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Especial
O que Hobbes diria sobre o nosso Estado de Segurança?
Os homens uniram-se e formaram os Estados para obter segurança. As guerras e os conflitos atuais, em uma visão hobbesiana, decorrem da ausência de um poder superior capaz de garantir o entendimento

Por Frederico Diehl

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA

É justamente da transferência do direito de se governar a um terceiro, que passa a ser o portador da vontade de todos, que surge o Estado, ou República, ou Leviatã, o "Deus mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus imortal, a nossa paz e defesa". Mais ainda: "graças a esta autoridade que lhe é dada pelo indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz no seu próprio país, e da ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros".

Com isso, Hobbes chega enfim à definição expressa do Estado: "uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por todos como autora, de modo que ela pode usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, pa-ra assegurar a paz e a defesa comuns".

Analisando as ocorrências mencionadas no começo do texto - os ataques do PCC, a presença norte-americana no Iraque, o filme baseado no livro de José Saramago, os conflitos na Palestina, a violência nos morros do Rio de Janeiro - numa perspectiva hobbesiana, pode-se dizer que os conflitos instaurados devem-se à ausência de um poder superior às partes, capaz de coagi-las à paz e ao entendimento. Para Hobbes, é da diversidade de focos de poder que surge a discórdia.

A opção de Hobbes não é necessariamente pelo autoritarismo, nem pelo absolutismo monárquico, ao qual seu nome é muitas vezes associado. O autor deixa claro que ao poder soberano basta garantir a segurança e o bem-estar de seus membros. Mas sempre deve garanti-la - valendo-se dos meios que julgar necessários para tanto. Se a segurança e prosperidade puderem ser efetivadas com pouca gerência estatal e amplas liberdades individuais, que seja. Mas caso seja necessária censura, pena de morte, esmagamento da oposição, Hobbes não questionaria a necessidade de tais atitudes.

Diferenças entre sociedades humanas e animais

Antes de chegar à definição de Estado, Hobbes tece algumas considerações sobre a vida em sociedade dos animais. Mesmo que abelhas e formigas vivam socialmente, os homens são diferentes e não podem viver do mesmo modo (seguindo seus julgamentos e apetites particulares, sem o uso da linguagem na comunicação). De acordo com o filósofo, as diferenças entre os homens e as demais "criaturas políticas" (na expressão de Aristóteles) são de seis ordens distintas: em primeiro lugar, os homens competem por honra e dignidade, coisa que não acontece com os animais; em segundo lugar, para os animais inexiste distinção entre bem comum e bem individual, diferentemente do que ocorre com os homens; em terceiro lugar, os animais não possuem razão, não enxergando falhas na vida em comum, ao passo que o homem, por meio da razão, acaba tendendo a reformar e inovar o governo, causando, com isso, perturbações públicas; em quarto lugar, os animais não dispõem da arte da palavra, e é por ela que o homem esconde o mal sob aparência de bem e vice-versa; em quinto lugar, os animais nunca se ofendem com seus semelhantes se estão satisfeitos com o que possuem, ao contrário dos homens; por fim, em sexto lugar, o acordo entre os animais é natural, enquanto o firmado entre os homens ocorre por meio de um pacto artificial.

 

Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau têm visões opostas sobre a natureza humana: o primeiro considera o homem naturalmente egoísta e violento na defesa de seus interesses; o segundo acredita que o homem nasce bom, a sociedade é que cria condições que o levam a agir de modo ruim

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