Artes Harold Rosenberg diante da Morte da arte Situando-se entre duas posições extremistas, Rosenberg defende obras da action painting, lembrando Nietzsche ao rejeitar regras e pregar a liberdade
Por Ivan Hegenberg
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Ivan Hegenberg é graduado em Artes Plásticas pela ECA-USP, escritor e crítico de arte, autor dos romances Será e Puro enquanto .www.ivanhegenberg.blogspot.com |
O nome de Harold Rosenberg usualmente é associado à action painting, termo cunhado por ele para designar a pintura norte-americana dos anos 1940. No entanto, o que ele escreveu a esse respeito é apenas uma parcela de sua contribuição, e não a mais significativa. É lamentável que nas décadas subsequentes, em meio a um debate intelectual que se polarizou entre o modernismo de Greenberg e seus opositores pós-modernos, não tenha havido grande espaço para um pensador que não se situava em nenhum dos dois extremos. Rosenberg, um crítico de espírito independente, não se deixava levar facilmente por generalizações ou por ideologias, o que fez que ele, apesar de muito lido, tenha sido pouco decisivo como influência para o que se produziu. Devemos levar em conta que o momento era de Guerra Fria e de conflito de gerações, e o combate na intelligentsia reproduzia antagonismos semelhantes.
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Tela de Pollock, (1912-1956), um dos mais representativos pintores da action painting. Rosenberg exaltava suas obras pela ênfase na ação e pela aproximação entre arte e vida |
Mesmo que partamos daquilo que Rosenberg revela sobre a action painting, já notamos que ele não poderia se encaixar na bipolarização que se seguiu. Greenberg marcou a posição mais formalista, admirando o expressionismo abstrato devido ao rompimento com o ilusionismo e à autodefinição da pintura, empregando termos como "pureza" e elogiando o fim do "tema literário" na arte visual. Rosenberg, olhando para as mesmas obras, as exalta menos pelos aspectos formais do que pela ênfase na ação. "A tela começa a afigurar-se como uma arena na qual se age", ele escreve em Os action painters norte-americanos.
"O que se destinava às telas não era um quadro, mas um acontecimento". Em artistas como Pollock, Hofmann e De Kooning ele não encontra a arte reduzida a si mesma em sua máxima pureza, mas, pelo contrário, uma radical aproximação entre arte e vida. Neste aspecto, ele se assemelharia aos críticos que reagiram arduamente contra o formalismo de Greenberg, não tivesse ele analisado com acurácia ainda maior o quanto havia de artificialidade nos desdobramentos menos bem-sucedidos que se celebrariam dali em diante.
Há muitos empregos para o termo pós-moderno, podendo, por exemplo, designar a reviravolta em direção ao conceito que ganhou força nos anos 1960 ou a arte de pastiche que se consolida nos anos 1980. Creio que a arte contemporânea é mais bem descrita pelo pós-modernismo em seu primeiro sentido, onde se assume uma intencional reação à arte moderna e a toda arte caracterizada pelas proposições de Greenberg. Não é à toa que o filósofo Habermas1 entende o pós-modernismo como um antimodernismo, tendo como diretriz a inclinação para a morte da arte.
A arte deve transitar entre a antiarte e a beleza, entre a revolução e a nostalgia, entre a realidade e a falsificação estética
Assim como em Habermas, o que diferencia Harold Rosenberg dos demais opositores de Greenberg é a clareza com que ele percebeu que a arte moderna significava muito mais do que a estética pura. Sem perder o tônus político, expunha a descrença de que a refutação radical dos princípios da arte moderna pudesse ser vantajosa. Nunca a Filosofia e a ideologia foram tão decisivas para os rumos da arte como então. Pensadores marxistas, entre eles Giulio Carlo Argan, acreditavam que a arte deveria flertar com sua morte para resistir à saturação de imagens promovida pela indústria cultural.
Outros, nem tão politizados, como Arthur Danto, viam a morte da arte como a assertiva de que arte sempre fora, antes de qualquer coisa, conceito, e que como tal deveria ser trabalhada. E os artistas mais românticos, como Joseph Beuys, entendiam a morte da arte como sua completa fusão no cotidiano, eliminando qualquer fissura entre arte e vida. Rosenberg participava do debate de maneira mais pontual e mais sutil. Tal como os pensadores citados, procurava algo mais do que a estética, indagava-se quanto à legitimidade da arte em um mundo dominado pela lógica da mercadoria, e tinha na action painting um exemplo de fusão entre arte e vida. No entanto, estava ciente de que a arte como uma espécie de "contraconceito ao kitsch" seria igualmente kitsch, além de ver as manifestações de antiarte com ressalvas.
Distinguia-se dos pós-modernos por não entender a morte da arte com a mesma peremptoriedade, apesar de se manter consciente de que era inevitável enfrentá-la como questão.
A posição de Rosenberg fica mais clara na sua definição da obra de arte como um "objeto ansioso". "'Sou uma obra-prima', assim deve perguntar-se o objeto, 'ou uma montanha de sucata?'", posto que, muitas vezes, poderia ser ambas ao mesmo tempo. Para ele, a arte deve transitar entre a antiarte e a beleza, entre a revolução e a nostalgia, entre a realidade e a falsificação estética, no entanto, tal jogo só interessa enquanto se mantiver no limiar.
"Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele por qualquer razão pensa que seria uma boa ideia dá-las a elas" ANDY WARHOL
As melhores obras da action painting não se contentavam em ser apenas pintura, caso em que seriam meramente decorativas. Tampouco poderiam se tornar pura ação, pois assim a arte desapareceria. Conforme as obras dos artistas foram se inclinando mais explicitamente para o campo da vida, a ponto de eliminarem praticamente qualquer característica que as remetesse ao que se possa chamar de arte, Rosenberg passou a contestar a indulgência excessiva de seus colegas. Seu tom não era conservador, atendo-se caso a caso e buscando ver até que ponto as propostas poderiam suscitar interesse. "O aplauso indiscriminado e a rigidez dos valores são atitudes igualmente hipócritas", ele dirá em O objeto ansioso.
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