FILOSOFIA DA MENTE O Robô de Wittgenstein POR JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA
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JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA
é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. www.filosofiadamente.org |
Recentemente reli uma biografia de Wittgenstein publicada por seu amigo, Norman Malcolm, em 1958. Chamou-me a atenção, contudo, que Malcolm pouco fala da vida de Wittgenstein antes de ele se interessar por Filosofia.
Já na biografia escrita por G. Von Wright, encontramos alguma coisa a esse respeito. Wittgenstein estudou engenharia mecânica e, em seguida, fez um doutorado nessa área na Victoria University of Manchester. Foi nessa época, quando estudava o comportamento das pipas no ar e outros projetos aeronáuticos, que ele começou a ler Whitehead e Russell.
Ora, o que aconteceria se Wittgenstein depois de ter se tornado filósofo resolvesse dedicar- se novamente à engenharia e projetar um robô? Refletir sobre isso pode nos levar a um experimento mental em história da Filosofia com conseqüências muito interessantes.
Será que o robô de Wittgenstein funcionaria? Para um robô funcionar ele precisa executar um programa de computador, que na visão tradicional, fica no seu “cérebro”. Programas executam algoritmos, que, basicamente, consistem numa seqüência de passos a serem seguidos de acordo com um conjunto de regras prédeterminadas. Mas um robô, à diferença de um computador, precisa interagir com seu meio ambiente, ou melhor, ele precisa agir nesse meio. Para isso, ele precisa saber qual regra deve ser executada naquele tempo.
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| Wittgenstein, que era doutor em engenharia mecânica, talvez criasse um robô diferente após se tornar filósofo e ler Whiteahead e Russel |
NESSE MOMENTO É BEM provável que Wittgenstein abandonasse o projeto. Lendo suas Investigações Filosóficas ele perceberia sua dificuldade: para seguir uma regra, o robô precisaria de outra regra que lhe dissesse quando deveria seguir uma regra e assim por diante, num regresso ao infinito. Provavelmente um robô construído dessa maneira não sairia do lugar.
O regresso ao infinito das regras é apenas outra versão de um dos maiores problemas da robótica e ele se torna mais visível nos casos em que os robôs precisam ter alguma autonomia, ou seja, quando eles não podem ser totalmente controlados por programas pré-determinados. Isso aconteceu, por exemplo, com os robôs que foram enviados a Marte. Controlá-los a partir da Terra revelouse impossível, pois um comando transmitido por rádio, da Terra para Marte, leva cerca de dez minutos para atingir seu objetivo. Nesse meio tempo, muita coisa poderia ter acontecido por lá.
No caso dos robôs autônomos, o problema que a robótica enfrenta é o seguinte: qual movimento um robô deve executar se não existe uma regra que lhe diga qual regra deve ser aplicada em seguida? Ele terá de avaliar o movimento mais adequado a ser executado em seguida, talvez por uma avaliação de todas as conseqüências desse novo movimento, sob pena de ocorrer um desastre e ele se autodestruir.
MAS ISSO PODE nos levar a mais dificuldades. Haverá uma quantidade muito grande de possibilidades a ser avaliada, algo que levará à chamada explosão combinatorial. Desta chegamos, por sua vez, à complexidade computacional e aos problemas denominados intratáveis. Tais problemas aparecem rapidamente no caso de máquinas de jogar xadrez.
Se o programa tentar calcular as conseqüências de algumas jogadas e confrontá-las com as possíveis jogadas do adversário rapidamente ele estará lidando com milhões de possibilidades. Para calculá-las, estima-se que mesmo computadores muito rápidos ou supercomputadores podem levar cerca de 30 mil anos para resolver um problema desse tipo. No caso da ação humana, verificou-se que o mesmo acontece se começarmos a considerar ações possíveis.
UM ROBÔ autônomo teria de enfrentar este tipo de problema sempre que fosse “decidir” o que fazer em seguida. Mas diante desta dificuldade, o mais provável é que esse robô trave ou permaneça paralisado processando informações por alguns milhares de anos até executar o seu primeiro movimento.
Certamente o que acontece com este robô não é um problema técnico. Trata-se de uma questão conceitual na robótica. O problema está no modo como é concebido o conhecimento e como ele é aplicado na sua arquitetura.
PARA SEGUIR UMA REGRA, O ROBÔ PRECISARIA DE OUTRA REGRA QUE LHE DISSESSE QUANDO DEVERIA SEGUI-LA E ASSIM POR DIANTE, NUM REGRESSO AO INFINITO. UM ROBÔ CONSTRUÍDO ASSIM NÃO SAIRIA DO LUGAR
Nessa concepção, há o pressuposto de que nós interagimos com o meio ambiente unicamente por meio de representações.
Assim, mesmo que possamos fazer esse tipo de experimento mental na história da Filosofia e supor que Wittgenstein pudesse um dia voltar a ser engenheiro, certamente ele não enfrentaria esses problemas na hora de construir um robô, pois ele não o faria a partir dessa concepção de conhecimento baseada em regras e representações. Pois ele teria, provavelmente, lido suas Investigações Filosóficas do começo ao fim. Ele abandonaria a robótica tradicional, de sua época, para talvez sugerir outra. E provavelmente seu robô funcionaria.
Nas Investigações Filosóficas, quando Wittgenstein nos diz que precisaríamos de outra regra para saber se seguimos uma regra, ele faz uma crítica à própria idéia de ação concebida como representação. Sabemos quando estamos seguindo uma regra, mas não cognitivamente, pois quem faz a regra é a ação e não vice-versa. Esta é uma acepção da famosa frase wittgensteiniana meaning is use (o significado é o uso).
O robô de Wittgenstein começa pela ação e não pela representação de regras. É por isso que ele não precisará de regras para saber se está seguindo regras e assim ad infinitum. Seu robô não começa pensando para agir, ele age para pensar. Ele não fica paralisado. O meio ambiente colocará parâmetros para as regras que ele poderá seguir.
ESTA É OUTRA maneira de conceber o conhecimento. Mas só na década de 1990 os construtores de robôs parecem ter percebido o quanto ela faz diferença na hora de planejar a arquitetura de um robô.
Foi somente nessa década que uma nova discussão acerca da natureza da cognição se reiniciou na Inteligência Artificial. E também foi nessa época que apareceram robôs como o Pengi que ensaiaram a nova arquitetura.
As Investigações Filosóficas foram publicadas em 1953, e poucos anos depois a Inteligência Artificial começou a ganhar força plena. É uma pena. A Inteligência Artificial começou com uma concepção de conhecimento obsoleta e teve de aguardar os anos 1990 para se atualizar. Esse é um caso típico no qual a Ciência virou as costas para a Filosofia. Um caso que ilustra o quanto a pesquisa em Ciência cognitiva deveria ser interdisciplinar.
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