Filosofia da Mente Sons e Qualia Por João de Fernandes Teixeira
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João de Fernandes Teixeira
é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. www.filosofiadamente.org |
Nos últimos anos, a reflexão filosófica ganhou um novo campo: a filosofia da música. Para ela convergiram diversos tipos de indagações, sobretudo de caráter estético. Mas a reflexão na filosofia da música parece ter deixado de lado uma questão básica a ser respondida pelos filósofos, que antecede os próprios problemas estéticos: o que são os sons?
Os sons podem nos levar a problemas filosóficos muito interessantes. Pouco se fala neles, seja na Filosofia Analítica ou na Filosofia da Mente, nas quais quase sempre se prioriza problemas que envolvem a visão. Na Filosofia Analítica, há uma preocupação com a natureza das cores e na Filosofia da Mente há muitos experimentos mentais que envolvem experiências visuais. Assim é, por exemplo, o experimento de Mary, a neurocientista que passa a enxergar um tomate vermelho depois de longo tempo confinada a um mundo em branco e preto. A percepção visual é frequentemente invocada pelos filósofos da mente para ilustrar o problema dos qualia.
Mas há muita coisa a se pensar também acerca dos sons. Será que eles existem independentemente de nós? Ou seriam eles apenas o resultado da interação de nossos órgãos sensoriais com algo que ocorre no ambiente, como, por exemplo, uma determinada frequência de onda?
NO SÉCULO XVII, Locke sustentava a ideia de que sons eram qualidades secundárias dos objetos. Numa passagem do Essay Concerning Human Understanding, publicado em 1689, ele afirma que "o que eu disse acerca de cores e odores pode ser dito de gostos e sons e outras qualidades sensíveis, pois, seja o que for que atribuamos a elas, não são nada dos objetos, mas apenas poderes que produzem várias sensações em nós e que dependem de qualidades primárias como, por exemplo, volume, textura...
Por outro lado, Descartes sustentava algo parecido com uma teoria ondulatória do som, afirmando que eles eram "ondas que emanam dos objetos". Já nas Paixões da alma ele nos diz que "não ouvimos os objetos, mas alguns movimentos que vêm deles" (1649, XXIII).
Há duas posições que parecem dividir os filósofos até hoje. Sons podem ser propriedades momentâneas de alguns objetos ou eventos que ocorrem no mundo. Contudo, podemos nos indagar se eles não seriam apenas sensações, ou seja, meros qualia que se produzem quando algo entra em contato com nossos tímpanos. Nesse último caso eles não existiriam independentemente de nós. As duas posições têm se mostrado particularmente difíceis de serem sustentadas.
Aqueles que defendem o realismo sônico, ou seja, que sons existem independentemente de nós poderiam argumentar que se os sons fossem meras sensações não haveria uma coordenação no modo como nós os experienciamos. Por exemplo, fazemos sempre uma associação correta entre a altura do som e a sua localização. Se ouvirmos um som baixo é porque ele está distante e, inversamente, se o volume é alto, é porque ele está perto.
Nossos ouvidos captam informação auditiva correta acerca do que se passa em volta de nós e um agrupamento correto talvez não ocorresse se os sons fossem apenas sensações.
Mas tanto o realismo sônico quanto a teoria dos sons como qualia podem ser contestados pela comprovação da existência de sons que não podemos ouvir, como, por exemplo, os ultrassons acima de 20.000 Hz e os infrassons, abaixo de 20 Hz, que não podem deixar de ser considerados sons, da mesma maneira que o infravermelho e o ultravioleta, que, embora não sendo, não podem deixar de ser consideradas cores.
O paradoxo é que sons inaudíveis deixariam de ser sons, pois não são nem sensações nem eventos sonoros no mundo, embora continuemos a reconhecê- los como algum tipo de som, pois eles podem, em alguns casos, influenciar o comportamento de certos animais como, por exemplo, os cães.
Será possível dizer que ouvimos sons vindos de dentro de nossa cabeça? Ou seja, será que podemos falar que ouvimos nossos pensamentos?
A teoria dos sons como qualia pode ter consequências bizarras. Imagine, por exemplo, o caso dos robôs compositores, de que tanto se gabam os pesquisadores da inteligência artificial. Esses robôs poderiam identificar frequências ondulatórias, mas não sons, pois, supostamente, robôs não têm qualia. Eles viveriam num mundo sem a alegria nem a tristeza que a música pode proporcionar. Ou talvez pudessem se tornar gênios como Beethoven, que, apesar de ter ficado surdo e não poder mais ouvir o que compunha, ainda assim nos deixou obras-primas.
A Filosofia Analítica começou a se preocupar um pouco mais com o problema dos sons a partir do experimento mental de Peter Strawson, no seu livro Individuals, publicado em 1959. Ele questionava se seria possível conceber uma criatura que vivesse num universo puramente sônico, sem que nenhum dos sons que ouvisse se situasse no espaço. Em outras palavras, Strawson se perguntava se seria possível dissociar som de espaço. Sua resposta foi afirmativa, ou seja, para ele os sons não são intrinsecamente espaciais.
Daí em diante, as poucas discussões sobre sons que encontramos na Filosofia Analítica centraram-se sobre a questão da natureza do conteúdo intencional dos sons. Ouvimos os sons fora de nós, apesar de eles ocorrerem no nosso cérebro. Essa é a sua intencionalidade ou direcionalidade.
Temos outros estados mentais que também têm essa direcionalidade. Quando penso no "Pão de Açúcar e na Baía de Guanabara" é o conteúdo desse estado mental que lhe dá direcionalidade.
Mas, no caso dos sons, estaríamos diante de uma situação peculiar: eles seriam por si só espaciais e essa espacialidade daria imediatamente sua direcionalidade, sem que para isso precisemos distinguir qualquer tipo de conteúdo neles.
Para sustentar que a direcionalidade do som é sua espacialidade temos, entretanto, de achar boas razões para refutar os argumentos de Strawson.
Mas essa posição contrária a Strawson choca-se com o senso comum, de que ouvimos a voz dos nossos pensamentos e que esta vem de dentro. Será possível dizer que ouvimos sons vindos de dentro de nossa cabeça? Ou seja, será que podemos falar que ouvimos nossos pensamentos? Mas como será possível ouvir essa voz do pensamento se nossos tímpanos só podem ouvir o que vem de fora?
Uma teoria consistente da natureza dos sons teria de conciliar esses aspectos físicos, cognitivos e filosóficos. Mas parece que esse alvo ainda está muito distante.
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