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Cinema
A lei das mulheres, de Antígona a Almodóvar
Por Walter Cezar Addeo

Walter Cezar Addeo
Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte

Dois homens e uma mulher são assassinados. Os homens são incestuosos e a mulher trai a amizade e confiança da sua melhor amiga, roubando-lhe o marido. Nenhum dos crimes é punido. Uma confraria de mulheres incumbe-se de que tudo se mantenha oculto. Continuam suas vidas e o laço que as une se estreita ainda mais, na cumplicidade dos crimes encobertos. A lei oficial, a lei da cidade e a lei dos homens são burladas pelas mulheres que respondem a outra ordem, outra moral. Respondem a uma lei antiga, à lei das mulheres. Respondem à lei de Antígona.

Imersos no universo feminino do filme Volver, de Pedro Almodóvar, podemos lembrar a matriz oculta que rege a obra do cineasta espanhol em Antígona, tragédia grega de Sófocles encenada, possivelmente, em 440 a.C. Na peça, Antígona se opõe à lei de seu tio Creonte, que é a lei escrita pelos homens. Antígona, subversivamente, se opõe à ordem dos novos deuses patriarcais entronizados, e o faz em nome de uma lei mais arcaica, não promulgada pelos homens, e que corresponde à lei da consanguinidade, da linhagem matrilinear, da família, da irmandade, regida pelas deusas do feminino.

Creonte, que herda o trono de Tebas depois de um conflito e a morte dos dois irmãos de Antígona, Etéocles e Polinice, proíbe que um deles, Polinice, seja sepultado. Contra o édito de Creonte, Antígona realiza o enterro com as suas próprias mãos e garante a seu irmão de sangue que sua alma descanse em paz. Mas ela é condenada a ser enterrada viva numa tumba - uma alegoria da supremacia da nova ordem dessa cidade masculina que enterra definitivamente os valores femininos. A lei da cidade, portanto, é agora falocrática, onde os direitos naturais e civis das mulheres não serão mais reconhecidos. Um novo paradigma cultural é anunciado na tragédia de Sófocles, que irá perdurar até nossos tempos.

As mulheres de Almodóvar, de modo anárquico, avi sam que o masculi no deverá encontrar novas formas de relação com o gênero oposto

Fox Home Entertainment

Volver (Espanha, 2006) - Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Penélope Cruz, Carmem Maura e Lola Dueñas

As mulheres de Almodóvar transgridem as leis masculinas e criam suas próprias, as que acreditam serem necessárias. Possivelmente uma "volta" às sociedades matrilineares

Mas as mulheres, às vezes, subvertem essas leis e se tornam guerrilheiras dentro da cidade dos homens. Volver, de Almodóvar, é uma dessas histórias de mulheres fazendo valer outra ordem de razões, outras leis, e burlando a justiça patriarcal que, na maioria das vezes, sempre é contra elas. As mulheres de Almodóvar, ao atravessar e desrespeitar as leis masculinas, revelam novamente o poder das leis femininas, aquelas não escritas. Proteger os filhos, por exemplo, é obedecer a uma lei mais antiga que se impõe por natureza a todas elas. Punir o estuprador, o incesto e as mulheres que roubam maridos, pertence ao direito natural das mulheres. Nesses momentos, elas são solidárias e tornam-se seus próprios juízes, executando, elas mesmas, a sentença, à revelia das leis da cidade.

Em Almodóvar elas são, portanto, bem mais transgressoras, por exemplo, do que em Fellini - apesar de Almodóvar, confessadamente, se inspirar nele. No final de E la nave va, as mulheres de Fellini subvertem as classes sociais e lançam novos laços de sangue, assumindo amores e casamentos fora do seu círculo social e econômico. Em Almodóvar, contudo, elas vão muito além, atravessando o próprio corpo jurídico instituído para administrar a cidade e o espaço social.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Antígona vai contra as leis da cidade, as leis masculinas de seu tio, Creonte. Peça de Sófocles, Antígona é a matriz das histórias de Almodóvar sobre a lei das mulheres

E fazem sua própria lei! A lei das mulheres. Nesse contexto, é possível traçar um paralelo com Antígona em sua luta contra Creonte, contra a lei dos homens, fazendo valer as leis do matriarcado. Assim, não há punição para elas em Volver. O próprio nome do filme, talvez, remeta a uma volta ao absolutamente arcaico das sociedades matrilineares. Por isso, praticamente inexistem homens nesse filme. Mal surgem, desaparecem. São absolutamente transitórios na vida dessas mulheres.

É um filme, portanto, só de mulheres seguindo leis que elas não discutem, mas intuem como necessárias, como um direito antigo e não prescrito. Punem, portanto, o maior dos crimes: o incesto praticado pelos dois homens. Punem a mulher traidora da sua confraria. Assumem os crimes sem remorsos como algo necessário à sua sobrevivência como mulheres.

Não foi à toa que os gregos criaram um mito para esse perigo do feminino enfurecido. Perseu, símbolo do masculino, corta a cabeça da Górgona, símbolo do poder tectônico feminino. A cabeça aureolada por serpentes possui um olhar que petrifica os homens. Não é possível olhar de frente para ela. É preciso que o herói utilize um escudo/ espelho para enfrentá-la.

Essa cabeça do feminino-terrível precisa ser cortada sempre pela cultura masculina, pois reaparece a todo momento, tentando castrar o império do masculino. Volver de Almodóvar é, portanto, numa chave burlesca e dentro dos chavões melodramáticos que o diretor gosta de recriar e refazer, apenas uma dessas erupções do poder da Górgona, do poder do feminino e de como elas constroem outra ordem de valores, outra confraria, nas bordas do poder masculino, nas bordas da cultura falocêntrica, nas bordas da cidade dos homens.

É preciso ficar atento à evolução das personagens femininas de Almodóvar. Elas apontam, numa chave trágico-cômica e absurda, uma nova acomodação de poderes e de gêneros sexuais múltiplos dentro da cultura. Essas mulheres de Almodóvar trazem, de modo fragmentário e anárquico, os avisos de que o masculino deverá encontrar novas formas de relação com o gênero oposto.

Mas, como Perseu, é bom olhá-las com muito cuidado, através de suas imagens refletidas num espelho protetor. Parece que só mesmo Almodóvar consegue encará-las de frente. E mesmo assim, só o faz pela tela do cinema -que seria uma forma de espelho protetor.

Há um acerto de contas não resolvido entre o feminino e o masculino no filme de Almodóvar. Em algum momento, esses homens, banidos pelas mulheres nos diversos filmes do diretor, voltarão. Por enquanto, volta Antígona e sua lei no universo de Pedro Almodóvar.

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