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CINEMA & FILOSOFIA
LARANJA MECÂNICA e o livre-arbítrio
POR FLÁVIO PARANHOS

FLÁVIO PARANHOS
é Médico, doutor (UFMG), Postdoc Fellow (Harvard Medical School) em Oftalmologia. Mestre (UFG) e doutorando (UFSCar) em Filosofia. Visiting Fellow do Center for Cognitive Studies, Tufts University, EUA. Coordenador da coleção de Filosofia & Cinema da Nankin Editorial.

Laranja Mecânica é de Stanley Kubrick ou de Anthony Burgess? O título do filme é o mesmo do livro. Há vários pedaços de diálogo que são, letra por letra, pedaços do livro. O filme preserva, com grande eficiência, um dos pontos fortes do livro: a linguagem. Neologismos ingleses-eslavos cunhados por Burgess são mantidos (alguns bem exóticos, como yarbles, para testículos). A música erudita, valorizada em um, o é também no outro (embora Burgess tenha pulverizado mais o gosto, enquanto Kubrick carregou mais sobre a nona, do bom e velho Ludwig van). Então é de Burgess, certo? Errado.

Laranja Mecânica é de Kubrick. Por um motivo curioso (as voltas que a história dá...): Kubrick baseou seu filme na edição americana do livro, e não na inglesa. O que significa dizer que eliminou o último capítulo. Burgess, infantilmente, dividiu seu romance em três partes com sete capítulos cada uma, 21 capítulos no total. Um anjo da arte e da Filosofia iluminou a cabeça do editor americano, que exigiu (sugeriu fortemente) que se retirasse o capítulo 21. Numa tacada genial, transformou um livro moralista (portanto pobre) num livro cínico (portanto rico). E nem se pode dizer que Kubrick não sabia da versão inglesa “completa”, pois o próprio Burgess escreveu um roteiro para o filme, que foi (graças aos deuses da arte!) rejeitado pelo diretor.

Alex (Malcolm McDowell na melhor interpretação de sua carreira) é um adolescente marginal, líder de sua própria gangue. Sua diversão é praticar hiperviolência, inclusive contra outras gangues. Espanca bêbados e mendigos, rouba, assalta, estupra. Mas Alex é diferente. Aprecia música. Não qualquer música, mas principalmente música erudita. A nona sinfonia de Beethoven (Ludwig van) lhe dá prazer especial. Seus comparsas não têm a mesma sensibilidade. Um deles chega a atrapalhar uma senhora que cantava a Ode à alegria (quarto movimento da nona) num bar¹, o que obriga Alex a lhe dar um corretivo. É o começo do fim da gangue. Os demais ensaiam uma reação, novamente rechaçada pelo forte temperamento de seu líder.

O filme Laranja Mecânica levanta questões como: “somos realmente livres?” ou, “somos responsáveis pelos nossos atos?”. Nietzsche diz que o livre-arbítrio é apenas uma habilidade teológica para punir e julgar. Mas, no filme, foi justamente um religioso que criticou a perda do livre-arbítrio do jovem Alex em troca de não ser mais um malfeitor

A coluna Cinema & Filosofia é um espaço para discussão sobre as obras filosóficas que chegaram às telas do cinema

ENTÃO, A OPORTUNIDADE para uma vingança surge e Alex é traído pelos companheiros. Preso, amarga dois anos numa cadeia de segurança máxima, fazendo amizade (hipocritamente) com o padre (pastor anglicano?) do presídio. Um dia, o Ministro do Interior aparece e oferece a oportunidade para quem deseja entrar num programa novo para, digamos, reforma de presos: o método Ludovico (um jogo com o primeiro nome de Beethoven² ). Alex aceita de pronto.

O “tratamento” Ludovico consiste em fazer o “paciente” assistir a vários filmes violentos (alguns sobre a Segunda Guerra Mundial), mantido preso numa cadeira e com um blefarostato que o impede de fechar os olhos (enquanto um enfermeiro pinga constantemente um colírio de lágrima artificial para não deixar a córnea secar). Tais sessões são precedidas de aplicações de drogas para potencializar o efeito desejado, a saber, que o paciente tome asco (a ponto de ficar fisicamente debilitado) a tais cenas. Há, entretanto, um detalhe particularmente cruel: a música de fundo, nas sessões de cinema violento, é dele mesmo, Ludovico de Beethoven (a nona, no filme, a quinta, no livro).

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