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O que é o Desejo?
É mais fácil explicar sua origem e como se manifesta do que conceituar o que é. Há várias respostas, talvez mais de uma correta. A maioria está ligada ao que nos movimenta e dá vida

POR LÚCIO PACKTER

Durante seis meses acompanhei Adhelia, uma mulher de quase 40 anos, quase dois filhos, quase dois casamentos. Ela se definia assim. Ainda que no início ela estivesse confusa quanto a uma gama de fenômenos que lhe habitavam, sua confusão se aprofundou quando chegou à conclusão de que não desejava estar bem em algo, não desejava possuir uma nova casa (como afinal acabou desejando e tendo), não desejava que o filho menor resolvesse o problema com os dentes, não desejava as coisas para de algum modo ter essas coisas. Adhelia encontrou algo em si mesma que lhe chamou a atenção: ela desejava pelo próprio gosto de desejar.

"Eu gosto de sentir dentro de mim a sensação de querer algo. É estimulante viver em mim quando surge o movimento de desejar. Não interessa o que estou desejando. Interessa somente o desejo. O desejar." - disse-me ela mais de uma vez, em mais de um modo.

Semelhante a alguém que aprecia ler, mais do que o conteúdo da leitura; semelhante a quem se compraz em ser, mais do que o conteúdo do que o que é, Adhelia era basicamente um ser de desejo.

Ao se interessar por Filosofia, certo dia começou um questionamento que a levou a outros e que ainda hoje tem seus desdobramentos. Ela começou a questionar o que era, de fato, o desejo. No caso dela, surgia então mais um desejo.

Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica.
Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é
coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da
Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade de
Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br.

SHUTTERSTOCK
Eros - conhecido como cupido na tradição romana - é o deus grego do desejo, do amor. Pela beleza irresistível, rouba o bomsenso. Mas também tem um papel unificador

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Édipo, na mitologia, matou o pai e casou-se com a mãe. Os mitos estão povoados de desejos. Freud, por exemplo, interpretou que em Édipo existia o desejo de superar o pai

O que é o desejo? Quando os romanos, que tinham elementos helenísticos em sua engenharia, buscaram fazer as cidades melhor ocupáveis como morada e então construíram uma rede complexa de encanamentos, isso foi um movimento a partir de uma necessidade? O desejo seria uma decorrência de uma necessidade? Desejamos a água porque temos sede?

Ou talvez devemos considerar o desejo como algo nocivo? O desejo pode ser um sintoma de que algo não vai bem, assim como um estado febril indica às vezes uma condição infecciosa no organismo. Neste caso, o ascetismo do hinduísmo, por exemplo, seria correto em sua interpretação do desejo como algo que deve ser observado e cuidado? Penso em Diógenes e sua repulsa por desejar coisas materiais.

Desejar não desejar pode ser uma armadilha conceitual, na qual a pessoa passará a vida tentando não desejar aquilo que deseja. Ou seja, desejando, de qualquer modo.

Para Platão, a alma tem natureza tripartida. em seu nível inferior, está a alma sensível, que é habitada por desejos e por paixões

O anseio de Descartes de entender e distinguir o verdadeiro do falso, o que era? Poderia ser somente uma resposta aos conceitos da escolástica medieval? Causa e efeito, algo assim?

O estudo da natureza do desejo não é recente e remonta a textos muito antigos. Podemos recuar até o Antigo Testamento e ali encontraremos 49ao menos dois mandamentos ligados diretamente à proibição dos desejos. Mas muito antes do escrito sagrado, encontramos considerações importantes sobre o assunto.

O OLHAR DO OUTRO SE TORNA UM DESEJO

Ser visto, observado, já foi considerado indesejável na Modernidade, por representar controle externo sobre si, vigilância e possibilidade de punição das pessoas com comportamento desviante, como explicou Foucault ao desenvolver sua teoria a respeito dos mecanismos de vigilância e controle sob os quais se organizavam as sociedades modernas, onde o olhar era centralizado (modelo do Panóptico), dirigido de poucos sobre muitos, e tinha um caráter coercitivo.

Mas este quadro mudou. O sucesso de reality shows, como o Big Brother, são indícios de um novo panorama cultural: o desejo pelo olhar do outro. Olhar que, na sociedade contemporânea, mais do que aceito, tornou-se desejável. Tudo começou com a proliferação dos meios de comunicação de massa, em especial da TV, que pôs o indivíduo, no caso as celebridades, no centro dos olhares e lhe deu um caráter sedutor. Aos poucos, os indivíduos comuns migraram para o reino televisivo, com os programas que expõem a vida privada de pessoas comuns. E o desenvolvimento de novas tecnologias da comunicação, como a internet, facilitou a exposição de si por meio de ferramentas como blogs e webcams - um novo campo de visibilidade para o indivíduo comum. Ao contrário do que ocorria na Modernidade, o olhar do outro não mais tem caráter disciplinar e coercitivo. Não há um olhar vigilante central, de poucos sobre muitos, com o intuito de vigiar e punir, como ocorria. Agora, todos estão visíveis a todos. É o próprio indivíduo quem agora expõe sua intimidade, dá visibilidade a ela e deseja o olhar alheio. A pesquisadora de comunicação, Fernanda Bruno, no artigo Máquinas de ver, modos de ser: visibilidade e subjetividade nas novas tecnologias de informação e de comunicação (2004), arrisca a hipótese de que "o olhar do outro deixa de ser dado pelo coletivo, pela sociedade, e passa a ser demandado, conquistado pelo próprio indivíduo" (p.14).

Segundo Fernanda Bruno, houve uma privatização das trajetórias individuais, com o declínio das grandes instituições sociais, que fez que o que era público (como saúde, formação, trabalho) se tornasse cada vez mais responsabilidade particular. Para ela, até o que parecia público quase que "por natureza" - o olhar do outro - tornou-se uma responsabilidade do próprio indivíduo (2004, p.16). Daí o desejo por visibilidade.

Complemento da redação

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