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É consensual que vivemos hoje a era da rapidez, do imediatismo, da automação,
do culto ao consumo e ao espetáculo - em tempos, por mais "espantosos" que
sejam, impróprios ao pensamento profundo e paciente. Não obstante, nunca
dispusemos de tamanho poder de transformação das coisas ao nosso redor, naturais
ou humanas, o que demanda que pensemos profunda e pacientemente sobre esse poder
e suas direções. Quais são, afinal, as chances e modos de sobrevivência da
Filosofia no turbilhão do século XXI e que tarefas podem e devem tomar para si
os pensadores deste conturbado tempo?
Justamente devido ao atual estado de coisas é que a Filosofia se faria
especialmente necessária. O problema é que semelhante reação salta por uma série
de questões importantes. Por que a Filosofia, por exemplo, não foi capaz de nos
trazer, desde o seu advento na Grécia do século VI a.C., a tempos mais calmos e
reflexivos? A Filosofia poderia fazer o que até hoje não esteve ao seu alcance?
É possível tratar a Filosofia como algo inteiramente inocente nessa consumação
histórica, à revelia da qual chegamos aos atuais impasses civilizacionais?
Enfim, há mínimo consenso a respeito da forma a ser assumida por um novo e ainda
"filosófico" pensamento?
A explosão interrogativa assim originada traz consigo a necessidade de pôr
sob os pés pelo menos um esboço da nossa história filosófica, ou seja, do que
tem sido a Filosofia desde as origens até sua atual e problemática inserção no
mundo. Tal história, naturalmente, terá de ser reconstruída a partir de alguma
perspectiva prévia e não absoluta, aberta a revisões posteriores. Semelhante
movimento, é claro, sinaliza já uma primeira idéia do que deve ou pode fazer a
Filosofia nos dias de hoje: proporcionar pontos de apoio, memórias e
estabilidades míninas para a formulação dos nossos agudos problemas.
DO MITO AO LOGOS Aristóteles serve aqui como ponto de
partida ao propor em sua Metafísica que tanto a Filosofia quanto a mitologia têm
sua origem no espanto (thauma): misto de maravilhamento e vertigem diante
daquilo que escapa aos limites da compreensão. A reação mitológica seria muito
mais antiga, retroagindo aos primórdios da humanidade. A novidade grega
con-sistiria na busca de explicações, de causas, de razões para os diversos
acontecimentos, explicações que, em princípio, tivessem seu fundamento em algo
mais previsível que a vontade dos deuses. Vários filósofos e historiadores da
Filosofia assim entenderam a novidade grega e a nomearam como "passagem do mito
ao logos", mais do que isso, como origem de um novo capítulo na história da
humanidade, marco inaugural da chamada mentalidade ocidental.
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Edgar Lyra é doutor em Filosofia pela PUC-Rio e
professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio e do Departamento de Relações
Internacionais do Ibmec. Lyra ministrou o curso "A filosofia e o século XXI - O
percurso do pensamento
ocidental", na Casa do Saber Rio
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As posturas mitológicas decerto não desapareceram em face do advento do élan
lógico-explicativo; entabularam, sim, longo e conflituoso diálogo com esse novo
élan, diálogo que até hoje se encontra em elaboração. Importante é que não se
pode conceber, a partir do mito, a Ciência e a tecnologia, hoje tão familiares,
seja a palavra "mito" entendida como oração, súplica, poesia ou tragédia.
Tampouco é possível reconstruir a história das nossas instituições sem o
registro argumentativo que caracteriza essa "aurora grega".
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