Filosofia Clínica Enunciação das Buscas Por Lúcio Packter
No noroeste da Grécia, Dodona, havia o oráculo de Zeus, provavelmente o mais remoto. Ali, um sacerdote daria significados aos mandos daquele. O murmulho, semelhante a um ramalhar das folhas de carvalho, indicava as trajetórias. Enquanto Homero descrevia heróis façanhosos, Hesíodo se ocupava com os deuses, de como governam os percursos humanos.
Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica.
Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br.
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Édipo e a Esfinge, de Gustave Moreau. Apesar das modificações que promove no teatro grego, Sófocles mantém a tradição de que os destinos existenciais são determinados pelos deuses |
A trilogia que Ésquilo escreveu em torno de Prometeu, da qual sobrou-nos Prometeu acorrentado, aventa a opção da liberdade, da autonomia do homem diante do capricho dos deuses, à custa de suplícios. O próprio teatro de Ésquilo foi ilustrativo; ele cuidava da coreografia, encenava, atuava e introduziu elementos como a máscara.
Desde sempre, um assunto frequente na tragédia grega foi o destino. Sófocles promove modificações várias no coro, no número de papéis dos atores, no estilo inicialmente acentuado em Ésquilo. Mas permanece conformado com as tradições ao reconhecer que os homens nada podem contra os caminhos existenciais que são predeterminados pelos deuses. Antígona e Édipo Rei são exemplares.
Naturalmente, a questão da administração dos destinos humanos levou a outras como o motivo pelo qual o homem deveria viver. O sentido da vida logo se instituiu como questão.
Compreensões morais receberam implementos e divergências do âmbito da razão (Lógica), da Metafísica, da Educação. Assim, por exemplo, já a partir do princípio do século IV a.C., estudiosos como Eudoxo de Cnido e Aristipo de Cirene apontavam, como resposta, um prazer de natureza, às vezes negativa, como a imperturbabilidade absoluta da escola de Epicuro. Matizes dessa resposta encontrariam defesa em Hobbes, Locke, Hume, bem como desafeição em Platão, Aristóteles e Kant.
A resposta socrática ao tema é antropológica e moral: os homens buscam a felicidade, que, em composição plena, é o bem. Para exercer o bem, é suficiente conhecê-lo. Um racionalismo idealista otimista para o contexto grego de então. A sofística trazia como meta de vida um sucesso calcado em prazer, verdades aparentes, retórica. Aristóteles, assim como Platão e Sócrates, promove a razão (mesmo em seu caráter contemplativo) como mediadora para o fim último, a felicidade - somente atingida por mecanismos sobretudo morais.
As vivências no arrabalde
Partes significativas da existência ocorrem por elementos laterais, percorrem vários itens periféricos, são tangenciais aos aspectos decisivos. Assim, estabelecem seus caracteres nas imediações das ações centrais.
Muitas vezes isso ocorre quando o caminho para ser economista acaba em técnico em contabilidade, o desejo de morar nas enseadas da praia avança até um condomínio próximo ao mar, o trabalho para ser médico termina na enfermagem.
Ocorre que, aos poucos, tais fatores laterais podem assumir as funções e a pertinência do que se constitui o cerne da vivência, invertendo os vetores. É assim, por exemplo, que, ao se casar com a amiga da mulher que Antonio amava, ele encontrou "a mulher maravilhosa" de sua vida.
De diversas maneiras, vivências que acontecem nos arrabaldes são decisivas pelo que se tornam depois, mas também pelo que são 59e pelos desdobramentos que propiciam. Um exemplo marcante é o papel que o coro desempenha na tragédia de Eurípedes, desde a encenação à indumentária.
A questão da administração dos destinos humanos levou a outras como o motivo pelo qual o homem deveria viver. O sentido da vida logo se instituiu como questão
Em vários lugares na malha intelectiva, na intimidade, algumas pessoas descobriram os caminhos indiretos das vivências que ocorrem nos arredores, naqueles caminhos existenciais que são curvos. Ali vivem à margem os processos de vida que para elas às vezes ocupam o centro dos temas.
Pela historicidade da pessoa podemos frequentemente chegar aos procedimentos que levaram a isso, mas a fluência da vida pode dissolver tudo em um campo somente tornada indistinta a questão.
Não é raro que o assunto deixe de fazer diferença e deixe perder a importância, ainda que se mostre em toda a sua pujança em algumas pessoas. Uma senhora a quem atendi há anos, Aldemanda, costumava falar de um tema quando, em verdade, se referia a outro; tratava da colheita de arroz para contar de sua tristeza e mencionava o plantio para exemplificar suas alegrias. Nestes aparentes desencontros é que muita gente acaba se encontrando.
Para quando você for à Grécia
Uma bordadeira, em uma cadeira à porta da casa, pregando aqueles motivos ornamentados em um tecido; as rendeiras trabalhando em alfaias, malhas abertas, paramentos, sem pressa; as pequenas oficinas onde podemos acompanhar o serviço dos oleiros. O artesanato grego é rico e diversificado.
Que tal retornar ao Brasil calçando uma sandália de couro trabalhada à mão? Trazer uma tigela de oliveira, uma pequena peça minoica em ouro, um tapete com lã de carneiro, pequenos potes rústicos, algo de cerâmica, as possibilidades para se adquirir partes do artesanato são grandes. Utensílios como talheres de madeira esculpidos à mão ou uma cafeteira de cobre são fáceis de acomodar na bagagem.
O artesanato doméstico é curioso e abrange desde cordões até objetos de médio porte, caros. Pesquisar, divertir-se olhando, tocando, conversando sobre como são feitas as peças, isso é às vezes mais interessante do que propriamente adquirir. Ver aqueles cerâmicos não vitrificados e guardar as formas, a consistência, na memória pode ser mais interessante do que trazer em uma embalagem grande, cheio de cuidados, tirar do contexto na Grécia, e depois não ter um lugar onde colocar em casa; às vezes o cerâmico acaba na prateleira de ferramentas apagando a linda lembrança que havia quando você o comprou na Grécia. Certas coisas ficam melhor onde originalmente estão. |
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