Especial O Medo na era da Liquidez O traço mais opressor do medo, nos dias atuais, é que ele se tornou difuso e abstrato: a ameaça pode vir de toda parte. Ele leva à exclusão do outro, do "diferente", e sacrifica a liberdade em prol de um pouco mais de segurança
Por Renato Nunes Bittencourt
O medo, de tanto afligir a afetividade do homem pós-moderno, torna-se um sentimento abstrato, não sabemos mais efetivamente quem o motiva e por quê
Show de audiência: horror, gozo e medo na tv
Os meios de comunicação, especialmente aqueles que se aproveitam dos mecanismos sensacionalistas de exposição das mazelas sociais, seriam afetados caso o medo fosse extinto, pois não haveria mais a possibilidade de explorarem a elevação dos níveis de audiência por meio dos estímulos estéticos fortes proporcionados pela exibição de cenas violentas, que exercem sobre a afetividade humana um impacto ambíguo: ao mesmo tempo em que geram a repugnância, geram também o desejo de contemplação do horror. A sociedade da informação, na era pós-moderna, continua sectária da "concupiscência do olhar". Da mesma forma que um desastre desperta a curiosidade do indivíduo que se encontra próximo ao local desse acontecimento fatídico e vai ver todos os detalhes possíveis, assim também se dá quando os desastres são transpostos para as imagens da televisão. O máximo de prazer estético que pode ser fornecido ao telespectador por uma rede de TV é a exibição da morte de um indivíduo, ou, em circunstâncias mais atenuadas, dos conflitos entre as forças policiais e os criminosos, as ações de assaltantes, ou ainda as gravações secretas de repórteres sobre as vendas de drogas por traficantes. Em todas essas circunstâncias há no telespectador a erupção da repugnância, do horror e da lamentação, mas também um gozo secreto de prazer pela oportunidade que lhe é concedida de ver, sentado confortavelmente na poltrona, a destruição humana em múltiplas maneiras. O resultado existencial dessa soma de imagens, todavia, não tarda a aparecer, e é o medo. |
" De todas as paixões, o medo é aquela que mais debilita o bom-senso" JEAN RETZ
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| Os condomínios fechados são uma tentativa de se manter a salvo da insegurança urbana. Formam uma minicidade artificial onde só circulam pessoas conhecidas e "confiáveis" |
OS MUROS PROTEGEM?
O indivíduo dominado pelo medo das ameaças sociais, protegido pela solidez dos muros que delimitam o mundo "bárbaro" e a sua vida privada, acredita talvez que sua existência seja de fato real. Será mesmo? Ora, o seu estreito mundo fechado, criado como uma fuga confortável perante o mal-estar da vida urbana, na verdade é uma ilusão agradável criada pela necessidade burguês-líquida do homem de se considerar efetivamente seguro na sua ilha simbólica rodeada de mazelas, ilusão similar a de uma "Terra do Nunca", um conto de fadas pós-moderno.
A exaltação contínua da vida condominial decorre dessa ameaça social das classes com maior poder aquisitivo em se libertar definitivamente dos constantes problemas urbanos, de modo que todas as necessidades básicas da vida cotidiana encontram suas instituições nesses aglomerados de identidade.
Escolas, academias de ginástica, padarias, hospitais, bancos e até mesmo igrejas devem estar situados nesses locais. Não se trata aqui de se criticar a vida comunitária típica dos condomínios de segurança máxima, mas de se colocar em questão o desejo sôfrego de se obter o isolamento asséptico em relação aos problemas da vida social dos núcleos urbanos, reduzindo assim a amplitude de compreensão do "real" de todos aqueles que habitam tais espaços, que passam a acreditar simbolicamente que o limitado território ocupado pelo condomínio é uma cidade à parte em relação ao mundo exterior, tão próximo fisicamente, tão distante socialmente e existencialmente. "Os limites do mundo são os limites do meu condomínio", esse deveria ser o lema adotado por esse grupo seleto de habitantes do Éden moderno-líquido. Segundo Bauman, "para pessoas inseguras, desorientadas, confusas e assustadas pela instabilidade e transitoriedade do mundo que habitam, a 'comunidade' parece uma alternativa tentadora. É um sonho agradável, uma visão do paraíso: de tranquilidade, segurança física e paz espiritual" (Identidade, p. 68).
Talvez uma situação também absurda, mas possível de vir a acontecer no "futuro líquido", seria a de um indivíduo nascer, amadurecer e morrer no espaço condominial sem conhecer a realidade externa, sendo sepultado no torrão natal que tanto amou ao longo de sua vida líquida (de máximo controle e mínima emoção), localizado nos fundos desse território.
Podemos afirmar que o elemento mais paradoxal desse mecanismo de controle permanente das aspirações individuais, conforme efetivado pelos aparelhos normativos da sociedade de vigilância, reside na ideia de que o bem-estar que o indivíduo tanto deseja obter somente pode ser conquistado pela supressão de sua liberdade pessoal, pois é justamente a excessiva flexibilidade das suas ações que acaba motivando as circunstâncias que prejudicam a ordem da frágil estabilidade social. Bauman destaca que "o mal-estar da pós-modernidade nasce da liberdade, em vez da opressão" (O mal-estar da pós-modernidade, p. 156). Essa liberdade, todavia, se revela como um grande engodo, pois em troca da segurança prometida pela ideologia do conforto material, a vida em comunidade parece nos privar dessa ansiada liberdade, sinal nítido da degeneração do sentimento da esquálida paz e tranquilidade da nossa organização civilizatória.
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| Pôster de Che Guevara, representativo da Pop Art de Andy Warhol. Exemplo de crítica à produção em série e à massificação cultural. Reflexo, na cultura, do medo do diferente |
Ao trazer à tona os contundentes sintomas de empobrecimento e dissolução das relações pessoais, Bauman nos faz a seguinte pergunta retórica: "Você quer segurança? Abra mão de sua liberdade, ou pelo menos de boa parte dela. Você quer poder confiar? Não confie em ninguém de fora da comunidade. Você quer entendimento mútuo? Não fale com estranhos, nem fale línguas estrangeiras. Você quer essa sensação aconchegante do lar? Ponha alarmes em sua porta e câmeras de TV no acesso. Você quer proteção? Não acolha estranhos e abstenha-se de agir de modo esquisito ou de ter pensamentos bizarros. Você quer aconchego? Não chegue perto da janela, e jamais a abra. O nó da questão é que se você seguir esse conselho e mantiver as janelas fechadas, o ambiente logo ficará abafado e, no limite, opressivo" (Comunidade, p.10).
Ser livre pressupõe uma responsabilidade difícil de suportar perante a líquida vida social, cada vez mais diluída na ausência de uma autêntica compreensão e valorização da figura do "outro", que é sempre imputado como o estranho, jamais um potencial indivíduo capaz de interação. As parcerias não se fortalecem e os medos não se dissipam.
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