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Nem moderno nem pós-moderno
A terceira margem da contemporaneidade: somos a continuação da modernidade ou estamos constituindo uma ruptura para algo novo?

POR RAFAEL HADDOCK-LOBO

Rafael Haddock-Lobo é pesquisador Pós-Doutor pela USP/Fapesp e autor de Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas (Loyola/PUC-Rio, 2006) e Derrida e o labirinto de inscrições (Zouk, 2008)

Sempre que ouvimos alguém rotular uma obra-de-arte, um discurso ou mesmo uma atitude sob o título de pós-moderno, de cara se sente o cheiro de crítica, desmerecimento ou deboche. Seria interessante, então, se pensar certa genealogia deste descrédito do pós-moderno e, de certo modo, tentar compreender por que a maior parte daqueles que ainda insistem neste termo o faz justamente por uma estratégia de isolamento.

Pouco antes de seu falecimento, em sua última entrevista concedida ao jornal francês Le Monde, Jacques Derrida (1930- 2004) utilizou o termo "geração" para indicar os pensadores que seriam seus contemporâneos, como Lacan, Foucault, Lyotard, Deleuze e Lévinas, entre outros (Aprender finalmente a viver: entrevista com Jean Birnbaum. Coimbra, Ariadne Editora, 2005). Mas mesmo antes disto, no diálogo entre o filósofo e a psicanalista Elizabeth Roudinesco, a primeira parte da conversa foi também sobre a herança recebida por Derrida e seus "contemporâneos" (De que amanhã... Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004).

É claro que não se pode contestar que Derrida e os pensadores que se formaram em um mesmo período teriam recebido, ao menos, informações parecidas. Mas o fato é que isso não nos parece permitir afirmar ainda de modo preciso, devido a gama infindável de diferenças entre tais pensadores, que eles pertenceriam a uma "geração" e que, mais ainda, pudessem ser classificados sob o mesmo rótulo. Isso, claro, sem que se chegue a problematizar a possibilidade de qualquer rótulo dar conta daquilo que pretende rotular. E esta é a razão de Derrida, na supracitada entrevista, utilizar o termo "geração" entre aspas.

Sem rótulos

Nesse sentido, o que motiva as observações que se seguirão é a tentativa de mostrar a insuficiência da maliciosa e às vezes até mesmo ridícula necessidade de desqualificação de certa "geração" de filósofos por meio de um pré-julgamento, como ocorre com qualquer preconceito. Por essa razão, não vestiremos aqui a camisa nem dos autoproclamados herdeiros da modernidade nem dos que são tidos como pós-modernos, no intuito de mostrar que, na verdade, tais "gerações" de pensadores são, de certo modo, envolvidas em uma contemporaneidade. Porém, esta não estaria relacionada a uma presença empírica no mundo em determinada época, nem a um co-pertencimento ou vizinhança de pensamento e sim ao fato de que, se somos sempre herdeiros da tradição, se não há como fugir de um trabalho filosófico que pense esta tradição que nos antecede, seja de modo crítico ou não, só há como se falar em contemporaneidade.

O filósofo Danilo Marcondes, em seu livro Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001), quando se dedica a apresentar a idéia de modernidade, afirma que talvez esta seja uma das noções de mais fácil apreensão, por estar tão próxima de nós e por sermos ainda hoje, de certo modo, herdeiros desta tradição. Tal tradição a que Marcondes se refere teria como seus precursores Francis Bacon e René Descartes, e seria marcada justamente por um rompimento com o pensamento medieval. Isto quer dizer que o espírito moderno caracterizava-se pela necessidade filosófica de uma constante revolução e inovação. Segundo o autor, o conceito de modernidade estaria sempre relacionado ao novo. E completa "Trata-se, portanto, de um conceito associado quase sempre a um sentido positivo de mudança, transformação e progresso"

Fenda de um dos campos de concentração de AuschwitzBirkenau, na Polônia, local que se tornou símbolo do holocausto. Hitler construiu mais de 40

Entretanto, a já antecipada controvérsia em torno da modernidade e da pósmodernidade (que envolveu, sobretudo, os filósofos Jürgen Habermas e JeanFrançois Lyotard) dá a entender que, nos dias de hoje, haveria apenas duas posições possíveis a serem tomadas em relação àquilo que se definiu acima como modernidade: uma continuísta e a outra descontinuísta. Sob este aspecto, de um lado, Habermas defenderia o projeto da modernidade, considerando que este projeto não está acabado, mas precisa ser levado adiante, e de outro Lyotard, que introduziria a noção de pós-modernidade, como uma necessidade de superação da modernidade.

Crítica à Modernidade?

O objetivo do grande livro de Lyotard, A condição pós-moderna, não é o de simplesmente empreender uma crítica da modernidade. Lido atentamente, e não sob um enfoque mal-intencionado ou leitura limitada, pode-se facilmente constatar que o pensamento pós-moderno inaugurado por Lyotard não defende uma crítica ou uma ruptura total com a modernidade. Por outro lado, o objetivo da chamada pós-modernidade é uma superação de metodologia e dos pressupostos epistemológicos da modernidade. E, sobretudo, da própria noção eminentemente moderna de crítica. Sob esse aspecto, pode-se dizer que o que motiva Lyotard seria a busca de novos rumos, de novas possibilidades para a Filosofia - talvez mesmo uma nova experiência de pensamento.

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