SOCIEDADE A Filosofia na América Latina: uma leitura do seu desenvolvimento Diversos filósofos latino-americanos tentaram, ao longo do século XX, forjar uma identidade local para a produção de idéias e refletir sobre os problemas da região
POR ANTÔNIO VIDAL NUNES
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| Mão, escultura de Niemeyer, símbolo do Memorial da América Latina, que fica em São Paulo. Com o conceito e o projeto cultural desenvolvidos por Darcy Ribeiro, o memorial tem o intuito de promover e divulgar a cultura latino-americana |
Embora façamos fronteira com várias nações latino-americanas, nosso desconhecimento é quase absoluto das atividades filosóficas que se desenvolvem nesses países. Continuamos a fazer Filosofia olhando para a Europa e de costas para o nosso continente. Quando observamos as publicações filosóficas que temos, constatamos a quase inexistência de livros destinados a revelar o labor reflexivo dos filósofos da região.
O mesmo ocorre quando também estendemos nossos olhares sobre os vários currículos dos inúmeros cursos de Filosofia no Brasil: raros são os que constam em seus currículos disciplinas filosóficas que versem sobre a reflexão filosófica na América Latina. Em alguns, nem mesmo matérias destinadas à Filosofia no Brasil são encontradas.
Quando investigamos nossos centros e instituições voltadas para a pesquisa filosófica podemos encontrar grupos e linhas de pesquisas voltadas para a filosofia francesa, alemã, norte-americana, etc., mas nenhuma etiqueta que revele preocupações com o que se produz no Brasil e adjacências. Não que no Brasil não existam pensadores interessados na Filosofia em nosso continente. Pelo contrário, poderíamos citar entre eles Sírio Lopes Velasco, Jesus E. Miranda Regina, Antônio Sidekum, Antônio Rufino, Luigi Bordin, Ricardo Timm de Souza, José Sotero Caio, Roque Zimmermann, José Luiz Ames, Gabriel Lomba Santiago, Giuseppe Tosi, entre outros.
A questão que se impõe é a seguinte: o que justificaria tamanho esquecimento? Embora reconheçamos o peso e a importância da tradição européia nesse campo do saber, não seria justo dizer que a Filosofia é sempre uma atividade que tem como ponto de partida a própria vida? Estaríamos condenados a fazer Filosofia da Filosofia? Certamente não há como fazer Filosofia sem recorrer à tradição, mas isso não justifica o esquecimento daquilo que é nosso, da realidade que nos envolve.
A vitalidade da Filosofia não se apresenta quando ela é capaz de ser intérprete do seu tempo, nos vários níveis em que a existência se manifesta? Certamente as respostas podem ser as mais diferentes. Porém, não pretendemos nesta reflexão discutir esta pluralidade de respostas. Nosso objetivo, por outro lado, é apresentar de forma rápida uma maneira de perceber o desenvolvimento da Filosofia latino-americana, considerando a contribuição do importante filósofo peruano Francisco Miró Quesada.
Antônio Vidal Nunes é professor de Filosofia no Brasil e América Latina
O referido pensador, um dos fundadores da Sociedade Peruana de Filosofia, é reconhecido pelo seu trabalho em atividades voltadas para a lógica e epistemologia. A partir de 1943, trava contato com o filósofo mexicano Leopoldo Zea (1912-2004), tornando-se seu amigo. O encontro foi sugerido por Francisco Romero (1891-1962), amigo em comum dos dois e um dos mais importantes e respeitados filósofos argentinos, considerado um dos patriarcas da Filosofia da América Latina.
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Para Francisco Miró Quesada Cantuarias (1918), filósofo peruano, sempre existiu Filosofia na América Latina, ainda que como atividade isolada de alguns indivíduos ou ensino acadêmico estereotipado |
ENCONTRO DE HERMANOS
Na convivência com Zea, o filósofo peruano despertará o seu interesse pela filosofia latino-americana. Um dos livros mais importantes de Quesada é Despertar y proyeto del filosofar latinoamericano, publicado em 1974, no México.
Para Quesada, a filosofia ocidental é possuidora de uma longa história que se inicia na Grécia antiga. Nela, a constelação simbólica filosófica foi sendo construída de forma contínua, isto é, cada ponto de chegada já se tornava um de partida, que se constituía, por sua vez, em um grande acontecimento. Assim, podemos construir uma grande árvore genealógica que se desenvolveu de forma orgânica, estabelecendo as relações, pertenças e filiações.
Com o processo colonizador, o novo mundo conhece uma ruptura com os processos culturais europeus, bem como a atividade filosófica realizada no velho mundo. Assim, nosso filosofar começa do nada, ou, melhor dizendo, do quase nada, em uma situação de carência e indigência. "Nasce diante de todos, desnudado e fraco, como um órfão desvalido" (p. 25). Porém, ela não pode crescer sem uma tradição. Segundo Quesada, "a Filosofia é compreensão espiritual e a compreensão espiritual só pode fazer-se ainda que transcendendo a história desde uma perspectiva histórica. A Filosofia é, em certo sentido, a sua história" (p.26).
Embora não tenhamos uma tradição própria, esta não nasce sem referência. A Europa é o seu horizonte. Assim, o pensador peruano estabelece três momentos básicos no desenvolvimento da atividade filosófica reflexiva em nosso continente. Primeiramente, encontramos os patriarcas, os nossos pioneiros no ensino da Filosofia. Posteriormente, temos o da segunda geração, a dos forjadores, preocupada em fazer Filosofia autêntica. E, em terceiro lugar, o da nova geração de filósofos, com os quais o filosofar atinge certa maturidade em nosso continente. Veremos, a partir de agora, como ele caracteriza cada uma delas.
BRASIL |
| Raimundo de Farias Brito (1862-1917), um cearense, migrante da seca, que se tornou escritor e filósofo, é considerado um dos maiores nomes do pensamento filosófico do Brasil. Sua obra é composta por duas trilogias: Finalidade do mundo [A Filosofia como atividade permanente do espírito (1895), A Filosofia moderna (1899) e Evolução e relatividade (1905)] e Ensaios sobre a Filosofia do espírito [A verdade como regra das ações (1905), A base física do espírito (1912) e O mundo interior (1914)]. Em seus livros, identifica os planos do conhecimento e do ser, de modo a voltar-se de forma dogmática à metafísica tradicional, de caráter espiritualista. O trecho seguinte dá uma idéia de seu pensamento filosófico: "Há, pois, a luz, há a natureza e há a consciência. A natureza é Deus representado, a luz é Deus em sua essência e a consciência é Deus percebido." |
Não há como fazer Filosofia sem recorrer à tradição, mas isso não justifica o esquecimento daquilo que é nosso, da realidade que nos envolve |
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Escultura de Fernando Botero, artista colombiano. Ele já fez releituras de obras clássicas, acrescentando a elas seu estilo. O mesmo desejam fazer os filósofos latino-americanos, mas no plano das idéias |
Os patriarcas foram os primeiros professores de Filosofia. Procuravam, a partir da segunda metade do século XVIII, de maneira precária, transmitir as atualidades filosóficas européias. Não tinham conhecimentos profundos dos solos em que estas idéias haviam sido elaboradas, com seus fundamentos históricos e muito menos eram capazes de perceber a articulação delas na trama mais ampla em que os conceitos filosóficos se desenvolveram. Além disso, nem sempre conheciam os idiomas originais dos textos que liam, se apoiavam em traduções precárias, não conheciam os sistemas filosóficos que serviam de apoio aos pensadores que estudavam. Dessa maneira, faltava a eles os instrumentos intelectuais e técnicos que lhes possibilitassem uma exploração adequada do legado filosófico.
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"Filosofar é comportar-se perante o universo como se nada fosse evidente" VLADIMIR JANKELEVICH |
Desde este ponto de vista, ensinavam, mas não compreendiam bem o que transmitiam: não por deficiências de suas capacidades intelectivas, mas pelos limites culturais que não lhes possibilitavam ir além, e não tinham como transcender a uma compreensão formal daquilo que era lido e transmitido. Entre os patriarcas, segundo Quesada, pode-se encontrar, entre outros: Antonio Caso e José Vasconcelos (México), Vaz Ferreira (Uruguaio), Korn (Argentina) Molina (Chile), Deustua (Peru), Farias Brito (Brasil).
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