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Filosofia  
       
 
 
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FILOSOFIA DA MENTE
Será que a vaca amarela foi para o brejo?
POR JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA

João de Fernandes Teixeira
é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. www.filosofiadamente.org

Em dois livros sobre Filosofia da Mente que publiquei recentemente (Como ler a Filosofia da Mente e A Mente segundo Dennett) abordo uma temática muito cara aos filósofos que estudam esta disciplina: a privacidade dos estados mentais.

No primeiro livro, este tema aparece já no capítulo inicial, quando, ao examinar o problema mente-cérebro, discorro sobre o problema da vaca amarela. Lá falo sobre o filósofo que, sentado em sua poltrona, se põe a pensar sobre uma vaca amarela. Afirmo que se alguém pudesse abrir o cérebro desse filósofo e examiná-lo, nã veria nada parecido com uma vaca amarela. Com isso ilustro alguns aspectos do problema mente-cérebro. Ou seja, que o pensamento escapa à percepção e resiste a uma tradução em termos de sinais elétricos dos neurônios. E também que o que percebo ou sinto como sendo meus pensamentos pode não ser localizável no meu cérebro.

O pensamento escapa à percepção. Ao pensar em algo, como uma vaca amarela, por exemplo, não é possível localizar este pensamento no cérebro. Esta é uma das formas de ilustrar o problema mente-cérebro

MAS O MAIS IMPORTANTE talvez seja o fato de que vacas amarelas existam apenas para mim. Se ninguém mais pode observá-las, posso então dizer que estes são estados subjetivos. Estados subjetivos são encontrados na nossa mente, mas não na natureza. Eles são privados, ou melhor, ninguém mais além de mim pode apreendê-los.

No segundo livro falo do artigo de Dennett, Brain writing and mind reading publicado no livro Brainstorms em 1981. Dennett critica as pretensões daqueles que acreditam ser possível ler mentes a partir dos recursos que a Neurociência pode nos proporcionar. Zombando dos que tentam decifrar o código cerebral, ele nos fala de uma máquina de ler pensamentos que seria no futuro, o "cerebroscópio". Ela seria uma máquina fantasmagórica, pois além de ler os pensamentos dos outros também permitiria que novos pensamentos fossem inseridos na cabeça das pessoas. Isso seria a consumação do projeto totalitário das sociedades contemporâneas nas quais, se já perdemos o direito de falar, agora perderíamos o último que nos resta: o de pensar. Felizmente até hoje essa máquina não foi construída.

Mas os neurocientistas não concordam com os filósofos. Apoiados no entusiasmo recente com as técnicas de neuroimagem, muitos deles supõem que, um dia, seremos capazes de localizar precisamente o neurônio que dispara na cabeça do filósofo quando ele pensa na vaca amarela. Eles dirão que esse disparo elétrico do neurônio é a mesma coisa que a vaca amarela que o filósofo imagina naquele momento. Com isso, eles pretendem ter resolvido o problema mente-cérebro, pois neste caso, os estados subjetivos teriam se tornado estados cerebrais. Não mais seria necessário supor a existência de uma mente; um cérebro bastaria. O problema mente-cérebro se dissolveria.

CONTUDO, ESTAS suposições dos neurocientistas parecem enfrentar alguns problemas que têm sido apontados pelos filósofos da mente. Ao examinarmos as áreas ativadas de um cérebro, podemos ter alguns palpites sobre o tipo de pensamento que ocorre à pessoa, mas só poderemos saber com certeza o que ela está pensando se ela nos contar. Para fazer a neuroimagem de alguma atividade mental minha é preciso que eu conte sobre o que estarei pensando, ou que alguém, em algum momento, me diga sobre o que pensar e isso terá sempre a forma de um relato subjetivo que precede o imageamento. Assim, nunca podemos nos livrar totalmente da mente, mesmo que seja para reduzi-la ao cérebro.

Minha inquietação se acentuou quando me deparei com declarações recentes de neurocientistas que teriam, por meio da neuroimagem, descoberto métodos científicos para a leitura de pensamentos (mindrea-ding). Essas declarações passaram a figurar na seção de Ciências de jornais e revistas da grande imprensa, mas na verdade se originam da literatura especializada. Apenas para ilustrar, basta consultar, por exemplo, o interessante artigo de Haynes, J.D., e Rees G. Decoding mental states from brain activity in humans publicado em 2006 na respeitável revista Nature Reviews Neuroscience.

APOIADOS NAS TÉCNICAS DE NEUROIMAGEM, OS CIENTISTAS ACREDITAM QUE SEREMOS CAPAZES DE LOCALIZAR O NEURÔNIO QUE DISPARA QUANDO SE PENSA NA VACA AMARELA

Mas será a leitura de mentes uma possibilidade real? A dificuldade parece estar em saber quando podemos considerá-la bem-sucedida. Haynes e Rees falam de identificar os eventos cerebrais que precedem o comportamento. Neste caso, a neuroimagem lê o pensamento identificando as áreas cerebrais estimuladas que precedem a realização de um determinado comportamento. Ou seja, seria possível prever o comportamento a partir da identificação dessas áreas, e com isso estaríamos "lendo" as intenções da pessoa em seu cérebro.

Mas Haynes e Rees parecem ter ignorado um experimento importante realizado pelo neurobiólogo Benjamin Libet na década de 1980. Libet mostrou que o início do relato da intenção de realizar uma determinada ação só ocorre alguns segundos após os eventos cerebrais responsáveis por essa ação terem ocorrido. Ou seja, há eventos cerebrais que antecedem a intenção de realizar uma ação, mas tudo se passa como se a intenção só aparecesse depois que o ato tivesse sido iniciado.

ORA, HÁ UM ASPECTO interessante nesse experimento de Libet: ele sugere que a intenção relatada pode não ser a verdadeira causa do comportamento, uma vez que ela já está pré-determinada. Ou seja, as verdadeiras causas dos nossos comportamentos intencionais podem não coincidir com o relato subjetivo que delas fazemos pelo fato de este ser sempre a posteriori. É possível que o que estamos tomando como base para a leitura cerebral de uma intenção de executar um determinado comportamento não passe de uma reconstrução lingüística do que supomos ser a causa real dessa ação. Esta permaneceria opaca, pois na verdade só a estaríamos associando a um relato verbal que pode não ser a causa real do comportamento. Mas seria possível identificar a causa real somente por meio de técnicas de neuroimagem? Ou terão os neurocientistas de esperar pela construção do cerebroscópio?

Há ainda outros problemas que sugerem que os neurocientistas foram depressa demais. Se a vaca amarela sobre a qual o filósofo pensa não designa nada no mundo, será que podemos considerar o evento cerebral a ela correspondente como sendo seu referente lingüístico? Ou por outra: serão os disparos neuronais os referentes de todos os termos da nossa linguagem, mesmo os não-referenciais?

 

 

 

 

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