Cinema & Filosofia Zelig e as sombras do totalitarismo Por Flávio Paranhos
Woody Allen, todos sabem, não é um cineasta político. Se há um tema filosófico que o atrai é o Existencialismo. Tanto para fazer piada a respeito, quanto para encará-lo, a sério (ainda que eventualmente pareça estar brincando). Assim, não é surpresa que faça filosofia política pelas vias do Existencialismo, como de fato o fez em pelo menos dois de seus filmes, Zelig (1983) e Sombras e neblina (1992).
Zelig é uma obra-prima cinematográfica, apontada por muitos como um de seus melhores filmes. É a estória, camuflada de história, de um personagem curioso, chamado Leonard Zelig, que tinha a capacidade de se transformar naquilo que estivesse à sua volta. Um falso documentário. O que não é propriamente uma exceção, pois o formato já havia sido utilizado outras vezes por ele em Um assaltante bem trapalhão, de 1969 e ainda em Poucas e boas, de 1999.
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Flávio Paranhos é médico, doutor (UFMG), Postdoc Fellow (Harvard Medical School) em Oftalmologia.
Mestre (UFG) e doutorando (UFSCar) em Filosofia. Visiting Fellow do Center for Cognitive Studies, Tufts University, EUA. Coordenador da coleção de Filosofia & Cinema da Nankin Editorial.
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A diferença é um truque que depois seria utilizado em outros filmes mais famosos (como Forrest Gump, de 1994), mas que na época foi uma novidade muito apreciada: a inserção do personagem em cenas reais antigas.
Logo na cena de abertura, por exemplo, vemos Leonard Zelig desfilando em carro aberto para uma multidão. Depois, entre oficiais nazistas ouvindo Hitler discursar. Ou entre imigrantes chineses. Há ainda cenas reais entremeando cenas do filme, o que dá a sensação de terem sido feitas na mesma época.
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Em Zelig, o diretor Woody Allen usa o Existencialismo, com conotação ética, para falar da existência inautêntica, conceito presente na ontologia de Heidegger |
Outro truque cinematográfico interessante é a metamorfose do personagem. Se entre negros, um negro1. Entre judeus ortodoxos, um judeu ortodoxo, entre asiáticos, um deles, entre obesos, um obeso, e assim por diante. Mas sua transformação não era apenas estética. Zelig incorporava o sotaque, a língua e até os conhecimentos do grupo influenciador do momento. Por exemplo, entre médicos psiquiatras, Zelig age e conversa como um, de forma quase convincente. Mas por que fazia isso?
Queria ser amado pelos outros. Desejava que tivessem uma opinião positiva dele. Queria, enfim, se encaixar na sociedade. Em depoimento à jovem médica psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow), Zelig conta que tudo começou quando lhe perguntaram, ainda no colégio, se havia lido Moby Dick, de Herman Melville. Envergonhado, ele mentiu que sim. Daí em diante percebeu que, para se encaixar na sociedade, precisaria desenvolver a habilidade de se transformar naquilo que agradasse aos outros, àqueles que estivessem à sua volta no momento. E acabou levando essa característica ao paroxismo de literalmente (fisicamente) se transformar, ficando conhecido e celebrizado2, como Zelig, o camaleão.
Sombras e neblina é a versão cinematográfica de Morte, uma de suas melhores peças. Kleinman, um pacato cidadão de classe média, é acordado aos sobressaltos no meio da noite por um grupo de conhecidos que alega ter formado uma espécie de milícia para caçar um perigoso assassino, à solta pelas ruas da cidade. Ele protesta, resiste, mas não tem jeito, pois se não se juntasse a eles, sofreria retaliações.
Uma vez na rua, Kleinman daria início a uma agonia muito semelhante à de Joseph K., o protagonista de O processo de Kafka, para quem nunca era revelada a natureza da acusação que pesava sobre ele. Também a Kleinman ninguém revelava sua parte no plano. Trombava com um, com outro, chegavam a acusá-lo de não estar fazendo direito seu papel, sem, contudo, dizer que papel era esse.
A histeria coletiva que se instala é terreno fértil para atitudes extremadas. E assim acontece. Os grupos desentendem-se. Formam-se vários grupos dissidentes, chegando até a matar integrantes uns dos outros. Kleinman é forçado a decidir a qual deles pertenceria. Mas decidir 49como? Então, um homem com pretensos poderes místicos fareja-o e o denuncia como o assassino. Todos os grupos se juntam para executá-lo ali mesmo, na rua, sem qualquer direito de defesa. A massa está enlouquecida. Mas ele consegue fugir. Na peça3, Kleinman acaba morto pelo assassino4. No filme, escapa por mágica (literalmente, pois é ajudado pelo mágico do circo local).
À primeira assistida, Sombras e neblina é um filme marcadamente existencialista. O tema é a morte, a atmosfera é sombria (deliberadamente expressionista, para os lados aí do Gabinete do dr. Caligari, de Murnau), os diálogos remetem a problemas com os quais os existencialistas flertaram. Mas logo vemos uma aproximação com a filosofia política.
Zelig percebeu que, para se encaixar na sociedade, precisaria desenvolver a habilidade de se transformar naquilo que agradasse aos outros
A histeria coletiva dirigindo as massas a cometer atitudes pouco nobres, a exigência de cumplicidade, a virulência das reações e o medo paranoico de algo que nem se tem certeza se existe, além da mais do que rápida concordância com a acusação e execução sem direito de defesa são típicos de regimes totalitários.
O apoio incondicional, cego mesmo, das massas, é imprescindível a um regime totalitário, como nos alerta Hannah Arendt: "Seria um erro grave (...) esquecer que os regimes totalitários, enquanto no poder, e os líderes totalitários, enquanto vivos, sempre comandam e baseiam-se no apoio das massas."5
Não deve algum incauto, todavia, interpretar a palavra "cego" como "irresponsável". As massas, como os líderes totalitários, devem responder por seus atos, quaisquer que sejam, para o bem ou para o mal.
Zelig, por sua vez, tem a declarada intenção6 de usar um conceito caro ao Existencialismo, com conotação ética, para fins políticos. Trata-se da noção de autenticidade, retirada da ontologia heideggeriana. Para Heidegger, o Dasein que se dissolve no impessoal (Das man) leva a uma existência "inautêntica".
Nunca é demais lembrar (como já o fiz outras vezes aqui), que Heidegger não tinha em mente essa abordagem. Pelo simples motivo de que sua preocupação era ontológica, e não ética (ou, menos ainda, política). Entretanto, e concordando com seus comentadores que empreenderam uma abordagem ética de sua ontologia (particularmente Frederick Olafson, em Heidegger and the ground of ethics, Cambridge University Press), penso ser inevitável tal aproximação.
Hanna Arendt nos alerta que o apoio incondicional, cego mesmo, das massas, é imprescindível a um regime totalitário
Essa necessidade de se encaixar ao outro e com o grupo, como que fugindo da solidão, também foi lembrada por Hannah Arendt: "O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o fato de que a solidão (...) passou a ser, em nosso século, a experiência diária de massas cada vez maiores. O impiedoso processo no qual o totalitarismo engolfa e organiza as massas parece uma fuga suicida dessa realidade"7. E ainda, em relação à paranoia coletiva das massas, unida pelo medo do desconhecido, tal como mostrada em Sombras e neblina: "O famoso extremismo dos movimentos totalitários, longe de se relacionar com o verdadeiro radicalismo, consiste, na verdade, em "pensar o pior", nesse processo dedutivo que sempre leva os homens às piores conclusões possíveis".8
| Woody Allen, Heidegger e Arendt |
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Shadows and fog (Sombras e neblina) infelizmente não foi lançado no Brasil ainda, de forma que os interessados terão de importar pela Amazon ou similar. É um dos filmes de Woody com mais estrelas (Madonna, John Malkovich, John Kusack, Jodie Foster, Kathy Bates, além do próprio Woody e a parceira da época, Mia Farrow). Zelig está disponível isoladamente ou numa caixa contendo ainda os ótimos Sonhos eróticos numa noite de verão, Interiores e A outra.
Há vários livros de e sobre Woody Allen. No Brasil, a editora L&PM já editou vários de seus livros. A peça Death faz parte da coletânea Without Feathers, Random House (Sem plumas, L&PM), que tem também a hilária peça God.
O melhor livro com entrevista é o de Richard Schickel (Woody Allen, a Life in Film, Ivan R. Dee, Chicago, que é a transcrição de um filme-documentário que Schickel fez com ele), mas sua tradução ainda não está disponível no Brasil. Em compensação, outros dois ótimos foram traduzidos aqui. O de Stig Bjorkman (Woody Allen on Woody Allen, Grove Press, 1993, editado no Brasil pela Nórdica) e o de Eric Lax (Conversations with Woody Allen, Knopf, no Brasil pela Cosac Naify).
O leitor curioso com uma possível abordagem ética da ontologia heideggeriana, encontrará vasta literatura em língua inglesa. Aqui no Brasil o professor Zeljko Loparic é um dos que mais se dedicou ao tema (Sobre a responsabilidade, EDIPUCRS). Origens do totalitarismo, de Hannah Arendt, foi editado no Brasil pela Cia. das Letras. |
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