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CIÚME: dá para controlar?
Para alguns pensadores, é possível dominá-lo e torná-lo moderado, como no caso das paixões em geral. Para outros, não há meio-termo, é preciso extirpá-lo

POR PATRÍCIA PEREIRA

Shutterstock

Patrícia Pereira é jornalista e escreve para esta publicação.

Um sentimento ligado ao amor, mas que freqüentemente traz dor e angústia, o ciúme é o medo de se perder alguma coisa – um receio de que o ser amado se dedique a outro, por exemplo. Na Filosofia, o ciúme aparece sempre no contexto de uma discussão geral das paixões, em especial daquelas ligadas à amizade e ao amor. E aí há dois grupos distintos: os que acreditam ser preciso extirpar as paixões, já que não podemos controlá-las, e aqueles que afirmam ser possível e vantajoso governá-las por meio da razão. A forma como devemos lidar com o ciúme, de acordo com a Filosofia, vaga entre estas duas linhas.

A origem etimológica da palavra ciúme vem do latim zelumen e do grego zelos, por isso, muitas vezes ele é encarado como uma prova de amor, de cuidado com o outro. E daí vem grande parte da controvérsia sobre ser o ciúme algo bom ou ruim, já que, em excesso, ele pode trazer sofrimento tanto para quem o sente quanto para quem é vítima desta paixão.

Em geral, as reflexões filosóficas sobre o ciúme o aproximam do amor e do ódio. É o que aparece nas Máximas de La Rochefoucauld, quando este diz que “o ciúme sempre nasce com o amor, mas nem sempre morre com o amor”. (Máxima, 361). Esta frase aponta para o caráter ambivalente do ciúme: começa visando um valor positivo, mas pode se converter na adesão a um valor negativo.

É possível dizer que o ciúme tem, inicialmente, uma aparência louvável, por ser natural ao sentimento de amor. “Gostar de alguém ou de alguma coisa implica zelar por sua segurança ou por sua continuidade. Seu caráter ‘zeloso’, porém, facilmente se converte em um sentimento negativo, ao adquirir uma forma possessiva que suprime o caráter positivo desta ‘afeição’, resultando em egoísmo e prepotência ou em insegurança e temor”, afirma Carlos Matheus, doutor em Filosofia e professor titular do Departamento de Filosofia da PUC-SP.

 

“O que torna a dor do ciúme tão aguda é que a vaidade não pode ajudar-nos a suportá-la” STENDHAL

 

SUPERAÇÃO DO CIÚME PASSA POR INVESTIGAR SUA ORIGEM

É sempre possível investigar racionalmente – ao sentir ciúme – a origem do temor diante da ameaça de perda. Mais do que possível, é necessário. Isto porque é preciso saber se o ciúme envolve algum valor positivo ou valor negativo. segundo Descartes, o ciúme tem caráter positivo quando se aproxima da noção de “zelo”, quando se trata de conservar algo de grande importância, como a riqueza ou a honra. será negativo quando se aproxima da avareza, do egoísmo ou de mera insegurança pessoal, explica carlos Matheus, doutor em Filosofia e professor titular do Departamento de Filosofia da Puc-SP.

Sendo positivo, o ciúme pode justificar uma ação destinada a impedir a perda. sendo negativo, cria a necessidade de buscar um valor equivalente ao qual se possa recorrer para substituir o que se está na iminência de perder. “Quando negativo, o ciúme pode ser decorrente de uma baixa auto-estima e, neste caso, a investigação deve começar pelo exame que o ciumento deve fazer de si mesmo. Ninguém está isento do ciúme – como uma paixão e como sofrimento – mas todos podem superá-lo buscando dentro de si algum motivo para atribuir a si próprio um valor equivalente àquele que se vê em risco, sob a ameaça da perda”, diz Matheus.

Quanto mais seguros nos sentimos a respeito de nós mesmos ou de quem somos ou do valor que temos, menos corremos o risco do ciúme. No entanto, sempre estamos sob o risco de perdas. Assim como toda perda entristece, viver pressupondo perdas significa uma vida bastante infeliz, explica o professor do Departamento de Filosofia da Puc-SP. Do mesmo modo, viver sob a pressão do ciúme é viver sem liberdade ou sob pressão. No fundo, todas as perdas são dolorosas e causam tristeza, mas saber superá-las é uma das grandes lições da Filosofia estóica.

Neste ponto, Matheus lembra as palavras de epiteto: “só somos livres nos ocupando das coisas que só dependem de nós” (Pensamentos, I). o ciúme, neste caso, ocorre quando sofremos por causas que não dependem de nós. A Filosofia, mesmo sem pretender ser edificante, pode indicar o caminho da sabedoria de que fala Aristóteles, mostrando como as paixões podem ser conduzidas pela “sabedoria prática”. (Ética a Nicômaco, X, 8).


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