O mito da Caverna AUGUSTA CRISTINA DE SOUZA NOVAES
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AUGUSTA CRISTINA DE SOUZA NOVAES
é ex-aluna do colégio Sagrado Coração de Jesus de Belo Horizonte, é psicanalista, bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Letras com ênfase em literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. (novaesaugusta@ig.com.br) |
Na edição anterior foi feita uma livre interpretação do Mito da Caverna. Já nesta edição haverá uma interpretação acadêmica, pois não podemos desconsiderar que a alegoria em Platão é instrumento para a reflexão filosófica. Partiremos novamente da narrativa do Mito, agora completa, e seguiremos com as possíveis interpretações feitas didaticamente por Giovanni Reale e Dario Antiseri no primeiro volume da História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média.
Vamos nos ater, então, à interpretação do Mito da Caverna, que podemos ler no livro VII de A República, de Platão.
Imagine leitor, homens que vivam aprisionados numa caverna desde a infância - sem nunca terem tido contato com o mundo exterior - e que só tenham visto o que se projeta do mundo exterior nas paredes da caverna. Imagine que, imediatamente à frente da caverna, exista um muro e que por trás desse muro se movam homens carregando estátuas representando diversas coisas.
IMAGINE, AINDA, que por trás desses homens, esteja acesa uma grande fogueira e que, no alto, brilhe o Sol. Tais homens conversam e suas vozes ecoam dentro da caverna. Assim, os prisioneiros da caverna nada poderiam ver e ouvir do mundo exterior senão sombras e ecos. Tais homens acreditariam, portanto, por nunca terem tido contato com nada diferente do que podem perceber dentro da caverna, que as sombras e os ecos eram a verdadeira realidade existente. Suponha, agora, que um dos habitantes da caverna consiga dela se libertar. Vagarosamente descobre que a realidade "conhecida" da caverna era ilusão e que àquilo a que se habituara a chamar de realidade não passava de sombra e eco do que agora, liberto, podia ver e ouvir. Compreenderia que estas, e somente estas, eram realidades verdadeiras. E que o Sol é a causa de se ver todas as coisas visíveis.
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Diversas interpretações são possíveis para o Mito da Caverna.
A concepção política de Platão, percebida quando o liberto volta à caverna, tem a finalidade de esclarecimento e libertação dos membros que lá estão |
SE DEPOIS de algum tempo tal homem, compadecido dos companheiros de prisão, voltasse à caverna para informar-lhes da realidade que vira no mundo exterior àquele confinamento sombrio, os seus companheiros de outrora o ouviriam, mas dele iriam descrer. Por fim, ele seria considerado prejudicial à ordem e seria condenado à morte.
Conforme Antiseri e Reale, quatro são os possíveis sentidos do mito:
Num primeiro possível sentido, Platão refere-se, por meio da narrativa, aos diversos graus em que a realidade é dividida, conforme sua concepção. As sombras das estátuas na caverna simbolizam as aparências sensíveis, o muro representa a linha divisória entre a realidade sensível e a supra-sensível. As coisas verdadeiras situadas do outro lado do muro são representações simbólicas do ser verdadeiro e o Sol simboliza a idéia do bem.
Em uma segunda interpretação, o mito se refere aos graus de conhecimento nas formas como ele se realiza (conhecimento das coisas sensíveis e o conhecimento das coisas inteligíveis) e nos dois graus em que essas espécies se dividem: a visão das sombras simboliza a imaginação (eikásia) e a visão das estátuas representa a crença (pístis). A passagem da visão das estátuas para a visão dos objetos verdadeiros e para a visão do Sol, antes de forma mediata e posteriormente imediata, simboliza a dialética em seus vários graus e a intelecção pura.
Num terceiro aspecto, o Mito da Caverna simboliza, ainda, o caráter ascético, místico e teológico do platonismo: a vida na dimensão dos sentidos e do sensível é a vida na caverna. Assim como a vida na plenitude da luz (fora da caverna) é a vida do espírito. A passagem do mundo do sensível para a visão do mundo supra-sensível é vida na dimensão do espírito (visão do bem/ contemplação do divino).
" (...) será governado da melhor maneira e de modo mais equânime aquele Estado em que aquele que deve governar não tenha a ânsia de fazê-lo, enquanto o contrário ocorre se os governantes têm ambição pelo poder " |
Platão |
" A idéia do bem (...) quando compreendida, se impõe à razão como a causa universal de tudo o que é bom e belo " |
Platão |
FINALMENTE, segundo Antiseri e Reale, lemos no Mito da Caverna a concepção política de Platão quando é mencionado o retorno do liberto à caverna, cuja finalidade é o esclarecimento e a conseqüente libertação dos habitantes da caverna. Tal retorno representa a atitude do filósofo-político, que se abstendo de somente contemplar as idéias verdadeiras, desce à caverna com o intuito de libertar os que nela ainda vivem como escravos.
É sabido que, para Platão, o verdadeiro político não ama o poder, mas dele se utiliza como instrumento para a produção de serviços destinados à realização do bem. Todavia, tal descida implicará em sacrifícios, como o de ter de habituar-se de novo a "enxergar" no escuro, readaptar-se aos costumes dos antigos companheiros e o maior de todos, o de colocar a própria vida em risco exposto à incompreensão e à ira dos demais homens, como ocorreu com Sócrates. Contudo, aquele que "viu" o bem aspirará correr esse "risco", pois disso resulta o sentido de sua vida.
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