Especial O que Hobbes diria sobre o nosso Estado de Segurança? Os homens uniram-se e formaram os Estados para obter segurança. As guerras e os conflitos atuais, em uma visão hobbesiana, decorrem da ausência de um poder superior capaz de garantir o entendimento
Por Frederico Diehl
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| Destruição de Leviatã, de Gustave Doré. Hobbes usa a imagem de monstros bíblicos para ilustrar alguns de seus pensamentos políticos. O Leviatã, por exemplo, simboliza o Estado e seu poder |
Natureza humana
Hobbes começa o Leviatã descrevendo a natureza humana, como os homens processam e relacionam sentimentos, informações e pensamentos, para depois tratar de virtudes, vícios e comportamentos independentemente do Estado político. Mais adiante, passa a mostrar de que forma os homens relacionam-se quando não há um Estado político a constranger as ações de todos, ou seja, numa condição de pura natureza. É a partir dessa condição natural que o Estado político será construido.
Hobbes defende que as causas dos conflitos entre os homens são três: a competição, a desconfiança e a glória
O filósofo defende que os homens são fundamentalmente todos iguais por natureza. Mesmo que se admita que um homem seja mais forte que o outro, quando se olha para a situação mais de longe se percebe que as diferenças são desprezíveis. Mesmo o mais fraco consegue matar o mais forte, tanto por maquinações quanto por aliança com outros. A igualdade não é só relativa ao aspecto físico, pois nas faculdades de espírito os homens também são iguais uns aos outros.
Sendo todos os homens iguais, segue- se que eles desejam igualmente ter seus interesses atendidos. É daí que nasce a disputa entre eles: "Portanto, se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo em que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos". Passam então, por desconfiança, a destruir-se mutuamente. Sabendo que podem ser mortos a qualquer momento, os homens começam a se preparar para os ataques. Somente assim conseguirão sobreviver.
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| Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, é conhecido por suas teorias políticas. Defende que os homens precisam de governos e sociedades para conter a violência e viver em paz |
O filósofo deixa bem claro o intenso desprazer que os homens sentem uns dos outros no estado de natureza. Ele defende que as causas do conflito são três: a competição, a desconfiança e a glória. Num belo parágrafo, Hobbes explica em que medida cada uma dessas causas atua para que os homens não consigam viver em paz: "A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defenderem-nos; e os terceiros, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido às suas pessoas, quer indiretamente aos seus parentes, amigos, nação, profissão ou ao seu nome". Pode-se dizer que Hobbes defende uma antropologia negativa: mesmo tendo afirmado em outros contextos que o homem não é sempre e necessariamente mau (no prefácio ao Do cidadão, por exemplo, Hobbes afirma que o homem é tanto o lobo do homem como um deus para o homem ), é inegável que, por segurança, deve esperar sempre o pior dos demais homens..
"O objetivo da guerra é a paz" ARISTÓTELES
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| Ilustração da capa da primeira edição da obra de Hobbes, Leviatã |
A partir dessa descrição da situação natural do homem, a conclusão é pelo conflito generalizado: "Com isso torna-se manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de mantê-los todos em temor respeitoso, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens". Não precisa necessariamente ser uma guerra formada por batalhas de fato: basta que exista no ar uma intenção, uma constante disposição de guerrear. A paz é definida negativamente: ela é o que não é guerra.
A situação de guerra de todos contra todos é bastante desagradável. Hobbes a descreve da seguinte maneira: "Numa tal condição não há lugar para o trabalho, pois o seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior que tudo, um medo contínuo e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta". Este quadro sombrio da condição de guerra de todos contra todos, descrito por Hobbes, ainda nos é, infelizmente, bastante familiar.
Mesmo considerando-se que a existência de tal situação é uma hipótese teórica, que não precisa necessariamente ocorrer ou ter ocorrido de fato, Hobbes aponta algumas situações em que se pode observar esse estado. A primeira é o que ocorria na América, onde não havia, segundo o filósofo, "nenhuma espécie de governo". Além dessa possibilidade entre indivíduos, Hobbes apresenta a situação das relações internacionais, entre os reis e soberanos dos diferentes países. Entre eles não há um poder comum que os obrigue - em função disso, encontram-se eternamente sob risco de guerra, com os canhões sempre prontos para disparar.
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