Especial O Medo na era da Liquidez O traço mais opressor do medo, nos dias atuais, é que ele se tornou difuso e abstrato: a ameaça pode vir de toda parte. Ele leva à exclusão do outro, do "diferente", e sacrifica a liberdade em prol de um pouco mais de segurança
Por Renato Nunes Bittencourt
Bauman argumenta que a liberdade sem segurança não tende a causar menos infelicidade do que a segurança sem liberdade
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| Vivemos diante de inúmeras fontes de medo que ameaçam nossa existência e nossas conquistas. Desastres ambientais, imprevisíveis, são uma delas |
Nunca a humanidade conseguiu se livrar por grande espaço de tempo do poder opressor desse ameaçador inimigo que é o medo, encarnado em diversas figurações sociais e existenciais. E certamente nunca conseguiremos nos libertar plenamente dele, situação que seria de fato uma utopia e não uma análise concreta da dinâmica fluida do mundo real, marcado pelas suas inúmeras contingências e contradições. Todavia, podemos tornar a nossa vida, ainda que espreitada pelo medo, mais saudável e afirmativa se aceitarmos a finitude da condição humana e nos esforçarmos pela instauração de uma prática ética que valorize de fato a interatividade entre as pessoas, interatividade essa que é cada vez mais liquefeita nos nossos ansiosos tempos pós-modernos.
O discurso de Bauman apresenta nitidamente a crueza da "vida líquida", mas a sua consistência se manifesta justamente na possibilidade de analisarmos o rumo existencial que escolhemos seguir e a capacidade de desenvolvermos uma orientação de vida mais sólida e substanciosa, mediante a valorização das diferenças.
"A supressão dos desejos é também um remédio útil contra o medo" SÊNECA
Zygmunt Bauman
(1925) é um sociólogo polonês conhecido por suas análises do consumismo pós-moderno. Foi um dos principais popularizadores do termo "pós-moderno", mas atualmente prefere empregar a expressão "modernidade líquida" para designar a sociedade contemporânea
O medo resulta
de ameaças reais ou imaginárias. Antes do medo, surge a ansiedade - o temor de encontrar o objeto causador do medo. Há graus de medo, que vão da leve ansiedade ao pavor. Quando compromete as relações sociais e causa sofrimento psíquico, torna-se uma doença: a fobia
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade - A busca por segurança no mundo atual. Trad. de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003
_________. Identidade: Entrevistas a Benedetto Vecchi. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005
_________. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997
_________. Medo líquido. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008
_________. Tempos líquidos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007
_________. Vida líquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Trad. de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1997
GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade - Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. Trad. de Magda Lopes: São Paulo: Ed. UNESP, 1993
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. de Décio Pignatari. São Paulo: Cultrix, 2002
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