Filosofia, economia e a crise Com base no individualismo metodológico de um lado e na teoria marxista de outro, a crise econômica atual pode ser entendida não como uma deficiência do sistema financeiro, mas como um colapso das relações humanas
Por Maria Cristina Longo Dias e Tomas Rotta
Maria Cristina Longo Cardoso Dias é graduada em Economia pela Universidade de São Paulo (FEA-USP), mestre e doutoranda em Filosofia pela USP. Tem experiência em Filosofia da Ciência, Ética e Filosofia Política, atuando em utilitarismo, Ética, Bentham, John Stuart Mill, metodologia e história do pensamento econômico
Tomas Nielsen Rotta é aluno do PhD em Economia na University of Massachusetts (at Amherst), mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (FEA-USP) e parecerista do periódico acadêmico Cadernos de Ética e Filosofia Política. Tem experiência em Economia, teoria marxista, teoria monetária e história do pensamento econômico
A atual crise sistêmica do capitalismo engloba tanto aspectos econômicos quanto metodológicos. Do ponto de vista econômico, a crise revela a inadequação do discurso neoliberal ao propiciar a harmonia social por meio de mercados desregulados. Pelo ponto de vista filosófico, entretanto, essa é também uma crise do individualismo metodológico e de suas suposições de que a racionalidade individual engendra automaticamente uma racionalidade social na qual os indivíduos são caracterizados por uma essência natural e a-histórica, independentemente do meio social que produzem.
Como tentativa de conter a atual crise econômica mundial, várias medidas e soluções são propostas por economistas, analistas de conjuntura e outros intelectuais. Entretanto, diversas questões podem ser colocadas diante dessas análises: como entender a crise? Como tomar posição em meio a tantas apreciações, críticas e propostas, às vezes diametralmente opostas? Quais são os pressupostos teórico-filosóficos que estão por trás das medidas sugeridas e das análises feitas sobre a crise? E, também, que pressupostos filosóficos produziram essa crise?
É possível afirmar, em relação às medidas econômicas propostas para contornar a crise, contudo, que elas se ancoram, de forma geral, em duas correntes principais de pensamento: o chamado individualismo metodológico de um lado e a teoria marxista de outro.
O individualismo metodológico, a corrente de pensamento a partir da qual a teoria econômica denominada neoclássica foi construída, assume que existe uma natureza humana, que ela é autointeressada, e, mais do que isso, pressupõe que o comportamento agregado da sociedade pode ser devidamente explicado e analisado a partir de indivíduos atomizados. Exemplos de teóricos desta concepção são os denominados utilitaristas William Stanley Jevons, Carl Menger e Léon Walras. Tais pensadores construíram a teoria neoclássica apoiando-se em considerações sobre a natureza humana já formulada por utilitaristas clássicos como Jeremy Bentham e John Stuart Mill.
Stuart Mill interpreta a sociedade como sendo formada por indivíduos com uma natureza autointeressada. O autointeresse de uma pessoa pode ferir outras
Para Bentham, prazer, dor e indivíduo são considerados entidades reais, ou seja, para a análise política e econômica o que existe é o indivíduo1 capaz de experimentar duas sensações também reais, a saber: prazer e dor2. Desta tese ontológica decorre uma série de consequências metodológicas, dentre elas a de que a sociedade ou comunidade nada mais são do que a soma dos indivíduos que a integram, ou em suas palavras, um corpo fictício. "A comunidade constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais que se consideram como constituindo os seus membros. Qual é, neste caso, o interesse da comunidade? A soma dos interesses dos diversos membros que integram a referida comunidade". (BENTHAM, 1789, p. 10).
"Não é possível ter lucros sem que os outros sofram prejuízos" TEXTOS JUDAICOS
Essas considerações ontológicas implicam que as relações sociais (incluindo as relações políticas e econômicas) serão pensadas a partir do indivíduo e de suas características. As seguintes indagações decorrem destas considerações: para Bentham, quais são as características dos indivíduos? Qual é o modelo de indivíduo que emerge a partir da consideração de que ele age para obter prazer e fugir da dor?
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