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Filosofia  
       
 
 

 

Entrevista Daniel Dennett
Desconstruindo o "eu"
Muito discutido no meio acadêmico por suas teorias sobre a Filosofia da Mente, Daniel Dennett fala nesta entrevista sobre consciência, a não existência de um "eu" e a importância dos experimentos científicos nesta área

Por Flávio Paranhos

 

Filosofia – Eu gostaria de co meçar com algumas perguntas pessoais, se não se importa. Por que o interesse por Filosofia? Alguma influência de parentes? De professores? O senhor foi aluno de Gilbert Ryle (autor de The concept of mind), certo? Ele foi importante em sua escolha da Filosofia da Mente?
Daniel Dennett – Meus dois principais professores, Willard Van Orman Quine e Gilbert Ryle, tiveram grande influência sobre mim. Antes deles, um professor em meu primeiro ano de college, Louis Mink, também me influenciou bastante. Ele era um historiador de Filosofia, mas abriu meus olhos para todo o campo da Filosofia.

Filosofia – A teoria da evolu- ção exerce um papel central em sua teoria da consciência. Isso faz do senhor um funcionalista naturalista (em oposição a um funcionalista minimalista)?
Dennett – Já que sou um natura- lista e um funcionalista, imagino que eu seja um funcionalista naturalista, mas não estou certo a respeito da distinção que você está fazendo. Certamente eu defendo uma visão de funcionalismo que vai além de meras definições causais de propriedades.

Filosofia – A teoria da evolu- ção exerce importante papel em sua obra, não só em sua teoria da consciência, mas também em sua teoria evolucionista das religiões. Por quê? Ou, de outra forma, há outra abordagem possível ao desenvolvimento de uma teoria da consciência?Será a teoria da evolução abso- lutamente indispensável?

SE VOCÊ SUBSTITUIR PARTES DE SEU CÉREBRO E DEIXAR CADA PARTE PROTÉTICA APRENDER SUA FUNÇÃO COM AS PARTES ORIGINAIS RESTANTES, ENTÃO VOCÊ PODERIA TERMINAR COM UM CÉREBRO TODO PROTÉTICO

Dennett – A teoria da evolução pela seleção natural exerce um papel central em qualquer teoria de qualquer proprieda- de dos seres vivos tais como consciência, linguagem e até mesmo o significado, em seu sentido mais amplo. Isso porque cada característica “cara” dos seres vivos tem de se pagar por si mesma, na moeda da replica- ção diferencial em algum ponto do passado.

Filosofia – O senhor contra- argumenta a famosa intuição “Mary, a neurocientista” (em que uma neurocientista é mantida num mundo em preto-e- branco e estuda tudo o que é possível saber sobre cores) defendendo que se ela realmente soubesse tudo sobre cores, ela não ficaria surpresa quando libertada de seu mundo em preto-e-branco e visse cores. Mas vamos fazer outra proposição teórica: imagine dois médicos se especializando em Oftal- mologia, um deles pelo método tradicional e o outro preso em um quarto com acesso a tudo quanto se pode saber a respeito (mas sem acesso a pacientes, nem praticando procedimentos, cirurgias, etc). A qual dos dois confiaria a operação de sua retina descolada (um evento grave)? Admitindo que escolha o tradicional, o senhor diria que confia mais nesse por acreditar que ele aprendeu mais do que o outro, efetivamente praticando a cirurgia de descolamento (e não apenas estudando tudo a respeito)? Seguindo, admitindo que o senhor considere que, sim, o tradicional aprendeu mais, isso tornaria a intuição “Mary, a neurocientista” um argumento válido em favor da chamada “abordagem a partir da primeira pessoa”? (De minha parte, acredito que sim, “Mary, a neurocientista”, apren- de mais quando vê as cores. Assim como, pelo mesmo motivo, o oftalmologista aprende mais pelas vias tradicionais da prática. Entretanto, isso não faz do experimento um bom argumento para a “abordagem a partir da primeira pessoa” e, portanto, não faz do experimento um obstáculo à abordagem cientí- fica (pela terceira pessoa), pelo mesmo motivo que o fato de não ser capaz de chutar a bola da mesma forma que Pelé não impede os fisiologistas de estudarem os músculos da perna satisfatoriamente).

Dennett – O que sua variação mostra é a absurda irrealidade do experimento imaginário original, pelo qual Mary é declarada como sabendo “tudo” o que há para saber a respeito de cor (exceto ter visto cores). Ninguém poderia jamais alcançar tal estado – simplesmente há coisas demais a saber. Da mesma forma, nenhum oftalmologista po- deria saber “tudo” a partir de livros, sem a prática. Portanto, é claro que eu escolheria o médico que aprendeu pelas vias tradicionais, com a prática. Claro, se eu pudesse receber alguma garantia (de quem? De Deus?) de que o médico que não teve a prática realmente sabia tudo, então esse médico seria super- humano e, neste caso, eu até poderia escolhê-lo para realizar a cirurgia.

TEMOS UM ACESSO EMPOBRECIDO DOS NOSSOS PROCESSOS INTERNOS. EXPERIMENTOS COM A VISÃO, POR EXEMPLO, MOSTRAM O QUÃO DESCONTÍNUOS SÃO OS ESTADOS NEUROANATÔMICOS

Filosofia – Será “pensamento” o nome que se dá ao produto fornecido pelo cérebro, tanto quanto “movimento” é o nome que se dá ao produto fornecido pelas pernas?
Dennett – Eu não me preocupo muito com tais definições. O produto final do cérebro é o controle do corpo. O pensamen- to (cognição, resolução de problemas, imaginação, etc.) é um produto intermediário.

Filosofia – As pernas podem ser substituídas por próteses. Será isso possível para o cérebro também?

Dennett – Sim, em princípio. É claro que se você substituir todo o cérebro de uma vez por outro cérebro (usado), você desaparecerá, e o “doador” é que receberá um novo corpo a operação será na verdade um transplante de corpo, não um transplante de cérebro. Mas se você substituir partes de seu cérebro, pedaço por pedaço, e deixar cada parte prostética aprender sua função própria com as partes originais restantes, então você poderia terminar eventualmente com um cérebro inteiramente protético. Isso em princípio, pois é muito difícil fazê-lo na prática, tanto agora quanto, quem sabe, sempre.

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