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Especial
O Medo na era da Liquidez
O traço mais opressor do medo, nos dias atuais, é que ele se tornou difuso e abstrato: a ameaça pode vir de toda parte. Ele leva à exclusão do outro, do "diferente", e sacrifica a liberdade em prol de um pouco mais de segurança

Por Renato Nunes Bittencourt

 

tv globo/renato rocha miranda
Tiroteio e morte retratados na novela Mulheres Apaixonadas. Nas cidades, atos de violência podem surgir em qualquer lugar e hora. O medo ronda a rotina

PROTEÇÃO ILUSÓRIA

O sentimento de medo diante da massa social marginalizada estimulou a criação de sofisticados aparatos de segurança, mas apesar de utilizarmos todas as combinações possíveis de instrumentos de proteção, não nos sentimos a salvo dessas situações incômodas. Tanto pior, o medo, de tanto afligir a afetividade do homem pós-moderno, torna-se um sentimento abstrato, não sabemos mais efetivamente quem o motiva e por quê. Então, por um princípio de economia, transferimos a responsabilidade moral desse medo para o outro, sempre ele, e quem encarna a máscara da alteridade nesse jogo dicotômico é o grupo dos deserdados socialmente. Em decorrência da resolução dessa questão, cabe então que se faça outra: qual o critério valorativo para determinarmos o teor de nossos medos? Não seria ele talvez decorrente da incompreensão de nossas relações interpessoais e de nossos preconceitos cotidianos?

No auge da era da liquidez, o ser humano se despersonaliza e adquire o estatuto de coisa a ser consumida, para em seguida ser descartada por outrem

 

 

"Quantas vezes o medo que temos de um mal nos leva a outro ainda pior"
NICOLAS BOILEAU

tv globo/FABRÍCIO MOTA
Finalistas do programa Big Brother Brasil 9. Usar a TV como forma de alienação é um mecanismo de fuga psíquica para aliviar a tensão constante em que se vive nas cidades

MASSIFICAÇÃO PARA IGUAIS
Afinal, a massificação da cultura visa, acima de tudo, eliminar as supostas características discrepantes entre os indivíduos, de modo que todos venham a ser "iguais", isto é, sigam os mesmos padrões de comportamento, consumam as mesmas coisas e se guiem fielmente pelos ditames da moda em voga. O fato de se ser diferente e destoar do padrão estabelecido é sinal de heresia social. Em nome da manutenção da nossa conservadora estabilidade social, é mais pertinente que toda a coletividade de indivíduos viva massificada sob o imperativo do anonimato, ainda que isso resulte em prejuízo para a inovação da cultura.

Analisando as infraestruturas das grandes metrópoles, podemos ver cada vez mais o desenvolvimento de uma arquitetura do medo, que modificou violentamente as disposições estéticas dos paisagistas urbanos, que se encontraram na urgência de planejar prédios e shoppings hiperseguros, como defesa contra as ameaças dos "outros": nesse contexto, as pessoas que não são consideradas economicamente viáveis e os marginais sociais. Esta é a estética da segurança que impõe uma lógica da vigilância e da manutenção da devida distância aos tipos humanos estigmatizados como "indesejáveis". Em nossa sociedade líquida, "manter-se à distância parece a única forma razoável de proceder", diz Bauman (Medo líquido, p. 93). Uma vez que a realidade exterior se apresenta sempre diante de nossa limitada percepção como ameaçadora e violenta, os muros inexpugnáveis, as grades de proteção que delimitam nosso espaço vital e o mundo de fora e as câmeras de monitoração cumprem o papel de garantir psiquicamente nossa segurança pessoal, tornando-nos, todavia, dependentes desse paranoico sistema de controle. O preço dessa vigilância ostensiva contínua talvez seja a perda da espontaneidade: todos passam a viver como que participando da exibição ao vivo de uma peça de teatro, em que os papéis não foram devidamente encenados; então, para se evitar maiores vergonhas, cala-se o já mínimo discurso e esconde-se sob as malhas do impessoal. Aproveitando as ideias de Marshall Mcluhan, podemos dizer que os incólumes muros de proteção se tornaram extensões hiperbólicas do corpo humano, na sua sôfrega ânsia de se resguardar diante do tenebroso e agitado mundo exterior. Afinal, a necessidade de nos trancafiarmos em espaços hermeticamente fechados e vigiados continuamente motiva, em contraparte, nosso próprio encarceramento existencial.

Bauman argumenta que a liberdade sem segurança não tende a causar menos infelicidade do que a segurança sem liberdade, e que necessitamos de ambas - o sacrifício de qualquer um deles pode nos causar sofrimentos (A sociedade invidualizada, p. 58). Postulamos a impossibilidade de que nada pode nos afetar enquanto estivermos dentro do espaço confortável de isolamento que criamos em relação aos perigos do mundo externo, mas o preço disso é a redução de nossa amplitude de movimentos, de modo que nos arriscamos a ver despontar a infelicidade, a despeito da segurança material que obtivemos. "Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas"; "O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança", diz Freud em O mal-estar na civilização (p.16 e p. 72).

Arquivo ciência e vida
Pessoas chamadas "economicamente inviáveis" são vistas como uma ameaça à segurança. Por isso, criamos meios para manter distância de humanos considerados "indesejáveis"

INDÚSTRIA DO MEDO
Pensemos na hipótese de, no futuro, o sentimento de medo ser completamente eliminado da condição humana. Qual seria a consequência imediata dessa revolução existencial? Certamente um prejuízo imensurável para a nossa já combalida economia, corroída pela grande crise financeira, afetando, assim, as indústrias automobilísticas, que cada vez mais elaboram modelos de veículos protegidos, as indústrias de aparatos técnicos de segurança, que dependem do clima de insegurança para que os seus instrumentos de proteção sejam adquiridos, assim como as indústrias farmacêuticas, que prosperam através do consumo dos remédios que eliminam temporariamente os inúmeros desgostos da existência. Conforme destaca Bauman, "grande parte do capital comercial pode ser - e é - acumulado a partir da insegurança e do medo"
(Tempos líquidos, p. 18).

O medo se torna imprescindível para a manutenção da ordem social, por mais absurda que seja tal necessidade. Desse modo, será que de fato é conveniente que o medo humano se extinga? Segundo Bauman, "no medo, a indústria do consumo encontra a mina de ouro sem fim e autorrenovável que há muito procurava. Para a indústria do consumo, o medo é, plena e verdadeiramente, um "recurso renovável".

Ainda há que se ressaltar que é por meio da elevação do índice de medo na população de uma sociedade que o poder estabelecido se outorga o direito de criar medidas de exceção contra as ameaças que avançam de todas as direções. Não para que se possa preservar o conforto material e existencial de um grupo beneficiado por tais ações coercitivas contra a grande massa humana considerada descartável, mas para se aproveitar da fragilidade e da desmobilização política da população como um todo, pois, quando o povo é dominado pelo temor e pelas incertezas em relação ao seu sombrio futuro, perde toda a sua força transformadora, tornando-se uma massa inerte, não obstante a quantidade numérica de seres humanos que constituem esse grupo intrinsecamente anárquico.

Bauman salienta que desde o começo o Estado moderno foi confrontado com a tarefa assustadora de administrar o medo (Tempos líquidos, p, 65). O fator problemático é que o poder normativo do Estado depende da passividade pública que sucumbe perante o medo de vir a perder a parca qualidade de vida duramente conquistada e legitima suas ações arbitrárias mediante a ausência de uma genuína práxis transformadora no povo. É por esse motivo que as sociedades tirânicas apelam continuamente para a infiltração de elementos irracionais e supersticiosos na ideologia dominante, como forma de conter de antemão a possibilidade de surgir os ímpetos reivindicadores de uma dada população, quando esta se sente prejudicada pelos abusos do poder despótico.

O uso tendencioso do medo social pode auxiliar na legitimação das "guerras preventivas" (que, teoricamente, é uma contradictio in adjecto), situação percebida de forma excepcional pela equipe do governo de George W. Bush, que soube manipular a opinião pública norte-americana para estabelecer a destruição terrorista do território iraquiano. O discurso ideológico do medo, aliás, projeta sempre no outro a presença de características vis, quando na verdade é ele próprio que é constituído por tais "qualidades". Ataca-se o outro pelo medo que a sua figura simbólica causa ao modelo existencial sustentado pela fragilidade psíquica das massas.

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