Como afirma Hannah Arendt, a "História conhece muitos períodos de tempos sombrios".
E, nestes tempos, muita coisa se obscurece e se torna dúbia. Tal ambigüidade e obscurecimento podem ser muito bem visualizados tanto no âmbito do público, quanto no cotidiano dos indivíduos. Afinal, viver em tempos sombrios faz muitas vezes que nos inclinemos em direção ao desprezo pelo mundo ou nos fechemos na ignorância, alienando-nos o máximo possível das coisas públicas. Este ignorar-se que aparece nos momentos nuviosos sugere uma espécie de tentativa de ultrapassagem, a qual, como afirma Arendt, emerge da busca por detrás das coisas, "como se o mundo fosse uma fachada por trás da qual as pessoas pudessem se esconder".
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Pena de morte
Não é possível estabelecer uma pena correspondente ao Holocausto para que seja feita justiça e se conceda o perdão. Nem a pena de morte seria suficiente. Segundo Derrida, não há como punir o criminoso com uma punição proporcional ao seu crime. Isto porque, "diante do infinito, todas as grandezas finitas tendem a se igualar; de modo que o castigo torna-se algo quase indiferente" |
É no contexto de tempos sombrios que a Segunda Grande Guerra brota. Com ela, alguns aspectos são salientados: se por um lado nos deparamos com um novo modo de encarar o mundo e a técnica, por outro, podemos afirmar que a Filosofia captura o cerne de seu objeto. Afinal, se toda Filosofia, como afirma Ernst Tugendhat, é uma Antropologia, então, o homem é o objeto da Filosofia. Mais precisamente o que entra em cena é a condição humana, o conceito de dignidade e a inclusão ou exclusão daqueles que merecem a valoração de humanos.
O Holocausto, assim, surge como o marco da minimização da condição humana e sobrelevação da técnica. O que se verifica, de fato, é que há uma mudança paradigmática pontuada tanto no contexto filosófico quanto jurídico. Se por um lado está a minimização da condição humana e, subseqüentemente, a perda da dignidade, por outro, como afirmara Albert Camus, instaura-se uma nova ordem jurídica, pautada em um "pensamento dito libertino [...], dos filósofos e dos juristas", na qual os burgueses, os cultos e os poderosos, seriam os únicos considerados capacitados para atender aos anseios das massas e de apontar para uma verdade unívoca acerca de quem seria ou não detentor do direito à vida digna.
Se, de fato, o esquecimento não pode coexistir com a violência e a coerção mentirosa e traiçoeira, resta-nos saber se há perdão
Com a dignidade humana abalada por uma quimera jurídico-científica, o mundo pereceu diante da intolerância para com o outro. No século XX, a intolerância ao outro, balizada pelo cientificismo da raça e pela 'força da lei' na exceção, começa a fazer um ruído que terminou emudecendo o mundo em campos de extermínio. Os indivíduos eliminados emergem como um fato evidente da 'barbárie contemporânea'. Esta nasce do espectro civilizatório que, enredado numa razão logística, tem por pano de fundo não o retrocesso, mas, antes, a exclusão da liberdade, a ratificação da desigualdade, o fim do espaço público e a minimização do próprio homem. Em outras palavras, o mal que se instaura com o Holocausto nazista nasce das ações cotidianas que 'desumanizam' e 'desmundializam' o indivíduo, dando-lhe 'imagens de inferno na terra'.
Este mal perpetrado pelos campos de extermínio, não somente os nazistas, despertou no pensamento contemporâneo um olhar crítico que se voltou contra a própria tradição filosófica. Camus, em O Homem Revoltado, afirma ter a Filosofia servido para tudo, inclusive para "transformar assassinos em juízes". Jean-Paul Sartre, diante do escárnio do humano no mundo do Holocausto, apontou ainda para o fato de que "quando os instrumentos estão quebrados e são inutilizáveis, quando os planos voam pelos ares e o esforço não tem sentido, o mundo aparece com um frescor infantil e terrível, suspenso sem rumo num vazio". Hannah Arendt disse que vivíamos "a banalização do mal".
Ora, com a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, em meados da década de 1930, verificamos um declínio dos projetos de cunho liberal no seio da Europa. Tal declínio principia uma era marcada pela mácula do autoritarismo e, além disso, assinalada por segregações.
Diante do fato de mais de oito milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, notadamente preparados para matar em escala industrial, uma pergunta aparece, a saber: é possível o perdão ou o esquecimento?
REMEMORAÇÃO DO HOLOCAUSTO
Em novembro de 2005, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução instituindo 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data foi escolhida por ser o dia em que, em 1945, os soviéticos libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. A resolução, proposta por Israel, foi co-patrocinada por outros 104 países e aprovada por consenso (sem necessidade de votação). O documento pede aos Estados- membros que criem programas de educação para enfatizar os horrores do genocídio e que incentivem a sociedade civil a promover a memória do Holocausto, negando que seja reduzido a um evento histórico. A data é uma homenagem aos judeus e às outras vítimas da exterminação nazista. |
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| Intolerância com o outro: prisioneiros em um campo de concentração nazista, onde diferentes grupos, como judeus, ciganos, comunistas e homossexuais foram confinados e, muitas vezes, mortos |
ESQUECER E LEMBRAR
De fato a pergunta é complexa e causa-nos perplexidade diante das ações monstruosas evidenciadas com e a partir da Segunda Grande Guerra. A resposta pode passar por diversas esferas, psicológicas ou sociais; contudo, diante da minimização da Condição Humana, será que a Filosofia pode nos dar alguma resposta? Ou ela está alijada da questão do perdão e do esquecimento?
Afinal, diante a tanta hostilidade, dessa punção de morte na qual o mundo atual parece estruturar-se, naquele poder legitimador da gerência calculada do bios - estas bases que Giorgio Agamben chama de um tanatopoder -, a pergunta segue de modo tautológico. De fato, vivemos a Era do Homo hostilis, uma espécie de animal vicioso e hostil para com aquele cuja humanidade não é reconhecida.
Perante isso, não há diálogo; antes, o que ocorre é a exclusão, a qual, na maioria das vezes, ultrapassa o vigor individual - a capacidade singular que aparece como caracterização particular e única -, traduzindo-se por violência. E violência, assim como traição, parece que nunca são esquecidas.
Se de fato, o esquecimento não pode coexistir com a violência e a coerção mentirosa e traiçoeira, resta-nos saber se há perdão.
Ora, se pensarmos o perdão como uma possibilidade, ou melhor, como condição para a reconciliação, seja ela a dos indivíduos ou a das coletividades, talvez encontremos uma resposta filosófica. Afinal, o perdão, nesse sentido, serviria para a continuação e conservação da História, ou seja, da própria vida.
Porém, continuar a vida significa, como afirmara Arendt, suportar as dores e poder "contar uma história sobre elas". Isso implica dizer que perdão não é sinônimo de esquecimento. Ao contrário, ele é lembrança.
Falamos aqui de Holocausto/Shoah, de apartheid, de crime de genocídio. Palavras que nos conduzem a uma ameaça, ao perigo. E o perdão é possibilidade, abertura, chance. Assim sendo, como defender o perdão diante do perigo de não darmos continuidade à nossa história?
Diante desse dilema, entre o perigo e a possibilidade, Jacques Derrida, Hannah Arendt e Albert Camus se apresentam para, filosoficamente, debruçaremse sobre o tema.
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| O Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, ou partido Nazista, que chega ao poder com Adolf Hitler, em 1933, vai sustentar a ideologia do extermínio |
Após Auschwitz, a razão se encontra sob suspeita. E não foi necessário que a razão estivesse dormindo para produzir monstros, para que o mal, em sua ação mais banal, se instaurasse. O genocídio cometido pelos nazistas não foi e não se mantém como um caso singular. O Shoah, ou Holocausto, infelizmente, não foi um processo único, daí talvez o contra-senso de seu esquecimento.
Mas se não há esquecimento, será que pode haver o perdão?
É justamente diante das possibilidades de se falar em perdão e esquecimento, diante daquilo que foi o Holocausto, que este discurso parece algo paradoxal. Afinal, existe uma espécie de correspondência, a qual podemos dizer que é tanto de ordem prática quanto metafísica. Uma correspondência entre o cometer e o sofrer o mal. Por um lado, o perdão deve vir de uma outorga daquele que fora acometido pelo crime, por aquele que sofrera, na pele e na alma, o mal; por outro, este também advém do arrependimento e da confissão daquele que é o executor do crime a ser perdoado.
O perdão emerge, assim, como possibilidade de se manter vivo e continuar a própria história
Ora, se não podemos esquecer, então, também fica difícil perdoar. "O perdão morreu nos campos da morte", afirma Vladimir Jankélévitch. Há um horror que paira sobre os escombros desarrazoados daquilo que foi um dia chamado de razão. E se a Filosofia tem algo a falar acerca do perdão diante do Holocausto, talvez seja na sua mudez, na impossibilidade local de se perdoar.
É aqui, neste ponto singular, no qual o impossível emerge, que a Filosofia deixa de ser muda. Afinal, não há reconciliação possível; e se não é possível, então o falar filosófico acerca do perdão está na ordem do impossível. Portanto, é somente para fora do acontecimento histórico que o perdão pode ser pensado. Disso deriva que só podemos pensar filosoficamente o perdão no seu âmbito conceitual-metafísico.
RAÇA PURA E EUGENIA
Adolf Hitler defendia a doutrina de pureza racial nazista, segundo a qual os alemães arianos pertenceriam a uma "raça pura", superior às demais. Em 1935, com as Leis de Nuremberg, proibiu o casamento ou contato sexual de alemães com judeus, pessoas com problemas mentais, doenças contagiosas ou hereditárias. Suas idéias se baseavam no conceito de eugenia, que busca criar meios para melhorar as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente. Controversa pelos dilemas éticos, a eugenia ficou muito associada ao Holocausto. |
Dos filósofos que pensaram o perdão, foi Jacques Derrida quem o olhou para fora do acontecimento. Para o filósofo magrebino, o perdão não está na ordem do político ou do jurídico. Para ele, há uma oposição entre a punição e o perdoar, e, assim sendo, se o perdão é alheio à política e ao jurídico, então só é possível perdoar aquilo que é imperdoável. Perdão é, portanto, algo excepcional.
Obviamente, não há nada de errado em se pedir o perdão, em se ter o remorso e se buscar uma reconciliação. O preocupante está, como afirma Derrida, no "simulacro, no ritual automático, no cálculo hipócrita ou naquelas cenas que parecem representar". O perdão banalizou- se nas ações globais e institucionais; e "uma comissão ou um governo não pode perdoar".
Pois, afirma Derrida, toda a vez que "o perdão está a serviço de um fim, seja ele nobre ou espiritual, como o resgate ou a reconciliação, ou seja, cada vez que ele tem a intenção de restabelecer a ordem social, nacional, política ou de normalidade psicológica, por meio de luto ou terapia, ele não é puro [...]. O perdão deveria ser excepcional e extraordinário, colocando a impossibilidade para o ensaio, como se tivesse interrompido o curso normal da temporalidade humana".
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"O perdão é a mais divina vitória" FRIEDRICH SCHILLER |
SEM RECONCILIAÇÃO
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| Pensar a desconstrução Autor: Jacques Derrida Editora: Liberdade 350 pág. |
Ora, se o perdão está no âmbito da excepcionalidade, no domínio do impossível, então este não pode ser confundido com os conceitos ou com as idéias de anistia e de prescrição. Afinal, tais conceitos não significam a ação de perdoar; antes, se ancoram na mentira, no engodo de um falso perdão.
Lembremos que há crimes e ações em que não cabe o esquecimento. Anistia é uma palavra de origem grega, derivada do termo amnestia, que significa esquecimento. Esquecer, nesse caso, talvez signifique trair e mentir. Fingir que não houve o ocorrido, que o Holocausto, por exemplo, não teve lugar como acontecimento.
Contudo, como já sabemos, o perdão morreu nos campos de Auschwitz e Treblinka. Virou fumaça negra dos corpos carbonizados de indivíduos desumanizados. Não há perdão nem reconciliação para isso. E nem o aparato jurídico cria uma possibilidade para o perdão, porque nem a pena de morte pode surgir como tábua salvadora.
O crime ultrapassou todas as fronteiras e o Shoah não é só judeu. O Holocausto é para todos os desumanizados, os que tiveram suas vidas reduzidas. Em outras palavras, ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, negros, opositores políticos, sejam eles quais forem tiveram suas vidas reduzidas a sua mínima parte. E não há penalidade nem perdão possível para tais ações.
Continuar a vida significa suportar as dores. Perdão, contudo, não é sinônimo de esquecimento, ele é lembrança
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| Exército alemão em atuação na Segunda Guerra Mundial (1939- 1945). A guerra surgiu de tempos sombrios, em que vigorava o desprezo à condição humana |
A anistia serviria tão-somente como possibilidade de um esquecimento, mas a Filosofia e o mundo sabem que não se pode esquecer o imperdoável. E nem a pena de morte é capaz de punir ou reconciliar criminoso e vítima, pois, como afirma Derrida: "não se pode punir o criminoso com uma punição proporcional ao seu crime: pois, diante do infinito, todas as grandezas finitas tendem a se igualar; de modo que o castigo torna-se algo quase indiferente; o que aconteceu [a Shoah] é literalmente inexpiável. Já não se sabe mais a quem se dirigir, nem a quem acusar".
Diante disso, o perdão, no que diz respeito ao acontecimento, ao evento histórico do Holocausto, é, portanto, impossível; e o castigo se segue dessa mesma impossibilidade. Contudo, é justamente na impossibilidade do perdão que este aparece como excepcional. E, paradoxalmente, pergunta-se se é no fim da história do perdão, como afirma Duque-Estrada, que não encontraremos sua gênese?
Ora, a Filosofia não é sábia. É apenas a grande amante do saber. De tal modo que, para além do perdão, em sua gênese, da impossibilidade de reconciliação, outras questões se apresentam.
É nesse compasso que Hannah Arendt emerge. Tanto judia quanto alemã, ela afirma que "horror em si, na sua monstruosidade nua, transcendeu todas as categorias morais e explodiu com todos os padrões de competência; tornando-se algo que os homens não podiam nem punir adequadamente nem perdoar". Afinal, como já dito, o perdão morrera nos campos de extermínio.
Contudo, se a Filosofia fica sem respostas precisas para compreender o que foi ou o que é o Holocausto, se neste cabe esquecimento ou perdão, quem sabe o olhar estético, pelo qual muitos filósofos se debruçaram, nos guie.
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"O esquecimento é mais sublime que o perdão" THOMAS CARLYLE |
RESPOSTA DA ARTE
Como dissera Rainer Maria Rilke, poeta preferido de Hannah Arendt, algumas vozes ecoam:
Vozes, vozes. Ouve meu coração como outrora apenas os santos ouviam, quando o imenso chamado os erguia do chão
Eles, porém permaneciam ajoelhados [...]
Os prodigiosos, e nada percebiam, tão absortos ouviam.
Não que possas suportar a voz de Deus, longe disso.
Mas ouve essa aragem, a incessante mensagem que gera o silêncio
Ergue-se agora para que ouças o rumor [...] dos jovens mortos. [...]
Os mortos precoces não precisam de nós, eles que se desabituam do terrestre, docemente, como de suave seio maternal.
Mas nós, ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes [...] só através da dor atingimos a feliz transformação [...]
sem eles poderíamos ser?
No espaço que abandonava, jovem, quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu em vibrações - que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.
(Primeira Elegia)
Há, sem dúvida, nas palavras de Rilke, um olhar para fora daquilo que temos por consumado. Afinal, nas vozes ecoadas parece certo que os mortos não precisam mais de nós. E nós, será que somos capazes de viver sem ecoá-los?
Como dissemos, diante do Holocausto não há esquecimento e o perdão está na ordem do extraordinário, na sua impossibilidade. Então, o que nos resta é a lembrança. Uma lembrança ecoada pelas vozes que gritaram nas câmaras da morte. Vozes que gritaram, na maioria das vezes, para ouvidos surdos. Ecos dos mortos dos séculos XX e XXI, por que não dizer? Ecos de judeus, ciganos, protestantes, católicos, muçulmanos, palestinos, americanos, japoneses [...], bósnios. Ecos de homens que viveram o mais sombrio dos tempos. Na era da razão absoluta, o que impera é a desconsideração, também absoluta, pelo humano.
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| Ernst Tugendhat, filósofo nascido na Tchecoslováquia em 1930, de uma família de judeus que migrou para sobreviver. Segundo ele, toda Filosofia é uma Antropologia e o homem é seu objeto |
A Filosofia, diante dessa questão, parece apenas poder se apresentar na reverberação dessas vozes aqui apontadas; pois, estas, mesmo que surdamente ecoadas, acabaram sendo ouvidas ou preconizadas. Na Filosofia e na Arte, certos homens que também vivenciaram esses tempos sombrios foram capazes de ouvi-las. E, sem jamais resignarem-se à doença da peste ou renunciarem à glória de ser homem, à beleza intrínseca ao gosto da pedra quente, recusaram a minimização de sua condição. Solidários ou solitários. Ainda que presos à tradição. Estes homens não ficaram surdos. Afinal, eles sabiam que "como todas as doenças deste mundo, [há uma] verdade em relação aos males deste mundo [a qual - como aludira Camus na voz de seu personagem Dr. Rieux, A Peste] é também verdade em relação à peste. [Esta] pode servir para engrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco ou covarde para se resignar à peste".
A Filosofia da era da razão tornouse paradigma de recusa. No lugar do esquecimento, o que encontramos são os ecos de quem quer ouvir e fazer samento. Recusa da coerção e da resignação à ostentação de um exibicionismo da violência e do poder, seja ela vinda do cano de uma arma ou na sutileza ardilosa das amarras psíquicas.
Dito isso, o pensamento erigido a partir do Holocausto não quer esquecer, mas, isto sim, quer apontar para o sim à vida, para a validade desta. Em outras palavras, deseja apontar para o próprio homem. Afinal, diante do espetáculo da desrazão, que impeliu a humanidade a uma condição incompreensível, apenas uma Filosofia da revolta, como afirma Albert Camus, pode pensar novamente o homem.
Ora, quando falamos do Holocausto e do modo como a Filosofia pensa a possibilidade de um perdão ou de seu esquecimento, percebemos que falamos de tempos que apenas podemos definir como sombrios. Tempos que a razão não é capaz de abarcar em sua totalidade; e que a Filosofia parece apenas reverberar na busca de uma apreensão não conceitual, como assim o desejaria a tradição.
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| A origem da palavra anistia está associada ao esquecimento. Questiona-se , no caso do Holocausto, se esquecer não significaria fingir que ele não ocorreu |
ESCURIDÃO E LUZ
À vista disso, vale a pena voltarmos para a arte em sua apreensão filosófica. Afinal, como afirmara Bertold Brecht, no poema À Posteridade, "certamente eu vivo nas idades escuras!" [...] Contudo, o ultraje à injustiça [...], o ódio legítimo que leva à fealdade, quando se torna suficientemente real, ou seja, quando é público não é misterioso. [...] Sendo assim, muito menos sombrio. As sombras são misteriosas, justamente por escamotearem a verdade. Seguem-nos como "um alimento que se come entre massacres". Diz Brecht - "A sombra - dá configuração ao assassinato". É a indiferença o que dá a sombra. O que cria um mundo de ilusões. Uma caverna coletiva ou pessoal onde não vemos o feio. Este não é real, "ficciona-se" apenas na imagem de outrem.
Os tempos sombrios são, portanto, tempos ambíguos, nos quais "falar das árvores é quase um crime". Afinal, as ruas cheiram a sangue. Contudo, este tempo é míope, e nos cega. Uma cegueira turva, desfocada do real. E ruas nos conduzem [lembrando mais uma vez Brecht] como areia movediça. Na "inapercepção" da verdade.
O Holocausto, assim, é a certeza que vivenciamos tempos sombrios. Tempos tanto de sombras, tal qual os da caverna platônica, quanto tempos nebulosos e ameaçadores, no qual é a fealdade o que impera. Porém, como o filósofo que escapa à caverna platônica e descobre a luz, em tempos sombrios, também obras, pessoas e atos são capazes de iluminar. E, como afirma Arendt:
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Mesmo que essa luz seja apenas uma faísca, um ponto incerto bruxuleante, fraco; ou algo forte, incandescente, que clareie de forma a nos ofuscar os olhos, o que conta é que, seja qual for a intensidade da chama que ilumina, ela permita que resistamos em momentos em que tudo parece imerso em escuridão. [...] O que verdadeiramente importa é que tal iluminação pode bem porvir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e freqüentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra". (Homens em tempos sombrios.)
Em tempos de Holocausto, nos quais falar em perdão e em esquecimento se torna algo extraordinariamente impossível, parece haver uma Filosofia passível de iluminação.
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
AMITRANO, Georgia. Ecos de Razão e Recusa: uma Filosofia da Revolta. de Homens em Tempos Sombrios. Tese (Doutorado em Filosofia) - PPGF, UFRJ, Rio de Janeiro, 2007.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo; Posfácio de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993
______. Homens em tempos sombrios. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.
______. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. S. O. Heinrich. São Paulo: Companhia das Letras. 1999.
______. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
______. Responsabilidade e Julgamento. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
CAMUS, Albert. Lettres à un Ami Allemand, avec une préface inédite. Paris: Gallimard, 1948.
______. A Peste. Trad. Valerie Rumjanek. 9ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1996.
______. O Homem Revoltado. Trad. Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1996.
DERRIDA, Jacques. Pardonner: l'impardonable et l'imprescritible, Cahier de L'Herne Derrida, Paris, Éditions de L 'Herne, 2004, pp. 544 & ff. 544 e ss.
DUQUE ESTRADA, Paulo C. Notas sobre a Desconstrução do Perdão e do Direito. In:
CASTELO BRANCO, Guilherme. (Org.) Filosofia Pós-Metafísica. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 2006.
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