Especial O que Hobbes diria sobre o nosso Estado de Segurança? Os homens uniram-se e formaram os Estados para obter segurança. As guerras e os conflitos atuais, em uma visão hobbesiana, decorrem da ausência de um poder superior capaz de garantir o entendimento
Por Frederico Diehl
Frederico Diehl é mestrando em Filosofia pela USP, sendo bolsista da Capes, e coeditor dos Cadernos de Ética e Filosofia Política da USP
Os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) às forças públicas de São Paulo, em maio de 2006, chocaram a população. Entre as 293 ocorrências registradas, foram atingidos ônibus, casas de policiais, estações de metrô, agências de bancos e bombeiros. No total, o conflito deixou um saldo de pelo menos 157 mortos, entre policiais, criminosos e população civil. O jornal Folha de S.Paulo trouxe como manchete "São Paulo sob ataque". O medo generalizado se espalhou: no dia seguinte, escolas, universidades, shoppings e até fóruns e prefeituras não abriram as portas.
Esse caso de violência não é presença isolada nos jornais. Outros mais podem ser comparados a ele, como os conflitos entre a polícia paulistana e os moradores da favela especialde Paraisópolis, em fevereiro de 2009, bem como as guerras diárias nos morros do Rio de Janeiro e as frequentes confusões entre torcidas organizadas e poder público. Além dessas, ocorrências internacionais - como a presença dos Estados Unidos no Iraque, os conflitos entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza e até mesmo o filme Ensaio sobre a cegueira - podem ser vistas sob um mesmo referencial. Todas essas situações, por diferentes que sejam, geram sensações e questionamentos semelhantes: o medo, a insegurança, a dúvida a respeito das causas desses conflitos, se é possível colocar-lhes um ponto final e, principalmente, como fazê-lo.
Inquietações como estas não são novas. Pelo contrário, foram objeto de intensa reflexão pela filosofia política. Um autor do século XVII, em especial, dedicou sua mais importante obra justamente a esses problemas: Thomas Hobbes. Hobbes investigou se a ausência de um poder, maior que as partes em discórdia, não seria a causa das infindáveis guerras e tormentas e se um tal poder, uma vez erigido, não seria capaz de colocar um fim aos conflitos e discórdias e estabelecer uma paz duradoura.
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HOBBES E O LEVIATÃ
Hobbes foi um filósofo inglês do século XVII. É conhecido do público em geral por seu mais mencionado que lido Leviatã, por defender o absolutismo monárquico, por achar que o homem é mau por natureza e pelas expressões 'guerra de todos contra todos' e 'o homem é o lobo do homem'. Nascido de um lar humilde na pequena aldeia de Malmesbury, teve seus estudos em Oxford custeados por um tio. Após deixar a universidade, tornou-se conselheiro e tutor de jovens nobres, ofício que exerceu praticamente até o fim de sua longa vida. Viveu no auge das guerras civis que assolaram a Inglaterra, podendo sua filosofia política ser considerada um reflexo e uma reação às condições em que viveu.
O filósofo tratou sistematicamente de sua doutrina política em três obras:
Os Elementos da lei natural e política, de 1640, o Do cidadão (também conhecido pelo nome latino, De cive), de 1642, e o Leviatã, de 1651. Apesar de as ideias serem fundamentalmente as mesmas, foi somente com o Leviatã que Hobbes passou a ser considerado um dos maiores pensadores da política de todos os tempos.
Insatisfeito com a falta de acordo entre os autores de seu tempo, Hobbes procurou aplicar o método dos geômetras, muito menos propenso a disputas, em sua filosofia política. Com isso, acreditou ser capaz de criar uma verdadeira ciência da política, tendo inclusive afirmado que o seu verdadeiro estudo só começou com seu livro Do cidadão. Influenciado sobretudo por Euclides e por Galileu (o estudo clássico sobre as fontes do seu pensamento é The political philosophy of Hobbes: its basis and genesis, de Leo Strauss), Hobbes buscou fundamentar a construção do Estado em axiomas e postulados básicos e inquestionáveis, que atuariam como premissas a partir das quais seriam tiradas conclusões inescapáveis. Os axiomas seriam os dados da natureza humana obtidos pela observação do homem.
Sendo todos os homens iguais, eles desejam igualmente ter seus interesses atendidos. É daí que nasce a disputa entre eles
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| Cena do filme Ensaio Sobre a Cegueira. População se torna violenta quando deixa de existir um poder superior às partes, como defende Hobbes |
O Leviatã a que o título do livro se refere é um monstro bíblico presente no Livro de Jó, nos capítulos 40 e 41. Em outra obra, Hobbes também se valeu de outro monstro bíblico, o Behemoth, para batizar seu texto. Normalmente tomado como uma serpente ou dragão, o Leviatã habita as águas e é o ser mais forte que existe. Foi usado como metáfora do poder do Estado por diferentes filósofos - como Nietzsche, por exemplo: "Qual é o grande dragão que o espírito não quer chamar nem Deus nem Senhor? 'Tu deves', chama-se o grande dragão (...). O 'tu deves' barra-lhe o caminho, um animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma de suas escamas brilha em letras douradas: 'Tu deves!'".
Nas palavras de Carl Schmitt, autor do mais conhecido estudo sobre os sentidos do Leviatã na obra de Hobbes, "a 'significação profunda' de seu conceito [de Hobbes] do Leviatã estaria, sem dúvida, no fato de que este deus 'terreno' e 'mortal', que só está presente aqui embaixo, não conta mais do que com a ação política do homem, chamado a salvar-se constantemente do caos, do 'estado de natureza'". O Behemoth, por outro lado, monstro terrestre, representa em Hobbes não a ordem construída pelo homem para acabar com a guerra de todos contra todos no estado de natureza, mas sim a própria guerra.
"Os pactos sem a espada são apenas palavras e não têm a força para defender ninguém" THOMAS HOBBES
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