Filosofia Clínica Alcance de algumas ideias Por Lúcio Packter
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Lúcio Packter
é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br
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Semelhante a um facho de luz e seu alcance, determinadas ideias lançadas em direção a uma questão podem cair logo na calçada, deixando a cerca de madeira, do outro lado da rua, na penumbra. Na prática do nosso cotidiano, é o que ocorreu com Jacob quando deslocou seus questionamentos em direção ao seu casamento e constatou-se perplexo por não conseguir pensar sobre o assunto.
O que Jacob percebeu é uma das características que se apresentam quando o pensamento destinado a um tema não o atinge, não chega até ele. Há frases que nos propiciam exemplos sobre isso como "não sei ir até lá"; "nada me ocorre sobre o assunto"; "não consigo elaborar nada a respeito"; "está além do meu entendimento". Mas tais indícios somente adquirem algum significado conforme o que se passa na historicidade e na vida da pessoa. Do contrário, podem ser apenas frases soltas, regionalismos, expressões coloquiais, elementos de retórica.
Expandir a trajetória do pensamento em direção ao objeto ao qual inicialmente se destinava não é a melhor política existencial em muitos casos.
Há conceitos que não se aplicam ao objeto ao qual pretendem alcançar ou há uma inadequação. Além disso, o limite que anuncia as demarcações entre o pensamento e o objeto pode fazer parte de uma arquitetura do pensamento necessária, não contingente. Nem toda porta fechada deve, necessariamente, ser aberta porque está fechada, pois pode existir um horário, condições de abertura e outros itens a considerar.
No caso de Jacob, não conseguir refletir sobre questões ligadas ao casamento era um elemento crucial para ele manter a interseção com a mulher. Uma coisa estava diretamente relacionada à outra em Jacob. Mas sua mulher também ignorava o fato, tanto que colocava em risco a interseção com o marido a partir de questões sobre o casamento que promovia toda a sorte de efeitos contraproducentes.
Fragmentos
Principalmente a partir do feudalismo, e provavelmente antes dele, havia alguns princípios lineares nos quais valores, éticas, preceitos e arrumações gerais usadas em casa serviam para a atividade pública, para o comércio, para a vida. Um indivíduo poderia manter-se como era nos vários âmbitos de sua existência.
Com os séculos XVII e XVIII, uma tendência em andamento se aprofunda: a fragmentação das vivências e da mente. Nos séculos seguintes, a fragmentação mostrou que determinadas especificidades nos relacionamentos, na família, no trabalho, na religiosidade, não poderiam mais ser conciliadas segundo algum critério que levasse à paz, ao convívio harmonioso.
Alguns aprenderam a viver com estas peculiaridades, seguem altivos para um novo tempo. Muitos não têm como viver o que consideram paradoxos. E muitos andam quebrados ao meio por angústias por terem uma mente feudal que vive em um mundo de 2009.
Quando Jacy veio ao consultório, ela trouxe como queixa: não compreender como podia ter êxito no trabalho, ser uma líder no clube e sofrer tantos ferimentos em suas relações com a família. Para Jacy, era natural comparar estas instâncias, mas em um mundo fragmentado, o trabalho e o clube podem nada ter a ver com a família. Muitas Jacys andam pelo mundo perdidas porque forçosamente tentam emendar aspectos que, pelo modo como vivem, não podem mais conviver sem uma fratura no meio. A fratura é o elo. A ruptura, neste caso, funciona como o que anuncia a outra parte e não como o que convida a uma união.
As prováveis fragmentações não constituem, a priori, contradi ções. Podem ser desdobramentos, complementações, vivências antônimas ou outra variável
Fernando foi um bom namorado de Jacy, mas é um marido complicado; Adilson casou-se com Fátima e tem dois filhos com ela, mas quando perguntado sobre a família, ele pensa nos velhos pais que moram na Flórida; Renata está no terceiro casamento, no segundo câncer e tem uma religião que lhe enche de culpa; Carla será indicada como diretora da escola e seu filho do meio reprovou no primeiro semestre na faculdade; Adna, especialista em tratamento a usuários de cocaína é constantemente tida alcoolizada; Patrick, juiz, rouba nos jogos de canastra; Marlice, conselheira matrimonial para casais heterossexuais, é homossexual; Leonita, professora de literatura, prefere a televisão aos livros.
As prováveis fragmentações não constituem, a priori, contradições. Podem ser desdobramentos, complementações, vivências antônimas ou outra variável.
Se os tubarões fossem homens
"... O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos (que seriam devorados pelos tubarões). Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo, quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que esse futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam evitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta, marxista, e avisar imediatamente os tubarões se um dentre eles mostrasse tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras, eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, eles iriam proclamar, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não podem se entender. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói."
Bertolt Brecht em Histórias do sr. Keuner |
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