro.

Mas é preciso tomar cuidado para que os dois hemisférios não entrem em conflito. Já li uma vez sobre um desses casos, no conto de Philip K. Dick O homem duplo. Não era o caso de um acoplamento de "ciborgue", mas simplesmente de um homem que passou a sofrer de uma patologia cerebral na qual os dois hemisférios disputavam predominância o tempo todo e acabaram se rebelando um contra o outro. A vida do paciente se tornou um inferno. No caso do nosso "ciborgue", não precisamos ficar tão preocupados, pois se tratará, no máximo, de um bug no seu programa que poderá facilmente ser corrigido.

 

 

 

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